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O trabalho

Paulo César Razuk
| Tempo de leitura: 3 min

Por conta de tantos atrativos e pela competitiva voracidade de consumo, parece-me que muitos jovens, ao ingressarem no mercado, querem resultados imediatos: rapidamente esperam poder comprar um carro, um celular ou realizar aquela viagem. Como o curto prazo não permite realizar esses sonhos, iludidos, buscam outro emprego e depois outro. Muitos reconhecem e encaram com naturalidade o fato de que precisam trabalhar e, mesmo assim, sofrem constantemente pela carga de trabalho que têm. O importante, no entanto, é descobrir um sentido mais profundo para o trabalho e a necessidade de ser produtivo. A propensão ao trabalho e à realização é um componente essencial da vida humana. Uma pessoa não pode ficar satisfeita se não é produtiva. A natureza humana detesta receber alguma coisa em troca de nada.

Conta a literatura sufi que um rei contratou um lavrador para ficar no seu castelo e andar de um lado para o outro com uma enxada na mão como se estivesse no campo. O rei, amigo da natureza, sentia grande prazer ao ver a elegância simples do lavrador andando para lá e para cá e lhe pagava bem pelo "trabalho". Mesmo assim, após distrair o rei durante vários dias, o lavrador recusou-se a continuar.

- Mas eu lhe pago com generosidade ? disse o rei surpreso ? muitas vezes mais do que você ganharia se trabalhasse no campo e quase não tem de fazer esforço algum.

- O senhor não parece entender ? explicou o lavrador ? não posso continuar a fazer algo, mesmo que não exija esforço, que nada produz. Prefiro trabalhar arduamente e ser produtivo a ser bem pago para fazer algo que não dá frutos. É esta a resposta. Por intermédio do trabalho, o ser humano se torna um benfeitor, um colaborador da vida. Ao criar o homem de tal forma que ele obtém seu prazer mais profundo por meio de seu próprio esforço, o Eterno nos concedeu a maior de todas as dádivas: a capacidade de nos tornarmos parceiros na criação. Portanto, o trabalho não é uma coisa que fazemos, apenas, a fim de ganhar dinheiro suficiente para nos cercarmos de conforto material; o trabalho é a expressão natural da vida humana. O trabalho não é um fardo que devemos suportar com cansaço, mas, o próprio material do qual somos feitos e a nossa contribuição à vida.

Não importa o quanto tenhamos realizado, podemos e devemos superar nossas realizações anteriores. Existem diferenças acentuadas entre cada fase da vida humana, mas, devemos ser produtivos em todas elas. Até mesmo uma criança, poupada da necessidade de ganhar o próprio sustento, deve ser produtiva por intermédio da educação, do estudo e do crescimento emocional. O trabalho na busca pelo conhecimento é quem derruba os enormes troncos ou empecilhos na direção de uma vida melhor. É este trabalho quem extirpa a intolerância, a hipocrisia, a superstição, o egoísmo e, principalmente, a ociosidade.

Mas, o trabalho como fim em si mesmo não pode trazer plena satisfação ou realização. Cada vez mais pessoas percebem que é possível ter uma carreira imensamente bem sucedida e mesmo assim sentirem-se vazias. Se Você não nutrir suas próprias necessidades emocionais e espirituais, quantidade alguma de sucesso material irá satisfazê-lo. No entanto, o crescimento espiritual e o trabalho da vida diária são interdependentes e inseparáveis. Já ouvi descreverem a alma humana como estando enclausurada em uma casca opaca de muitas camadas. Dentro da casca, a alma pode estar extremamente desenvolvida. Pode até ser uma grande alma, com capacidade de revelar uma grande Luz. Mas, enquanto o trabalho físico de quebrar a casca não ocorrer, a transformação não acontece. A Luz não poderá ser percebida e recebida.

Portanto, ao final de cada dia de trabalho, se perguntarmos a nós mesmos: estou usando todos os recursos e habilidades que me foram concedidos para produzir mais do que recebi? Se pudermos responder sim a esta pergunta, saberemos que estamos no caminho certo em direção a uma vida mais significativa.


O autor, Paulo César Razuk, é professor titular aposentado do Departamento de Engenharia Mecânica da Faculdade de Engenharia da Unesp - câmpus de Bauru

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