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Entrevista da Semana: Ozires Silva

Wilson Marini
| Tempo de leitura: 9 min

Na parede do seu escritório, em São Paulo, há um relógio cujos ponteiros não obedecem à ordem natural. Depois do 12 seguem-se no sentido horário o numeral 11, o 10, o 9... Quem se fixa na surpresa da ordem invertida lê uma mensagem: "Olhe além da primeira impressão". O relógio é um sinal da personalidade do executivo que ali chega sempre pontualmente às 8 horas, o engenheiro e empresário Ozires Silva, 80 anos de idade: "Uma das bases do projeto da natureza é a outra alternativa. Cara ou coroa, dia ou noite, sim ou não, agora ou depois, é sempre o binômio. Podemos pensar diferente. Então um dia mandei fazer esse relógio".

Ele é o próprio exemplo do que diz. Sonhou em construir aviões numa época em que não existia nem escola de aeronáutica no País. Acabou fundando a Embraer, hoje a terceira maior fabricante de jatos comerciais do mundo. É um homem racional. Levanta às 6h30 e trabalha 12 horas ou mais. Não pratica atividade física, mas come muito pouco. "Frugal, de 300 a 350 gramas em restaurante de comida por quilo, não sou comilão".

Na terça-feira próxima, em Bauru, Ozires Silva será a figura central do lançamento de sua biografia, "Ozires Silva - um líder da inovação". A entrevista:

APJ - Como surgiu a ideia do livro?

Ozires Silva - "Há dois anos, numa reunião no ITA,um colega mencionou que estava na hora de se escrever uma biografia a meu respeito. Eu disse que já havia escrito alguns livros sobre a história da Embraer onde havia incluído algo sobre a minha vida pessoal. Nem pensei que estivesse falando seriamente, mas o Décio Fischetti disse "eu vou escrever". Ele é dono de uma editora em São Paulo. Foi interessante porque ele seguiu um caminho diferente, fez uma grande pesquisa inclusive trazendo de volta coisas que eu já nem me lembrava. Escreveu o livro até rapidamente, num ano e meio. Em 15 dias sairá a edição em inglês, para os Estados Unidos e Europa.

APJ ? Suas notas no Ernesto Monte eram boas?

Ozires - Não eram boas, não. No primeiro e segundo anos, a escola não funcionava bem, faltavam professores, as aulas não eram grande coisa. Na terceira série veio um diretor de São Paulo trazendo um time de professores e a escola mudou extraordinariamente. Isso foi na realidade o motor da mudança da minha vida. Era o ano de 1946.


APJ - O que mudou?

Ozires - O novo diretor botou ordem na casa. O ginásio passou a funcionar melhor e tive professores que como moleque não gostava, mas olhando na perspectiva de tempo eles transformaram minha vida. Bauru era dominada pelas ferrovias. Naquele cenário, eu ia acabar sendo ferroviário. E efetivamente aquela não era a minha vocação. Esses professores vindos de São Paulo começaram a demonstrar de vários meios, dois deles em particular, o de matemática (Argino) e o de português (Clemente Segundo Pinho). Tinha também o professor Sérgio, de química, que contribuia nessa direção. Sobretudo os dois primeiros comentavam muito sobre a força transformadora da educação. Discutíamos isso nos intervalos, que essa força poderia transformar as nossas vidas. Em vez de ser um ferroviário no futuro, poderíamos pensar maior e sair fora daquele ambiente que poderia nos segurar.


APJ - Como era Bauru à época?

Ozires - Uma cidade com 40 mil habitantes. Tivemos o privilégio de ter um grande presidente da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil, um coronel do Exército que investiu um bocado no Aeroclube local, criou uma escola de aeromodelismo, uma escola de planadores e uma de pilotagem. E aquilo se transformou em foco da molecada, inclusive eu próprio. Ele trouxe um expatriado da Suíça, fugitivo da Segunda Guerra Mundial, Kurt Henrich, protagonista importante na minha vida pessoal. O Kurt era fabricante de planadores na Suíça e começou a tentar fabricar em Bauru. Ele nos chamou a atenção do avião não do ponto de vista da pilotagem só. A molecada quer só pilotar avião. Ele chamou a atenção sobre as invenções espetaculares dentro de um avião. As soluções técnicas, os dispositivos. E aquilo se transformou para mim algo fascinante. O Kurt influenciou muito a gente. Ele falava das ciências exatas, formação de engenharia. Daí que começou a emergir em minha cabeça e na do Zico meu amigo (Benedito César) que todos os aviões no Brasil eram americanos. E o professor Sérgio era fã de Santos Dumont. Estranhávamos. Por que Santos Dumont foi para a França? Por que depois dele cruzamos os braços e os americanos desenvolveram a indústria aeronáutica e todos os aviões do Aeroclube de Bauru são americanos? Foi com isso que aquela vocação de ser engenheiro aeronáutico surgiu nos dois jovens. Descobrimos que o Brasil não tinha formação nessa área naquela época. Lendo revistas, víamos anúncios de formação nos EUA e escrevíamos para lá. Chegaram catálogos bem feitos. Aí pensamos em fazer uma carreira na aviação. Não tinha curso no Brasil. Nossos pais não podiam nem pensar em curso no exterior. O dólar na época era uma barreira. O gerente do banco disse que era preciso autorização do Ministério da Fazenda para trocar a moeda da época, os réis. Foi aí que foi criado em Bauru um Tiro de Guerra. E o comandante (sargento Sobrera) sempre nos via conversando na Avenida Rodrigues Alves num banco debaixo de árvores. Vocês têm que entrar para a FAB (Força Aérea Brasileira), disse ele. FAB, o que é isso?, perguntamos. Ele arranjou os catálogos para o exame de admissão e decidimos prestar o concurso. Na primeira tentativa, evidentemente tomamos pau. Mas passamos no exame de 1948 e nos formamos em 1951. Zico decidiu ir para a aviação de caça e eu para a de transporte. Fui para um destacamento do Correio Aéreo Nacional em Belém. Zico ficou no Rio. Quatro anos depois, em 1955, Zico morreu e eu perdi confesso aquele embalo. Sempre nós dois conversando e de repente meu grande amigo morreu no acidente. Sinceramente, tudo aquilo parece que desapareceu de minha cabeça.


APJ ? E Então...

Ozires - Passei a viver normalmente, sem pensar mais na ideia de fabricar aviões. Estava voando na Força Aérea, gostava muito, fazíamos o Correio Aéreo com uma perna na Amazônia, foi um período rico de minha vida, aprendi muito sobre a história do Brasil. Até que um dia fui acordado às 3 horas da manhã por um oficial da Aeronáutica aluno do ITA (Instituto Tecnológico de Aeronáutica, de São José dos Campos) que precisava fazer um voo de cheque para renovar a carteira de pilotagem. Durante o voo, perguntou: por que você não faz o ITA? Será que eu posso?, respondi. A FAB tinha criado o ITA na mesma época em que nós estávamos questionando que o Brasil não tinha escola de formação de engenheiro aeronáutico. Falei com meu comandante na Base Aérea de Cumbica, era o Roberto Faria Lima, irmão do ex-prefeito de São Paulo. Estudei feito um alucinado para poder desenferrujar, já estava com 28 anos de idade, e passei no concurso. Em 1962, me graduei em engenheiro aeronáutico e aí quando recebi o diploma do ITA, me lembro até hoje. Olhei para o diploma e disse: Estou com a qualificação certa, no local certo, era o CTA (Centro Técnico Aeroespacial, também em São José dos Campos), agora preciso estar no momento certo. Foi justamente nesse momento que o diretor-geral do CTA se aproxima e me convida para ficar trabalhando ali. Era o momento certo, somou tudo. Comecei a trabalhar já como engenheiro aeronáutico, a convencer pessoas de fazer um programa diferenciado para produzir aviões. Percebi que o veio mercadológico não passava pelos empreendedores na área da aeronáutica. Pensavam na tecnologia de produzir aviões, como produzir, fazer protótipos, mas como vender avião muito pouco se pensava. Com um time de cinco colegas do ITA começamos a pensar duramente em como fabricar para vencer. Compreendemos que a dimensão do mercado era insuficiente para justificar uma fábrica de aviões. Tínhamos que nascer com um programa internacional para conquistar mercados não só do Brasil mas lá fora. Um sonho imenso. A gente não fabricava aviões, o mercado internacional era dominado pelos franceses e americanos. Queríamos dar partida num programa que fabricasse aviões internacionais, que pudéssemos vender e ganhar na competição mundial, o que não é nada fácil. Passamos dois anos estudando. Até que um dia descobrimos que todas as cidades do mundo estavam perdendo transporte aéreo porque os aviões estavam crescendo de tamanho, precisando maior infra-estrutura e começaram a se afastar das pequenas cidades. Vimos que havia um buraco no mercado para aviões de pequeno porte. Todo mundo fazia jatos cada vez maiores e velozes e as linhas aéreas passaram a fugir das pequenas cidades. Vimos aí grande possibilidade de fazer um avião de pequeno porte que restabelecesse o tráfego aéreo nas pequenas cidades. As pequenas e médias cidades do futuro não terão transporte aéreo? É claro que terão. O ministro da Aeronáutica da época não quis aprovar o projeto, mas veio outro ministro que gostou da ideia e permitiu que chegássemos à criação da Embraer por meio desse enfoque mercadológico internacional. Ano passado, a Embraer não vendeu 10% dos seus aviões no Brasil. Hoje temos aviões voando em 90 países do mundo. Boeing e Airbus brigam conosco, o que é uma chatice, mas uma honra ao mesmo tempo. Daí a ideia do lançamento do livro em Bauru. Tudo isso começou em Bauru.


APJ - Como o senhor organiza a sua vida pessoal?

Ozires ? Recebo 200 e-mails por dia, dou uma olhada e vou deletando. Não tenho esse tempo disponível para ficar em frente ao computador e responder tudo. Estou pensando se vou levar meu computador a Bauru. Se eu não levar, quando voltar tenho 400, 500 e-mails para responder. Acho que vou levar. No carro enquanto vou indo já derrubo alguns. Adoro o trabalho. As pessoas dizem que eu preciso distrair. Se me derem lazer eu morro de tédio. Chego em casa tarde em geral. Outro dia cheguei às 23h30. No fim de semana boto meu trabalho em dia, escrevo artigos.


APJ - O senhor alimenta algum sonho?

Ozires - Meu sonho é ver esse país crescer. Quando vejo um garoto no sinal vermelho jogando bolinhas para catar alguns níqueis eu fico envergonhado. Fico olhando para a falha de nossa geração de permitir que isso aconteça. Queria ver os brasileiros ricos. E é possível. Pela educação.

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