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"Sonho" dos Brics se tornou realidade

Daniela Milanese
| Tempo de leitura: 4 min

Londres  - Há dez anos, o então economista-chefe do Goldman Sachs, Jim O’Neill, surgia com uma ideia que parecia implausível: Brasil, Rússia, Índia e China liderariam o crescimento global das próximas décadas. Ao cravar o acrônimo Brics, nem ele mesmo imaginaria a revolução que seria criada pelo conceito.

 

Taxados inicialmente como um sonho exageradamente otimista, os Brics viraram realidade, ganharam musculatura econômica suficiente para conquistar espaço na governança global e até se transformaram num grupo político, com reuniões de cúpula. A história da criação do conceito, a evolução dos países desde então e as perspectivas para os Brics estão no livro “The Growth Map: Economic Opportunity in the Brics and Beyond”, que O’Neill lançará globalmente no dia 5 de dezembro.

 

Hoje parece óbvio, mas a perspectiva de que os quatro países estariam entre as maiores economias do mundo era vista com desdém em novembro de 2

1, poucos meses depois dos atentados terroristas às torres gêmeas nos Estados Unidos, quando o economista lançou seu agora famoso relatório.

 

É interessante acompanhar, pela visão de O’Neill, o salto gigante dado em tão pouco tempo. “Todos (os Brics) excederam as expectativas que eu tinha em 2

1. Olhando para trás, essas previsões iniciais, chocantes para alguns na época, agora parecem conservadoras”, escreve. Por isso, ele vem dizendo que o Brasil, Rússia, Índia e China não podem mais ser chamados emergentes, mas sim de “mercados de crescimento”.

 

Em uma década, o Produto Interno Bruto (PIB) dos Brics quase quadruplicou, passando de US$ 3 trilhões para US$ 12 trilhões. A economia global dobrou de tamanho desde 2

1 e um terço desse crescimento veio dos Brics. Isso equivale à criação de um Japão mais uma Alemanha em apenas uma década.

 

O’Neill conta que foi ridicularizado por diversos especialistas ao prever que a China se tornará a maior economia do mundo. O historiador britânico Nial Fergunson classificou a projeção como uma das coisas mais estúpidas que ele já tinha ouvido. Desde então, o gigante asiático já ultrapassou o Japão e, pelos cálculos atualizados do Goldman Sachs, vai desbancar os Estados Unidos em 2

27.

 

O economista também chegou a ouvir que o acrônimo correto seria Cribs, como “berço” em inglês, pois as economias ainda engatinhavam, ao contrário dos Brics, que soam como tijolos na língua inglesa (bricks). Se de um lado se expôs às críticas, de outro também ouviu diversas “sugestões” daqueles que estão de fora e querem entrar: quem sabe Brici para abarcar a Indonésia, Bricm para incluir o México ou Brict para alegria da Turquia.

 

O ponto mais polêmico, sem dúvida, foi a inclusão do Brasil no grupo. A aposta foi extremamente ousada, até porque ele nunca tinha colocado os pés no País. Houve resistência, inclusive, entre seus colegas do Goldman Sachs, como o economista Paulo Leme. Ao visitar o Brasil pela primeira vez, em 2

3, o economista ouviu de uma pessoa que o convidou: “Você só incluiu o Brasil no grupo para conseguir um bom acrônimo”.

 

Além do grande mercado interno, O’Neill acreditou que o controle da inflação mudaria as perspectivas brasileiras. Tanto que, depois dessa primeira visita, ele confessa que comprou reais. Em 2

1, havia previsto que o PIB brasileiro não estaria muito atrás da Itália em dez anos. Enganou-se: a economia do Brasil ultrapassou a italiana no ano passado.

 

Hoje, sua preocupação é bem diferente. A grande popularidade entre os investidores estrangeiros provocou forte valorização do real, considerada um problema para o País. “Me preocupo de que o Brasil possa estar parcialmente sofrendo da doença holandesa”, avalia, referindo-se à desindustrialização sofrida como consequência de apreciação cambial. Para ele, há risco de uma grande e desordenada reversão na tendência do real.

 

O’Neill, agora presidente da Goldman Sachs Asset Management, também previu a necessidade de mudanças na governança global. Há dez anos, já dizia que o G-7 e o Fundo Monetário Internacional (FMI) não eram mais entidades capazes de lidar com os desafios do mundo novo.

 

O que ele não poderia prever é que os Brics se transformariam num grupo político e passariam a realizar reuniões de chefes de governos, por mais estranho que isso possa parecer. “Fiquei maravilhado de ver um acrônimo que eu criei evoluir para um rival do G-7”, escreve.

 

Embora se orgulhe de vê-los como um grupo político, aponta incongruências e avalia que não existe homogeneidade entre eles, pois são países bastante diferentes. Também levanta a longa lista de desafios que aguarda os Brics e traça perspectivas menos entusiasmadas sobre a Índia e a Rússia.

 

Entretanto, O’Neill não abandona seu viés extremamente otimista. Às vezes, esbarra na ingenuidade, como ao sugerir que o aumento do comércio entre a Índia e o Paquistão poderia diminuir a histórica hostilidade entre os dois países. Ao descrever uma visita ao Brasil em 2

1

, durante o Carnaval, ele se diz encantando com “tantas pessoas de diferentes cores, etnias e origens vivendo felizmente lado a lado nas praias de Copacabana e Ipanema”.

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