Por meio de todas as pesquisas, observações e estudos realizados ao longo dos anos, o homem moderno considera conhecimento sinônimo daquilo que está nas bibliotecas das universidades. Porém, esta visão frequentemente é questionada ao colocar lado a lado diferentes culturas. É o caso dos indígenas, cujo conhecimento astronômico é tão rico que será alvo de estudos no câmpus de Bauru da Universidade Estadual Paulista (Unesp) Júlio de Mesquita Filho.
Hoje, ocorre o primeiro passo desse projeto. Cerca de 30 indígenas da tribo Ekeruá, do município de Avaí (39 quilômetros de Bauru), virão ao Observatório Didático de Astronomia "Lionel José Andriatto", localizado nas dependência do Instituto de Pesquisas Meteorológicas (IPMet).
A professora Rosa Maria Fernandes Scalvi, do Departamento de Física da Faculdade de Ciências da Unesp-Bauru e coordenadora do observatório, explica que é uma oportunidade de construir o conhecimento além da visão tradicional.
"O que estudamos hoje é muito embasado na astronomia ocidental. Os índios possuem outra visão. Para eles, astronomia envolve comunidade, ritual, espiritualidade, entre outros. Entender isso é muito positivo para formar um conhecimento que não seja só o formal", aponta a docente.
Na visita de hoje, que também é aberta ao público, os indígenas poderão ver os astros "de perto", começando assim o projeto de troca de experiências entre aldeia e universidade. "Nosso objetivo com essa pesquisa é fazer um levantamento da cultura (astronômica indígena), organizar rodas de histórias e, quem sabe, montar um observatório próprio na aldeia", explica Rosa Scalvi.
De acordo com ela, a população indígena recebeu essa proposta de forma muito positiva. E, se eles irão conhecer um pouco da "nossa" astronomia hoje, quem estiver presente no observatório também poderá sentir a cultura dos índios. Haverá exposição de artesanatos feitos na aldeia e apresentações de danças.
A única ressalva foi de que os índios não realizassem a famosa dança da chuva, pois, para observar os astros, é necessário tempo bom. "Eles irão fazer a dança chamada de bate pau. Garantimos que não irão pedir a chuva", brinca David Henrique da Silva Pereira, professor de matemática, ciências e cultura da aldeia Ekeruá.
Cultura oral
Para o docente, que também possui etnia indígena ? mas especificamente da etnia Terena -, tanto a visita de hoje quanto o projeto que terá início no próximo ano são importantíssimos para que a cultura dos índios não seja esquecida.
Longe de entender como uma possível ocidentalização da aldeia, David Pereira acha que é "a oportunidade de registrar os traços culturais". "O povo indígena passa toda sua cultura, que é muito rica, de forma oral. Levar isso para a universidade é a oportunidade de ter o registro e isso não se perder com o tempo", completa
O professor afirma que, na aldeia, o pessoal está muito empolgado. "Temos que ressaltar que a cultura indígena também tem muito a enriquecer a universidade. O conhecimento científico na aldeia é importante, mas o que os índios tem a ensinar também", finaliza o professor David Pereira.
?Homem velho?
Quando as pessoas "criadas" na cultura astronômica ocidental olham para o céu nesta época do ano, enxergam Orion. Já quando os indígenas fazem a mesma observação, eles encontram uma história lendária repleta de lições e simbolismos.
Denominada como a constelação do Homem Velho, esse conjunto de estrelas representa um homem que teve a infelicidade de sua esposa se apaixonar pelo seu próprio irmão. Para ficar com o cunhado, ela cortou a perna do marido e o matou.
Condolentes com o homem traído, os deuses o transformaram em uma constelação, cujas estrelas formam o que seria o desenho de um senhor segurando um bastão. Além da "nossa" Orion, a Homem Velho abrange ainda parte da constelação Taurus.