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Salário mínimo em 2012

Antonio Delfim Netto
| Tempo de leitura: 3 min

As medidas que o governo adotou para enfrentar a recidiva de crises que assola a economia mundial: as "prudenciais" desde o início do ano para impedir o descontrole da inflação; e as mais recentes (queda dos juros e desoneração de impostos nos bens de consumo, inclusive "minha casa, minha vida") para sustentar o crescimento do consumo interno estão na direção correta. Isso acontece num momento em que inúmeras economias no resto do mundo estão sendo obrigadas a restringir consumo de seus habitantes e a cortar investimentos diante do estouro de suas dívidas e a ameaça de falência financeira.  

Algumas pessoas, analistas de "mercado" em primeiro lugar, manifestam o receio que o crescimento do consumo popular proporcionado pelo aumento do salário-mínimo em  2012 poderá trazer de volta a inflação. É verdade que o aumento real dos salários foi decidido antes mesmo da nova crise na Zona do Euro, mas como seus efeitos estão nos levando a reduzir o ímpeto do crescimento econômico, o novo salário-mínimo  ajudará a compensar a redução da atividade.

O aumento do mínimo a partir de janeiro, vai injetar 64 bilhões de reais na economia, reajustando salários no setor privado e vencimentos públicos, mais as aposentadorias impulsionando o consumo com benefícios de toda a natureza.  É preciso entender que isso não significa 64 bilhões de reais de nova demanda, por que esses recursos vêm ou das empresas ou do Estado, dinheiro recolhido como impostos. São recursos que não sendo salário seriam usados em outras atividades.

Para uma economia ameaçada com o desaquecimento, é importante esse aumento por que são recursos direcionados basicamente ao consumo. É dinheiro que se ficasse nas empresas seria usado na distribuição de dividendos ou seria destinado a investimento que demoraria algum tempo para ser transformado em demanda efetiva. De forma que há um efeito positivo no crescimento da demanda, desde que não seja compensada totalmente com aumento de preços que obviamente não vai acontecer por que a inflação está sob controle eficiente da política do Banco Central.

Então vai haver realmente um aumento real de salários  significativo. Quem recebe salário-mínimo tem uma propensão a gastar mais depressa que as demais por que têm que atender a necessidades imediatas. Em geral, vão fazer uso do salário de duas formas: pagar dívidas, abrindo a possibilidade de continuar gastando através do crédito e nesse caso até com um multiplicador; paga as dívidas e pode continuar fazendo novas compras a crédito ou vai gastar simplesmente o excedente que recebeu. De qualquer forma vai haver, sim, um efeito significativo sobre a demanda de bens de salário. Esses 64 bilhões vão exercer a demanda sobre a linha branca, móveis, eletro-domésticos, televisores, sobre equipamentos para o lar, quer dizer, seguramente ajudarão a compensar o efeito da redução do ritmo da atividade. É um desaquecimento moderado  que acontece como resultado das políticas de defesa que o governo acionou há alguns meses atrás para controlar a inflação, medidas adotadas corretamente na minha visão. Da mesma forma que hoje ele está aliviando o peso dessas medidas, a entrada em vigor do novo salário mínimo vai seguramente produzir efeitos positivos no desenvolvimento em 2012.  


O autor, Antonio Delfim Netto, é professor emérito da FEA-USP, ex-ministro da Fazenda, da Agricultura e do Planejamento e articulista do JC

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