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Trânsito: o caos se aproxima

Nilson Costa
| Tempo de leitura: 3 min

O mundo está repleto de incongruências e custa crer que a humanidade terá esperanças de solucionar seus problemas de sobrevivência sem um enfrentamento corajoso dos desafios do nosso cotidiano.

Como harmonizar, por exemplo, a voracidade do capitalismo predador e o bem-estar das comunidades desejosas de um mínimo de conforto? Como incentivar o consumismo exagerado nas grandes metrópoles e pretender que o meio-ambiente não seja sacrificado num ritmo assustador?

Ao mesmo tempo em que nos queixamos dos gigantescos congestionamentos de veículos nas cidades, tornando o trânsito infernal, as empresas de TV e demais órgãos de comunicação vão multiplicando comerciais com ofertas tentadoras de carros e motos de fabricação nacional e estrangeira.

O comprador não tem recursos para adquirir esses veículos à vista? Sem problema: criam-se planos de pagamento com prazos a perder de vista! Se os fabricantes e montadoras registram quedas nas vendas, vem o governo e cuida de reduzir os respectivos impostos sob o argumento de que é necessário "manter os empregos no setor".

Não adianta argumentar que o espaço físico nas grandes cidades geralmente é imutável e insuficiente para agasalhar mais centenas de milhares de automóveis, motos, caminhões e ônibus a cada ano. Acima de qualquer apelo ao bom senso, está a necessidade de conservar e aumentar os lucros dos fabricantes e distribuidores.

Acompanhe, caro leitor, os intervalos comerciais na TV. Os automóveis são ofertados como capazes de conduzir os consumidores ao paraíso. Não importa se o brasileiro está a pagar até o dobro por um modelo que lá fora é oferecido pela metade do preço.

É interessante, por outro lado, observar a quase inutilidade das campanhas contra o consumo de bebidas alcoólicas, especialmente no tocante aos acidentes de trânsito, ante a proliferação de comerciais na TV, nos quais o consumo da cerveja age como passaporte a um mundo povoado de praias paradisíacas, belas mulheres e garantia de alheamento às chateações do trabalho cotidiano.

Para fazer de conta que o anúncio das "devassas" e "arredondadas" deva conter advertências quanto aos males de seu consumo, exige-se um texto de segundinho no final: "beba com moderação". Mas o incentivo também aí está nítido: beba!

Como quantificar a "moderação"? Para alguns consumidores uma latinha pode levá-los a confusão mental no volante. Outros, diante da fiscalização policial, virão argumentar que ingeriram apenas 4 ou 5 latinhas - incapazes de perturbá-los na direção do carro - e não admitirão passar pelo bafômetro. Se há vítimas fatais num eventual acidente, basta pagar fiança e o alcoólatra está apto para outra tragédia...

Um aconselhável endurecimento da aplicação de sanções e na proibição da publicidade de bebidas alcoólicas afetaria os interesses monetários, principalmente das emissoras de TV. E poderia também fazer reduzir os lucros das cervejarias, além de causar prejuízos ao erário nacional, levando em conta a queda na arrecadação dos tributos. Daí a euforia dos que festejam a anunciada chegada de novas empresas estrangeiras, principalmente asiáticas, com ofertas tentadoras de novos modelos de carros.

Como estará o trânsito da cidade de São Paulo, por exemplo, dentro de dez anos se nenhuma providência for adotada para harmonizar a oferta e a exiguidade de espaço naquele tráfego caótico?

Se trouxermos o problema para Bauru, o que esperar, eis que já se torna extremamente complicado trafegar e estacionar no perímetro central da cidade?

Eis a questão que se apresenta, nesta antevéspera de 2012, a desafiar aqueles que se preparam para os debates da próxima campanha eleitoral municipal.

O autor, Nilson Costa, é jornalista e ex-prefeito municipal

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