Cairo - Os primeiros resultados da eleição egípcia apontam vitória de legendas islâmicas, que juntas obtiveram cerca de 60% dos votos. A cifra foi obtida pela rede CNN junto a uma autoridade eleitoral, já que pouquíssimos resultados foram divulgados até o momento.
Banida desde os anos 50, a Irmandade Muçulmana comprovou ser a mais organizada força política do país. Seu partido, Liberdade e Justiça teve 40% dos votos.
Em segundo lugar, com 20% dos votos, ficou a grande sensação desta primeira fase da eleição, o partido ultraortodoxo islâmico Al-Nour (“a luz”, em árabe).
Afastados da política nos anos Mubarak por considerarem que o poder político só pode vir de Deus, os salafistas usaram as urnas para ganhar um espaço inédito e embaralhar ainda mais o cenário político egípcio.
Para as fragmentadas forças liberais, que até a semana passada concentravam sua artilharia política contra a demora da junta militar em deixar o poder, a vitória dos partidos islâmicos serviu como um sinal de alerta.
O Bloco Egípcio, aliança de partidos liberais que chegou em terceiro, com 15% dos votos, publicou hoje anúncios na imprensa convocando seus simpatizantes a irem às urnas para tentar virar o jogo nas duas últimas rodadas de votação para a câmara dos deputados.
Haverá ainda duas etapas de votação até janeiro.
Como temiam ativistas pró-democracia, a eleição da última semana esvaziou a praça Tahrir, epicentro da revolta que levou à renúncia do ditador Hosni Mubarak.
O centro de gravidade saiu da praça e voltou a uma arena bem conhecida dos egípcios, o confronto entre grupos islâmicos e os militares, que ainda mantem o poder.
Na última semana, quando o centro do Cairo pegou fogo com protestos exigindo a renúncia da junta militar, taxistas olhavam torto se o destino era a Tahrir.
“O que você vai fazer lá?”, perguntavam. Em janeiro, a resposta era óbvia. Hoje, nem tanto.
Cansados de instabilidade e insegurança, muitos compraram o argumento dos militares de que é preciso parar com a agitação e dar um fôlego à economia do país.
Em volta da praça Tahrir, comerciantes voltam à normalidade depois que a nova onda de protestos os obrigou a manter as portas fechadas por uma semana.
“Apoio os manifestantes, mas é preciso dar tempo para que os militares restabeleçam a ordem”, diz Amr Soukhary, 46 anos, dono de uma loja de eletrônicos.
Ativistas pró-democracia identificam nesse discurso uma apatia preocupante.
“Os egípcios querem uma revolução do dia para a noite”, queixa-se Nada Wassef, 23 anos, que de ativista virou apresentadora da recém-criada TV 25, emissora que foi batizada com a data em que começou a revolta contra Mubarak.