O dia só começa quando amanhece, não é assim que se diz? O caminho só existe quando você anda nele e doença periodontal só existe quando o dente está ali. Extraindo-o, acabe-se a piorréia e o postema, como diziam nossos avós. Assim é o Natal quando a gente é criança. Não estamos preocupados com vinho, peru ou tender, muito menos se vai ser na casa do tio ou da madrinha. O que interessava era o presente, cuja escolha nos tomava horas e horas de nosso pensar.
Lá em casa, presente só na manhã de Natal e debaixo da cama. Era costume da D. Rute e do sr. Marcondes: não tinha pé de meia na janela nem presentes amontoados no pé da árvore de Natal. Então, a criança ia pra cama cedo, numa ansiedade de dar dó, nem conseguindo dormir direito muitas vezes, porque o Natal só começaria na manhã de Natal, momento em que ao acordar, as mãozinhas procurariam pelo embrulho debaixo da cama, com um quase susto no instante em que ele era encontrado, tudo emoldurado por gritos e saltos de felicidade.
Ninguém queria saber de mais nada: somente brincar, brincar e brincar. Eram caminhões, autoramas, bolas de futebol e bicicletas. Acho que magia maior nunca vi na minha vida, e agora, lembrando daquele moleque triste porque tinham acabado as pilhas da metralhadora intergaláctica e as lojas estavam fechadas, mas vibrando com uma caixa de pilhas novinhas sendo trazida pela mãe, vejo que o Natal representa sim uma mensagem de Cristo.
Porque a mãe e o pai nunca deixaram de construir um pequeno presépio ao lado da árvore de Natal imponente. E lá, quando baixava um pouco a poeira da euforia, o menino olhava atento o outro menino num berço de palha sob uma linda estrela-guia nos braços de Maria. Era um lapso de tempo, quando eu via o presente que Deus mandava ao mundo, sob a forma de uma novidade, designada para nos salvar e a nos ensinar que os caminhos do bem e do amor são o maior presente que podemos dar, e também, receber. Estava confirmado e afirmado o espírito do Natal, que jamais se esquece.
Marcondes Serotini Filho, dezembro de 2011