As micro e pequenas empresas (MPEs) estão contratando mais, formalizando seus funcionários e elevando salários num ritmo três vezes maior do que as médias e grandes companhias. A constatação foi feita através de dados do Anuário do Trabalho, elaborado pelo Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) em parceria com o Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), que mostram que a remuneração dos empregados de micro e pequenas empresas cresceu, em valores reais, 14,3% entre 2000 e 2010, já descontada a inflação. No mesmo período, os salários nas grandes e médias avançou 4,3%.
Para Paulo Martinelo, diretor da Junta Comercial do Estado de São Paulo (Jucesp) regional de Bauru, os dados confirmam o avanço na economia brasileira na década.
“Hoje atravessamos um momento em que determinados setores até sentem a dificuldade de encontrar mão de obra. Além disso, as empresas agora investem nos profissionais e acredito que esse pensamento de investir na qualificação faz com que os trabalhadores ganhem mais”, diz.
Ainda de acordo com o Sebrae, o segmento responde por mais da metade das vagas formais, empregando quase 15 milhões de brasileiros, e responde por 40% da massa de salários paga no País.
“Nesse sentido podemos perceber que este avanço da remuneração é muito significativo. O fortalecimento dos pequenos negócios aumenta a remuneração do trabalhador e gera impacto direto na renda da população. Uma vez ganhando mais, o trabalhador consome mais. É a roda da economia que gira”, afirma.
O estudo divulgado ainda aponta que a diferença entre os salários pagos nas médias e grandes companhias e nas MPEs foi reduzida em cinco pontos percentuais na década. A remuneração média nos empreendimentos de pequeno porte era 43,8% inferior à das empresas maiores no ano 2000, mas essa diferença caiu para 38,4% em 2010.
Nas micro e pequenas empresas, o salário médio pago passou de R$ 961,00 em 2000 para R$ 1.099,00 em 2010, sendo que na região Sudeste este valor sobe para R$ 1.199,00 - a melhor média entre as regiões brasileiras. Já entre as grandes e médias o salário foi de R$ 1.711,00 em 2000 para R$ 1.786 em 2010.
27 milhões
Outra constatação apontada no estudo é que os brasileiros estão empreendendo mais. Entre 2001 e 2009, o número de donos de micro e pequenas empresas e de trabalhadores por conta própria passou de 20,2 milhões para 22,9 milhões.
Desses 22,9 milhões, quase 19 milhões são autônomos que conduzem o próprio negócio sem empregados e 3,9 milhões, empresários que empregam trabalhadores. Juntos, eles representam 22,7% da população economicamente ativa.
As mulheres estão aumentando sua participação no mercado produtivo. Entre os empregadores, a proporção delas passou de 23,4% para 26,3% no período. Em 2001, 29,6% dos trabalhadores por conta própria eram do sexo feminino, enquanto em 2009 o volume passou para 33,5%.
Do total de empregadores, 62,8% têm 40 anos ou mais e 60,1% possuem o ensino médio ou escolaridade mais elevada. Dos trabalhadores por conta própria, 59,6% estão nessa faixa etária e 29,4% têm no mínimo o ensino médio.
Setor criou 6,1 milhões de empregos formais em 10 anos
Segundo o Sebrae, na última década as MPEs geraram 6,1 milhões de novos empregos formais - 48% do total de postos de trabalho criados em dez anos. O Brasil conta com mais de 6 milhões de empresas, sendo 99% micro ou pequenas. Destas, 62% possuem funcionários e 38% não têm empregados, mas geram ocupação para os proprietários.
Há quatro anos, Renata Rabello e Alithea de Souza compraram um ponto comercial no Higienópolis, em Bauru. “Compramos uma papelaria de um senhor que estava no local há 15 anos e resolvemos investir em publicidade para alavancar o negócio”.
E deu certo. Nesse curto espaço de tempo, a microempresa garantiu lucros melhores e conseguiu conquistar a clientela. Com o aumento na demanda, as sócio-proprietárias que trabalham sozinhas já planejam aumentar o negócio. “Marcamos uma consultoria na próxima semana no Sebrae. Pensamos em fazer algumas contratações, relutamos no início e agora acreditamos que o momento de fazer isso chegou. Vamos buscar respaldo e apoio para isso”, conta Renata.
“Percebemos que na maioria dos casos, os primeiros empregos são gerados nas micro e pequenas empresas. Isso mostra a força desse setor que teve uma ascendente fora do comum”, comenta Paulo Martinelo, da Jucesp. O número de pessoas com carteira de trabalho assinada por MPEs saltou de 8,6 milhões em 2000 para 14,7 milhões em 2010, o que corresponde a 51,6% do total de postos de trabalho em todo o Brasil.
O comércio é o setor com o maior número de micro e pequenas empresas - 51,5% do total - e o que mais gera postos: 41% dos trabalhadores das MPEs atuam na área. Em consequência, 38,2% da massa salarial é decorrente dos estabelecimentos do comércio. “O comércio mostra sua força e é esse mesmo fortalecimento que favorece para que o trabalhador aqueça o mercado”, conclui Martinelo. (NH)