A propaganda de carros na mídia em geral sempre destaca as qualidades dos produtos anunciados, muitas vezes fazendo comparativos com a concorrência. Isto é óbvio e esperado, mas a maneira com que é feita é que é o ponto da questão.
Em toda a cadeia produtiva e comercial, existem impostos embutidos que variam de 30 a 90% do preço final, e isto torna os produtos que consumimos muito caros. Para tornar os preços finais mais atrativos, só mexendo nos custos de produção ou removendo equipamentos, já que o governo não abre mão de sua mordida. Nos automóveis e motocicletas oferecidos em nosso mercado, não contamos com muitos equipamentos e acessórios que são padrão em outros mercados, como ABS, airbag ou controle de tração, por exemplo. Para termos estes equipamentos, nos são oferecidos como opcionais a um custo altíssimo, transformando nossos pobres veículos em modelos "de luxo", mais pelo preço final do que pelas suas características. Daí surgirem o que chamo de aberrações mercadológicas, como veremos a seguir.
Um carro popular é por definição, um carro despojado e simples, para ser barato e servir como um carro de entrada da marca. Isto vale no mundo todo. A diferença é que aqui um carro de entrada nunca vem totalmente pelado e no preço anunciado. Sempre tem que levar com algum acessório empurrado que muitos não desejam, mas acabam pagando e não reclamam.
Agora, se pedir um carro popular com direção hidráulica, ar condicionado, trio elétrico, radio e airbag, o preço poderá pular de R$ 26.000,00 para R$ 38.000,00, um aumento de 46% por causa de equipamentos! Um absurdo sob qualquer ponto de vista, pois representa quase metade do preço original do carro, que continua sendo um modelo popular só que agora chamado eufemisticamente de "Premium", como se fosse um.
Aqui se prefere comprar carro barato e depois gastar dinheiro com acessórios inúteis pensando no status e diferenciação, ao invés de pensar melhor e comprar um carro de categoria superior que já vem com tudo isso. Carro popular com motor 1.0 e rodas aro 17 chega a ser ridículo, mas tem gente que gosta. Outros compram picapes 4x4 diesel para andar na cidade (!) e a primeira coisa que pedem é banco de couro... Em uma SUV tudo bem, combina. Mas em picape?? Tá pensando que assim a transformou em carro de luxo, meu??
Nos Estados Unidos, um Honda Civic completo com airbag e tudo mais é vendido na casa dos US$ 22,000.00, o que dá mais ou menos R$ 40.000,00. Aqui não sai por menos de R$ 70.000,00, menos equipado. Com uma diferença muito grande, do ponto de vista cultural: aqui é considerado um carrão, com luxo e status, geralmente comprado por pessoas de sucesso já bem postas na vida, enquanto que lá é um carro de famílias novas e de profissionais recém formados. O mesmo posso dizer da linha VW importada como exemplo. Aqui o Bora, Passat, Tiguan, Jetta, New Beetle são considerados Premium, enquanto que lá são carros normais e acessíveis.
Os verdadeiros carros de luxo existentes no mundo são para pessoas que realmente atingiram o sucesso profissional e podem pagar um preço justo pelas regalias oferecidas. Aqui não. Por mais sucesso profissional que venhamos a conseguir, a grande maioria não está apta a comprar uma Mercedes, BMW, Jaguar ou modelos mais luxuosos da Honda, Toyota, Hyundai ou Audi. Modelos esportivos então, passaram a ser símbolos de ostentação pura, pois os impostos mais que dobram seus preços de origem, sem contar o frete.
É uma pena. Enquanto continuarmos acreditando que o Brasil é o país do futuro, que deixamos de ser subdesenvolvidos e passamos a ser agora "em desenvolvimento" ou coisas do gênero, continuaremos a receber tratamento de segunda classe a preços de primeira. Nosso grande defeito como povo é reclamar muito quando nosso time perde ou quando um feriado cai no fim de semana, mas poucos realmente se manifestam contra a corrupção e os altíssimos impostos que todos nós pagamos, mesmo sem perceber. E ainda acreditarmos em propaganda, nos carros "zero" e "semi-novos", que nos oferecem preços com "juro zero", como se ele não estivesse embutido no preço. Ainda mais neste País com a maior taxa de juros do planeta. Precisamos reclamar mais das coisas erradas para que melhorem um dia. Os juros precisam baixar e a honestidade aumentar. E não existem semi-novos, como não existem semi-virgens.