Antigamente, um punhado de editores podia decidir o que era notícia e o que não era. Definia-se "notícia" como algo que o jornalista acha que é. Pode ser o real - construído de forma a agradar ao mercado-leitor ou produto que o jornalista julga ser do interesse do público, ou dele mesmo. Os editores, ou "gate keepers" (abridores de porteira), como diziam os ingleses, agiam como uma espécie de semideuses. Se eles publicassem uma história, ela virava notícia. Se ignorassem o fato, era como se nunca tivesse acontecido. Hoje os editores estão perdendo esse poder. A internet dá acesso a milhares de novas fontes que cobrem coisas que um editor poderia ignorar. Se você não se satisfaz com isso, pode começar seu próprio blog, cobrindo e comentando as notícias você mesmo. Um ex-editor dos influentes The Independent e Economist, chamado Andrew Maar, ironizou num livro (My Trade) que "tirando o crime organizado, o jornalismo é a mais poderosa e agradável antiprofissão". E aqui no Brasil, há 40 anos se discute a necessidade de ter diploma para ser jornalista. Caso exemplar é a proposta de emenda constitucional patrocinada por corporações sindicais que pretende restabelecer essa obrigatoriedade. Na semana passada o Projeto de Emenda Constitucional (PEC) passou, com sucesso, pelo primeiro turno de votação no plenário do Senado, por 65 votos a sete, com apoio suprapartidário, sinal da força do lobby.
A manobra vai contra a decisão do Supremo Tribunal Federal, tomada em 2009. A Corte revogou parte do decreto-lei do tempo da ditadura, tornando obrigatório o diploma específico de nível superior para quem quer exercer funções que seriam exclusivas do jornalista. Os juízes estabeleceram uma ligação clara entre a exigência do diploma e a limitação à liberdade de expressão. A liberdade de expressão e de imprensa é cláusula pétrea da Constituição. Não pode ser revogada, contrariada por qualquer outra lei, tampouco por uma emenda à própria Carta, por ir contra o seu próprio espírito de salvaguardar a Democracia. Ser contra a obrigatoriedade do diploma não significa achar que as escolas de jornalismo sejam desnecessárias. As empresas continuam dando preferência aos diplomados porque os alunos já saem com noção das técnicas de redação, de análise semiótica, de conhecimento linguístico, da legislação e da ética. Nos Estados Unidos, na França e na Inglaterra o diploma não é exigido, mas a maioria dos empregados passou por formação superior específica. Agora, é preciso aceitar que nenhuma faculdade, isoladamente, é capaz de formar pessoas em condições de tratar com eficiência da enorme variedade de assuntos abordados pelas redações profissionais. Há algum tempo elas foram transformadas em organizações multimídia.
Hoje, o blogueiro é um sujeito de bermuda escrevendo na sala da sua casa. Foram pessoas escrevendo de pijama que obrigaram o poderoso âncora da televisão norte-americana Dan Rather (CBS) a pedir demissão por ter falseado documentos e fontes. Imagine este jornal sem a sua Tribuna dos Leitores e corpo de colaboradores, com tantas crônicas, críticas e sugestões legítimas, porque nascidas da experiência diária do próprio cidadão. Senadores, deputados e vereadores não precisam de diploma. "Bêbados, disléxicos e algumas das pessoas mais perversas e menos confiáveis da terra", como disse Andrew Maar, trabalharam e trabalham como jornalistas e têm diploma. Há repórteres que não tiram a bunda da cadeira e só escrevem o que as autoridades ditam por telefone. É o jornalista que abdicou do "houve", pelo que "ouve".
Um estudo americano recente constatou que muitos editores e repórteres simplesmente não confiam que seus leitores tomem boas decisões. É uma maneira educada de dizer que esses editores e repórteres acham os leitores estúpidos demais para pensarem com suas próprias cabeças. Esses jornalistas estão pondo em risco os seus próprios jornais ao enxergar o público leitor como garantido, incapaz de perceber a manipulação e o sensacional dado a eles como se fosse ração despejada no cocho. O patrão do jornalista são os leitores. Quem duvidar vai perder o emprego. A volta da discussão sobre o diploma é ociosa, inoportuna e corporativista. Com ele, pretende-se apenas criar uma reserva de mercado para sindicatos sem clientela.
O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC