Pesca & Lazer

História de Pescador: A pescaria da sorte


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Outubro de 1987, no velho Mato Grosso, rio Miranda, mais propriamente em uma de suas vazantes. Tendo como motorista o Moraes com sua D20, o Luiz Doro, irmão do Nicola, que não pode ir; meu irmão Lupércio (um dos maiores zagueiros centrais da nossa antiga várzea nos anos 58 a 68), e como cozinheiro o Valter Batista (mais conhecido como Cabeça, aposentado da RFFSA) e eu.

O Luiz não era muito de pescaria, ele gostava de caçar. Dono de uma pontaria de causar inveja, foi difícil levá-lo. Ele tinha um problema de dicção, gaguejava um pouco e não gostava de brincadeira. Lá chegando, armamos nosso acampamento, descarregamos a bagagem, como estava escurecendo e cansados da viagem deitamos cedo.

Ao amanhecer, após tomar o nosso café, preparamos o barco com os equipamentos, para o primeiro dia de pesca. O Luiz preparava sua espingarda, quando percebeu que havia esquecido a caixa de balas em casa. Vendo-o nervoso, perguntamos o que tinha acontecido, meio sem jeito e já nervoso disse: "Esqui-qui-ci a ca-caixa de balas, na me-mesa de casa". Ele tinha apenas uma bala no gatilho e queria matar uma capivara ou um veado para ter carne, pois não gostava de peixe.

Conseguimos convencê-lo a pescar com a gente. Meio sem graça topou, mas levou a espingarda com uma bala só. Ao chegarmos na barranca do rio, o Luiz percebeu algo se mexendo do outro lado em uma moita. Era uma capivara porte médio deitada no capim, com a cabeça erguida. Pegando a espingarda, disse: "Fi-fi-quem quietos, não po-posso errar." Agachou-se, fez a pontaria e disparou.

Neste instante, um dourado de 11 kg, pesamos depois, pulou e a bala que era para a capivara, acertou o peixe na cabeça, o peixe ficou rodando na flor da água perto do barranco; pulamos na água e pegamos o dourado que rodopiava na água. O Luiz perguntou: "Qui-qui eu acertei o pe-pei-xe?" Foi um riso só. Mas o Luiz percebeu que na moita onde estava a capivara, alguma coisa estava se mexendo; pegamos o barco e fomos até o outro lado da vazante. A capivara estava deitada quase morta com uma bala na cabeça. A bala passou pela cabeça do peixe e acertou também a capivara.

O Luiz ficou todo eufórico, não se continha de alegria e falava: "Eu so-sou uma fe-fera, ma-matei dois com u-uma ba-bala só." Quem gostou foi o Cabeça, que tinha o que assar. Colocamos a capivara no barco, e preparávamos para atravessar a vazante quando o Luiz pediu para esperar um pouco dizendo: "Vo-vou agradecer a minha ca-caçada."

Sabendo que o Luiz era e até hoje é muito religioso, respeitamos seu pedido e ficamos olhando.

Ele se ajoelhou e ergueu os dois braços para cima com as mãos abertas para agradecer, quando dois marrecos em voo baixo enroscaram nas mãos do Luiz que imediatamente as fechou, segurando assim os marrecos. Mostrando as aves para nós, perguntou: "Eu acho qui-qui dá pra hoje, ou vo-vocês que-querem ma-mais alguma coisa?"

Voltamos para o acampamento onde o peixe já estava limpo. Naquele dia não saímos, era muita coisa para um pouco mais de uma hora, o Luiz era só alegria.

Para quem não acredita, eu, o Luiz, o Moraes, o Cabeça, podemos confirmar tudo, apenas o Lupércio não está mais entre nós. Agradeço a publicação desta façanha, que embora difícil de acreditar, realmente aconteceu, como outras que temos para contar. Não é história de pescador, porque pescador não conta história, só acredita quem passa por isso. Feliz Natal a todos e um Ano Novo com saúde, paz, compreensão e amizade.

Álvaro Scarço

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