Tribuna do Leitor

O natal e a solidão entre muitos

Valderez de Mello
| Tempo de leitura: 2 min

Estudos da Mental Health Foundation apontam que a pressão em ser produtivo e alcançar o sucesso no trabalho faz com que as pessoas acabem negligenciando as relações afetivas. No Brasil, segundo o IBGE, estima-se que mais de seis milhões de pessoas vivam sozinhas e o percentual de casas ocupadas por apenas uma pessoa foi de 6% em 1972 e 12% em 2008 e a tendência é aumentar progressivamente.

O psicólogo Raymundo de Lima, professor da área de Metodologia da Pesquisa da Universidade Estadual de Maringá, no Paraná, explica que a solidão não acontece necessariamente quando se está fisicamente sozinho. "É um sentimento de estar distante dos outros ou os outros distantes de você. Como se você estivesse numa bolha, e isso pode acontecer em um elevador lotado de pessoas". Segundo Lima, "a superpopulação nas cidades faz com que as pessoas desenvolvam uma proteção para preservar a sua própria identidade, uma espécie de pele psicológica". Porém, apesar desta pele ser necessária para a autopreservação, pode acabar se tornando uma couraça, uma blindagem e aumentar ainda mais o isolamento.

O fato é que a modernismo casou-se com o consumismo e os humanos atrelados ao computador, fone de ouvido, telefone celular, e-mail, sms, torpedo, face book e tantos outros meios de comunicação, deixam de visitar um amigo, de conversar olhando nos olhos do outro, esquecem de sorrir para os familiares, enfim, acabam trancafiados em suas modernas cavernas nos grandes edifícios, isolados e silenciosos. Uma em cada cinco pessoas diz gastar muito tempo se comunicando com amigos on-line, quando deveria vê-los pessoalmente, abraçá-los, sorrir com eles e para eles, enfim reinventar o verbo prosear. O agrupamento de pessoas nada mais significa, o homem está inserido na mais completa solidão entre muitos e não mais compartilha sentimentos e emoções, tampouco sente preocupação para com o sofrimento alheio. E dentro da bolha da individualidade, navega o homo sapiens pelo espaço oferecido pela modernidade a percorrer ruas e avenidas. Alienado e acompanhado apenas de seus pensamentos, não vê o outro, não ouve além dos sons do fone de ouvido, deambula pela vida confabulando consigo mesmo.

A celeridade da ciência, tal faca de dois gumes, induz o homem a se transformar num frio e moderno ermitão tecnologicamente conectado com o mundo, porém, ao perder o calor humano, os sentimentos e a convivência com seus semelhantes é condenado a viver virtualmente na mais triste solidão entre muitos. Feliz natal!


A autora, Valderez de Mello, é psicopedagoga, pedagoga e advogada. Autora do livro "Flores sobre o Rochedo" valdemello@gmail.com

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