Quem transita pelas ruas de Bauru nestes dias que antecedem o Natal, percebe que a inspiração para a decoração já não emana mais como nos anos anteriores. Mas ainda é possível encontrar aqueles que não deixam a "chama" do Natal se apagar e preservam as tradições da época. É o caso da dentista Ilka Bonachela, 63 anos, moradora do Jardim Dona Sarah, e José Salim, 64 anos (leia mais abaixo), morador da Vila Seabra. Há 30 e 45 anos, respectivamente, eles montam suas árvores de Natal com enfeites diferentes.
Ilka decora sua casa com cerca de 800 enfeites, além de montar um pinheiro de mais de 2 metros de altura com mais de 500 enfeites vindos do mundo todo. Entrar em sua casa é como fazer uma viagem. Ela ainda não sabe como a coleção natalina começou, mas estima ter sido há cerca de 30 anos, desde que se casou.
"Eu sempre tive o costume de arrumar a casa para o Natal, e então, para onde eu viajava eu comprava novos enfeites e bolas para a árvore", conta Ilka.
A preparação da residência para o espírito natalino começa ainda em meados de outubro. Todos os enfeites são retirados das caixas e substituem os cristais sobre os móveis, que dão lugar a presépios, papais noéis, velas e muitos outros. "Demora uma semana para arrumar toda a casa. Só para montar a árvore eu demoro o dia todo, mesmo com a ajuda da minha filha."
Recepção com estilo
Logo na entrada da casa de Ilka, um pequenino e iluminado "bom velhinho" na entrada para a sala recepciona os visitantes. Em frente à porta, uma mesa com cerca de 40 presépios que vieram de diversas partes do Brasil e do mundo. Do lado esquerdo do hall, as figuras de Maria, José e do menino Jesus, confeccionados por artesãos da cidade de São Manuel.
"A minha árvore tem enfeites do mundo todo Paris, Orlando, Estocolmo, Suécia, Dinamarca, São Paulo. Por onde eu passei eu fui comprando. É claro que consegui comprar muito mais enfeites depois que eu me aposentei, até porque eu viajei mais", destacou.
Na sala de visitas, mais enfeites. Uma mesa só com papais noéis, outra só com árvores em miniatura e um dos objetos chama mais a atenção: uma árvore pequenina de porcelana. "Eu gosto mais desta. Foi uma das primeiras que comprei aqui no Brasil mesmo, mas ela é inglesa. Ela deve ter já seus 15 anos".
No lavabo da residência, mas motivos natalinos. Nem o papel higiênico escapou. "Este eu comprei em São Paulo. Tem também os lencinhos de papel. A tampa do vaso sanitário, também de Papai Noel, foi minha amiga que fez. Aqui fora eu tenho este Papai Noel pendurado para as minhas netas brincarem", conta Ilka.
Na sala de jantar, mais surpresa: um aparelho completo de pratos, copos, xícaras. Grande parte confeccionado por sua mãe, já falecida. "Minha mãe pintou todos os pratinhos, copos, xícaras, enfim, diversos objetos. Quando recebo visitas eu as sirvo nestes objetos. Tem também os guardanapos", acrescenta.
Para Ilka, o que importa mesmo não é a exposição dos enfeites, mas sim lembrar da data natalina. "Eu costumo dizer que eu gostaria que todos acreditassem no nascimento de Jesus e na importância desta data que nos traz paz", finaliza. Depois do dia 6 de janeiro, a casa da dentista volta a ser "apenas uma casa".
Significados
Cada componente de uma árvore de Natal possui um significado específico. A tradição de cortar os pinheiros e enfeitá-los surgiu com os povos bálticos, no século 15. Posteriormente, a forma triangular do pinheiro foi associada à Santíssima Trindade, e suas folhas resistentes à eternidade.
Os pisca-pisca simbolizam as luzes das estrelas, as bolas de Natal os bons frutos, os enfeites de Papai Noel simbolizam a bondade e o ponteiro que vai no topo da árvore representa a estrela principal.
Tradição de família
Na casa de José Salim, 64 anos, morador da Vila Seabra em Bauru, a tradição de montar a árvore de natal sempre com os mesmos enfeites, conservados há cerca de 45 anos, partiu de seu pai, Assis Salim, já falecido. "Quando meu pai faleceu, já tinha este ponteiro. Então eu estimo que só ele tenha 53 anos", relatou Salim.
Para montar a sua árvore, Salim realiza sempre o mesmo "ritual". Começa a desembalar as bolas de Natal antigas, ainda de vidro e muito bem conservadas, em novembro. Linhas novas são amarradas uma a uma para que os enfeites delicados não corram o risco de cair e quebrar.
"Todas as bolas são colocadas quase na mesma posição, veja", diz, mostrando a foto da mesma árvore montada no ano passado. "Depois eu vou colocando os 11 jogos de luzes e enumerando um a um para poder retirar com cuidado depois sem quebrar os enfeites".
Atualmente ele conta com o apoio da neta Melina Salim Borges, 4 anos, na montagem da árvore. "Inclusive, é ela que protege a minha árvore quando outras crianças chegam aqui na minha casa. Ela diz: cuidado com a árvore do meu avô", diz Salim aos risos.