Caro Jesus. Hoje é um dia especial para mim. Depois de passar muitos anos de minha vida apenas lendo cartas e atendendo a inúmeros pedidos, resolvi escrever uma. Nossa, já estou velhinho e cansado, será que ainda há tempo para mim? Seria oportuno, depois de tanto tempo, sendo um homem já barbado, ter sonhos e esperanças? A cada ano, os preparativos para a comemoração do seu nascimento estão se antecipando... Dezembro, para mim, sempre foi um mês de muito trabalho. Agora começo a receber cartas no início de novembro; lojas, ruas, casas, cidades e os meios de comunicação clamam a sua chegada. Meu trabalho fica a cada ano mais extenuante... Você pode estar pensando: "Mas isso deveria ser motivo de alegria!". Deveria... mas me sinto mais triste, ouço mais falarem de mim do que de você... Clamam a sua presença ou a venda de presentes? Vale o que tem valor ou o que tem maior valia? Onde as coisas se perderam? Trabalhei tanto, não percebi... Onde as coisas se perderam? Como os papéis se alteraram?
Quando passei de coadjuvante para personagem principal? Não me consultaram, estão me usando, eu não quero ser cúmplice de tudo isso. Não sou o mais importante e o que faço não é o motivo principal para tamanha comemoração... Sabe, Jesus, sempre fomos muito amigos. Por isso, esse desabafo tão intempestivo. Discordo do que está acontecendo e hoje não quero atender a pedidos; quero pedir... mais união, fraternidade, solidariedade, amizade, verdade e amor. Eu sei, você nasceu justamente para ensinar-lhes tudo isso!!! Mas parece que eles têm dificuldade para aprender. Inverteram a ordem e o sentido das coisas e peço sua ajuda para fazer com que parem e reflitam; sou apenas um símbolo de solidariedade, mas você é a essência: o seu amor veio para ensinar e unir. Isso é o que deve ser valorizado. Creio que um dia aprenderão seus ensinamentos e todos juntos, vamos commemorare: trazer à memória o verdadeiro sentido do Natal. Sempre Natal... De seu amigo Papai Noel.
Márcia Nabeiro ? conto de autoria própria, do livro "Natal sempre Natal"