Naquela manhã, acordei com sabor de saudades em minha boca. A vida me passou como um sonho! Ainda me lembro das manhãs em que acordava com o barulho que meu pai fazia na cozinha quando a preparar seu café da manhã e a arrumar a marmita que o sustentaria por todo um dia de trabalho. Arroz e ovo, e quando muito, feijão; às vezes um pedaço de tomate que nasceu no canto da cerca, no quintal. Desanuviando meus pensamentos, olho pela janela e, como um grão de areia, deixo que o vento me leve mundo afora. Passados todos estes anos, sinto que já dei várias voltas ao mundo, usando apenas minha imaginação e meus desejos. O meu mundo vive além dos meus olhos; ele está presente na minha imaginação e em meu coração.
Preparo meu café. Em mim vive a lembrança do fogão a lenha na casa de madeira em que morávamos quando criança; ainda posso sentir o calor de abraço de mãe na madeira em chamas, com seus tons amarelos e laranjas; sobre ele, o bule com sua água fervente a transformar o pó de grãos de café num líquido preto translúcido. Mastigo o pão da padaria procurando sentir as sensações que tinha ao morder o pão feito por minha mãe em no forno de barro que ela mesma fez. Nem meu pai sabia fazer forno de barro; só minha mãe.
Minhas sete irmãs juntavam-se a mim em volta da mesa de madeira maciça, bem ao lado do fogão. Eu me sentava de coque para me esquentar e também por simples mania. Arrancava um naco de pão com as mãos e o molhava no café fervente que estava numa caneca de alumínio a minha frente. Doce sabor de infância que me fugiu da boca. Procuro agarrar o tempo, mas ele me escapa por entre os dedos. E por que todo este saudosismo? Porque hoje é Natal!
Olho embaixo de minha cama, mas não encontro presentes. Olho a minha volta e não vejo mais meu pai; nem minha mãe. Eles estão vivos apenas em minha lembrança; eu sou a soma dos dois. Meu presente...
Minha vida, minha filha, minha família, meu mundo (real ou imaginário), meus amigos. Meu desejo? Mais vida, mais amigos, mais vida, mais natais, mais lembranças, minha filha, minha família, mais vida!!!
Até que me seja possível; enquanto vida houver em mim, encontrarei minhas lembranças por todo lugar que passar, pois elas vivem em mim, assim como todos os natais por que passei e por todos os natais que vivi! Por via das dúvidas, vou deixar minha meia pendurada na janela. Nunca se sabe!!
Professor Reginaldo, membro da ABLetras e do Grupo Expressão Poética