Estes tempos festivos de final de ano são o paraíso para quem gosta de barulho. Casas noturnas lotadas, confraternizações do trabalho, churrascos, trânsito... Tudo parece favorecer a produção de mais e mais barulho. Conforme os barulhos vão ficando comuns e rotineiros, tendem a se tornar elementos de fundo em nossa percepção, até que deixamos de identificar aqueles que se repetem e passamos a prestar atenção aos novos barulhos.
Nada, em matéria de barulho, é mais desagradável do que motoqueiro que enrola o cabo de CG 125. Para quem não sabe, CG 125 é uma moto de pequeno porte fabricada pela Honda. Os condutores desse modelo costumam transformar (mexer, turbinar, envenenar) suas motos para chamar a atenção das pessoas para suas performances pelas ruas. Os motoqueiros acreditam que, assim, as mulheres vão olhar mais, dar mais bola, aceitar sair com eles, fazer amizade, transar, ou qualquer coisa do tipo. De fato, todo mundo olha quando eles passam, mas alguns poucos com admiração, outros por susto, outros por incômodo, muitos com indignação, vários com dó e diversos com tristeza.
Enrolar o cabo é uma expressão "motociclística" que denota aquele barulho insuportável, alto e de uma nota só, que acontece quando o condutor aperta a embreagem e gira a manopla do acelerador para imprimir uma rotação absurda no motor, produzindo estouros no escapamento. Por que a bronca com a CG 125? De fato, qualquer moto pode enrolar o cabo e causar "comoção". Mas, convenhamos, o cara que compra uma Hayabusa não vai querer desperdiçar seu tempo enrolando cabo na Getúlio Vargas, passando em frente a um monte de gente que está encostada em um carro com o porta malas aberto, de onde sai uma música invariavelmente ridícula e ensurdecedora. Ou vai? Segundo meu amigo Thiago, os motoqueiros são todos problemáticos. "-É verdade", disse ele. "-O cara da Hayabusa não vai ficar enrolando o cabo na Getúlio. Acho que o cara da Hayabusa nem sai com a moto, com medo de acontecer alguma coisa com ela", envenenou (no sentido da língua peçonhenta, não da moto).
Poderia haver uma lei que obrigasse as fábricas a limitar a enrolação de cabo. Por exemplo: depois de três segundos de cabo enrolado, a moto explodiria. É claro que estou exagerando e sendo irônico quanto aos motoqueiros. Todo mundo tem um pouco de kitsch dentro de si. Durante uma certa época, a própria indústria pensou como eles. Achavam que quanto mais barulho fizesse o carro, quanto mais incrementado (leia-se espalhafatoso), mais poderoso seria o proprietário.
No livro "A afinação do mundo", o antropólogo Murray Schaffer passeia pelas paisagens sonoras do mundo todo, desde épocas remotas, e vai estudando a relação dos barulhos de uma sociedade com ela própria. Segundo ele, os anos 1970 foram o auge do barulho. Um carro legal tinha que ter um motor barulhento. Quanto mais barulhento melhor. Não precisava "mexer" no motor, vinha de fábrica. Ah, o carro tinha que ser grande e gastar muita gasolina. Tudo isso era símbolo de status e poder. As próprias fábricas da época eram extremamente ruidosas. Os empresários referiam-se ao barulho torturante delas como um símbolo de progresso e produção.
Hoje, uma das premissas do controle de qualidade (de vida ou da produção nas fábricas) é o silêncio. Os carros são feitos para fazer o menor ruído possível. Por isso eu acho que o pessoal da CG 125 está completamente fora de tendência. Barulho agora é brega. Uma vez vi um rapaz em sua moto, em frente a um bar. Ele passou enrolando o cabo dezenas de vezes. Depois ele parou direcionado para as mesas e ficou enrolando o cabo parado. Ninguém mais aguentava o barulho, quando percebemos que se tratava de algo passional. Ele entrou no bar - dava para ver a fúria em seus olhos - e foi até uma mesa. Ficou de pé, ao lado de uma garota, tentando convencê-la de alguma coisa. É claro que não funcionou. Com aquele comportamento e a barulheira toda, a conquista (ou reconquista) ficou parecendo uma ameaça.
O autor, Luís Paulo Domingues, é colaborador de Opinião