e a culpa do que nem me lembro

e me cravou entre janeiro e dezembro.


Vai, leva tudo: destroços,


ossos, fotos de presidentes,

beijos de atrizes, enchentes,

secas, suspiros, jornais.

Vade retrum, pra trás,

leva pra escuridão

quem me assaltou o carro,

a casa e o coração.

não quero te ver mais,

só daqui a anos, nos anais,

nas fotos do nunca-mais.


Vem, Ano Novo, vem veloz,

vem em quadrigas, aladas, antigas

ou jatos de luz moderna, vem,

paira, desce, habita em nós,

vem com cavalhadas, folias, reisados,

fitas multicores, rebecas,

vem com uva e mel e desperta

em nosso corpo a alegria,

escancara a alma, a poesia,

e, por um instante, estanca

o verso real, perverso,

e sacia em nós a fome

- de utopia.


Vem na areia da ampulheta com a

semente que contivesse outra semente

que contivesse outra semente ou pérola

na casca da ostra como se outra semente

pudesse nascer do corpo e mente ou do umbigo da gente como o ovo

o Sol a gema do Ano Novo que rompesse a

placenta da noite em viva flor luminescente.


Adeus, tristeza: a vida

é uma caixa chinesa

de onde brota a manhã.

Agora

é recomeçar.

a utopia é urgente.

entre flores de urânio

É permitido sonhar.

Affonso Romano Sant´Anna - Arthur Jr.

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