Articulistas

A negligência

Valderez de Mello
| Tempo de leitura: 2 min

"É a inércia psíquica, a indiferença do agente que, podendo tomar as devidas cautelas exigíveis, não o faz por displicência, relaxamento ou preguiça mental. Veja art. 18, II, do Código Penal".

A negligência ocasiona resultados irreversíveis na vida do ser humano. A inércia mental ou a preguiça de fazer uso da prevenção faz nascer a irresponsabilidade, ou seja, uma descabida desculpa para o relaxo, um vergonhoso sinto muito para a tragédia.

Por negligência, aviões caem ceifando centenas de vidas e acidentes domésticos deixam marcas inesquecíveis. Diariamente nos deparamos com a negligência percorrendo as ruas da cidade, dentro das casas, freqüentando escolas, hospitais, construções, praias, parques e rios. Infelizmente acabamos convivendo com ela e deveras tolerantes com suas tristes conseqüências: a criança que tomba sobre a churrasqueira em brasa mesmo estando rodeada por adultos; o bebê que morre dentro de um carro por asfixia devido ao inconcebível esquecimento do pai; o animal que amarrado em uma pequena corrente morre de fome e sede; o doente que fenece no leito do hospital por receber medicação inadequada; prédios que desabam por falta de estrutura exigida por lei; depósitos clandestinos de fogos de artifícios que explodem e criança que mata outra criança com a arma do pai.

Por negligência, o paraplégico é impedido de ir e vir; animais são torturados, crianças prostituídas e cães treinados para matar pagam pelo desequilíbrio emocional dos donos. Por negligência pessoas irresponsáveis ocupam margens de rios ao arrepio da Lei de Proteção Ambiental e a fiscalização finge nada ver. Adolescentes frequentam escolas portando armas e, enquanto as leis descansam em paz nas páginas dos livros, balas perdidas deslizam pelos ares a ceifar vidas. Por negligência doenças se alastram, florestas são destruídas pelo fogo e prisioneiros fogem pela porta da frente dos presídios. Por mera negligência, pessoas morrem afogadas em piscinas, lagoas e rios e crianças permanecem uma década na escola e continuam analfabetas. Por negligência falsos motoristas dirigem sem habilitação e matam inocentes e pais abandonam bebês em caçambas de lixo e terrenos baldios. E a negligência continua forte e vencedora a galgar fogosa os campos de nossas vidas, a gargalhar do nosso medo, e sorrateira de mãos dadas com a hipocrisia, agasalha o sinto muito, a desculpa, o perdão e passa a ser denominada de fatalidade, ou vontade de Deus. Porém, a impunidade da megera termina quando na calada da noite dolorosos espinhos no travesseiro perfuram inflexíveis a consciência do homem que furtivamente chora. São espinhos da alma a latejar e, na morada da consciência a negligência não entra!


A autora, Valderez de Mello, é poeta, escritora, advogada, psicopedagoga e pedagoga. Autora do livro: Lágrimas Brasileiras - valdemello@gmail.com

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