Em 2004, quando a atual presidente do Fundo Social de Solidariedade (Fuss), Rejane Casadei, assumiu, encontrou a população carente de chapéu na mão, literalmente. “Eram filas e filas de famílias pedindo alimentos, solicitando pagamento de conta de água etc. Era sistemático, diariamente.”
No início, o Fundo deu o peixe. “No começo, nos adaptamos a isso. Atendíamos as emergências, como alimentos e medicamentos. Depois, mudamos até de lugar, porque estávamos em um completamente inadequado. A Aparecida Alves de Oliveira assumiu a coordenação. Ela começou a perguntar para as famílias que chegavam e pediam o que aquela mulher sabia fazer? Porque nós tínhamos ideia de que essas famílias precisavam ser resgatadas do fundo do poço. Precisavam assumir a sua própria vida.”
Da pergunta feita pela coordenadora surgiram várias ideias e muitos pequenos empreendimentos. “Uma delas sabia fazer coxinha. Então, decidimos que íamos ajudá-la. Propusemos a ela fazer coxinha para seu próprio ganho a fim de que ela adquirisse autoestima suficiente para se libertar da dependência com o fundo.”
Fizemos o jaleco para ela, levamos ao supermercado nas primeiras compras, ensinamos como e onde vender e também a guardar sempre 20% para a compra de mercadorias. “A mulher foi para a feira e vendeu 100 coxinhas a R$ 1,00. Na segunda-feira, chegou aqui rindo de orelha a orelha. Ela tinha conquistado o objetivo dela naquele momento. Hoje, ela transformou a garagem da casa dela em uma lanchonete e não pede mais nada ao Fuss. Com várias famílias aconteceu o mesmo em outros segmentos.”
Paralelamente ao empreendedorismo, o Fuss criou outras ações. “Surgia o interesse, nós íamos buscar um voluntário para ensinar. Ensinamos, além da costura, tricô, crochê e bijuterias.”
Desfile de moda criado pelas alunas marcou encerramento do curso
No final do ano de 2011, as alunas da costura do Fuss venceram mais um desafio, a timidez. Na festa de confraternização, elas desfilaram peças criadas por elas e para elas, explica a coordenadora Aparecida Alves de Oliveira. “Montamos um desfile de modas. De agosto a dezembro, elas produziram muito para elas mesmas. Saias, vestidos, blusas e até camisas para os maridos. Roupas para toda a família.”
As peças ficaram tão bonitas que a coordenadora pensou em mostrar as criações para a população. “Eu sugeri e elas ficaram imensamente orgulhosas e satisfeitas. Foi dia 19 de dezembro, na cozinha piloto. Elas desfilaram com as roupas que elas mesmas confeccionaram, criaram, idealizaram.”
Na opinião de Oliveira, todas as peças foram brilhantemente confeccionadas, mas uma delas provocou emoção. “Uma aluna tem uma deficiência nas mãos. Fiquei imensamente orgulhosa quando ela subiu para desfilar o seu vestido. Ela conseguiu fazer seu vestido.”
Sete mil moletons
No início as máquinas eram caseiras e só faziam o be-abá-ba de costura. Só costuravam em linha reta e o trabalho era muito simples em Lins. Hoje, as máquinas mais antigas servem para os iniciantes, mas nas três salas estão instaladas máquinas industriais. O sonho de ensinar a pescar, ganhou espaço e visibilidade em 2007 com a produção de sete mil moletons para as crianças das creches e escolas municipais.
A confecção de uniformes, o impulso para a associação. “Recebemos encomenda de uniformes e isso nos fez pensar em algo maior, uma associação e, posteriormente, uma cooperativa”, comenta a primeira-dama.
Curso teve início com máquinas reformadas
O curso de costura teve início em 2006, conta a coordenadora do Fuss, Aparecida Alves de Oliveira. “Tínhamos algumas máquinas. Eram três, todas usadas. Essas máquinas estavam jogadas num depósito da prefeitura. Nós as recuperamos. A presidente Rejane Casadei comprou os motores e teve início o curso com três alunas. Uma foi puxando a outra, hoje temos em torno de 40 alunas.”
O contato com a máquina de costurar começa com a confecção da barra de guardanapo. “Começaram fazendo barrinhas, hoje elas fazem de tudo, inclusive a calça social. Mais de 100 mulheres já se formaram. Muitas saíram daqui empregadas. Costuram para lojas, montaram seu ateliê em casa, trabalham em confecções.”
Uma dessas alunas trabalha em uma grande empresa de Marília por conta do que ela aprendeu aqui. “Eu coordeno, já fui costureira. Temos professores, duas costureiras contratadas. O curso tem duração de seis meses. Aqui elas aprendem aquilo que necessitam. Se elas chegam com a necessidade de aprender fazer camisa, aprendem a fazer a peça. Muitas delas têm um emprego em vista quando nos procuram.”
Troquei os remédios pela costura
Maria Regina Machado já tinha alcançado a casa dos 50 quando percebeu que ser dona de casa não era suficiente para alcançar a felicidade. Confessa que não tinha coragem para fazer nada e descobriu que estava com depressão. “Tomava três remédios por dia.”
Há dois anos, com os filhos todos criados, ela decidiu ir ver o trabalho que era feito no Fuss. “Passava todos os dias em frente, mas não tinha coragem de entrar. Fui encorajada pelo meu psiquiatra e pela minha família. No início, tinha medo das máquinas.”
Ela aprendeu a costurar, aprendeu a viver. “Eu cresci. Aprendi principalmente que quando eu quero, eu conseguido. Hoje, tenho uma profissão. Sei que vou abrir um ateliê para mim. Com o dinheiro que ganho, posso me dar presentes.”
Macatuba usa a vocação para transformar cortadoras de cana em novas costureiras
O anúncio de que o corte manual de cana tinha que acabar até 2014 disparou um verdadeiro programa de recolocação de mão de obra pela prefeitura de Macatuba (46 quilômetros de Bauru) há pelo menos dois anos. A questão era: onde irão trabalhar as mulheres que cortam cana? A resposta foi a vocação da cidade, a costura. Desde então, projetos desenvolvidos em parceria com o Senai qualifica mão de obra para as confecções que já somam mais de 20 instaladas na cidade.
O secretário municipal de Desenvolvimento, Evandro Mâncio, explica que no início o objetivo era recolocar esse pessoal no mercado de trabalho, num processo de formação profissional, inclusão social, cidadania e o bem-estar da comunidade. “Como Macatuba tem um foco para essa área de costura no segmento industrial, precisa qualificar melhor a mão de obra, capacitando para a costura industrial. Hoje, o que era sonho já é realidade.”
As costureiras de Macatuba, grande parte delas ex-cortadoras de cana, costuram jeans, principal produto, mas atendem outras necessidades das empresas. “Temos empresas de pequeno, médio e grande porte, todas no segmento de confecções. Aqui são produzidas blusas, camisas, roupas de dormir.”
Segundo o secretário, em uma das empresas há um número aproximado de 500 funcionários. São homens e mulheres participando do processo de confecção. São várias as etapas na linha de produção. Um costura, o outro prega botão, outro só o zíper.”
No ano passado, frisa Mâncio, uma nova empresa do segmento de camisaria ofereceu treinamento para as costureiras. “Eles precisavam de mão de obra. Disponibilizaram a orientação e cederam material, tudo para manter o padrão da empresa. Cada uma tem um corte, uma maneira de costurar e quando terceirizam o trabalham, treinam as pessoas. Tudo de acordo com a coleção, com a moda.”
Ampliando o espaço
A parceria do Centro Municipal de Profissionalização de Macatuba com o Senai possibilita a qualificação da mão de obra específica, explica o secretário. “Recentemente, uma empresa daqui foi contratada a prestar serviços para loja nacional de departamento. Para atender a demanda de mão de obra, essa empresa comprou máquinas mais sofisticadas para treinar o pessoal. Tivemos que aumentar a sala.”
A parceria rendeu 15 novas máquinas que vai possibilitar o treinamento de 30 pessoas ao mesmo tempo para um trabalho específico. “O investimento do Instituto Renner foi em maquinário para a Associação Comercial de Macatuba. O repasse não pode ser feito diretamente para a prefeitura.”
‘Tenho dinheiro meu na bolsa’
Além de aprender a costurar, Tereza Lima Figueiredo, 52 anos, se vangloria de poder usar o dinheiro ganho com a costura da maneira que quiser. “Tenho meu próprio dinheiro, sou independente. Comprei sanduicheira, roupa, sapato, panificadora. Antigamente, precisava pedir dinheiro para o marido. Ele quase nunca tinha recursos para essas coisas.”
Ele confessa que a dependência financeira a incomodava. “Eu era dona de casa. Vivia na mesmice de sempre. Tenho pouco estudo e meus filhos já estavam criados. Agora, tenho uma profissão. Vamos mudar de Lins, mas me sinto segura, porque sei que vou trabalhar onde for morar.”