Bairros

Projeto resgata usuários de crack

Murillo Ferrari
| Tempo de leitura: 5 min

Aceituno Jr.

Dependentes químicos não ofereceram resistência durante operação

Quando o jovem D.P., 21 anos, conversou com a reportagem do Jornal da Cidade, fazia pouco tempo que ele tinha fumado a última pedra de crack do dia. "Não tenho nem noção de quantas eu fumei hoje. Conseguimos dinheiro ‘pra caramba’ pedindo e, às vezes, até roubando", admite. "Já usei até arma pra conseguir dinheiro e fiquei um ano preso por isso", conta quase sem remorso.

D.P. é uma das 48 pessoas que foram abordadas pela Secretaria Municipal do Bem Estar Social e pela Polícia Militar, na madrugada de ontem, durante o Projeto Revitalizar, uma ação de atendimento, abordagem e acolhimento de usuários de crack, na área central de Bauru. A ação também teve a participação de representantes do Conselho Tutelar, Defesa Civil, Caps AD, Secretaria Municipal de Esporte e Lazer e da Corregedoria Administrativa da Prefeitura.

"Essa é a quarta vez que realizamos este tipo de ação e podemos classificar como uma operação de sucesso por não ter acontecido nenhum incidente e por termos convencido quatro pessoas, entre elas uma grávida de oito meses, a serem encaminhados ao hotel social pago pelo município", destaca a secretária do Bem-Estar Social, Darlene Tendolo.

Entre um suco e outro, D.P. confidenciou que mora há cerca de seis anos nas ruas de Bauru e, assim como muitas outras pessoas, saiu de casa por causa das drogas. "Eu comecei com maconha, usei cocaína, mas me perdi no crack. No meu caso, tive um exemplo muito próximo: meu pai e outras pessoas da família faziam uso de drogas e eu fui pelo mesmo caminho."

Com o vício, veio o distanciamento da família e o ingresso num círculo vicioso que se aprofunda à medida que o usuário perde a noção dos limites sociais. "Hoje só tenho uma tia - na verdade eu considero ela uma mãe - que ainda me procura. Pelo menos umas três vezes por semana ela vem de carro até aqui me trazer roupa, comida e até dinheiro. Mesmo sabendo que eu uso droga, ela nunca deixou de estar do meu lado."

Para o Comandante da 1ª Companhia da PM de Bauru, Paulo César Valentim, a ação de ontem é um primeiro passo para tirar essas pessoas da rua. "Na verdade, demos continuidade no trabalho que começamos a desenvolver no ano passado, cujo objetivo é identificar quem são as pessoas que frequentam este espaço", explica.

É a partir desta identificação reforça pelo Capitão Valentim que, num segundo momento, a Sebes entre em contato com as famílias para ampliar o tratamento. "Não basta interná-los. É preciso envolver a família, ele precisa voltar a se sentir membro daquele convívio social", completa Darlene.

"A gente para e vê a vida: tem dia que ficamos sujos, tem dia que não temos nem roupa. O crack não é vida. Claro que eu não gostaria de estar aqui hoje e espero que um dia eu consiga largar o vício e voltar ao normal", esperançoso, alimenta o desejo provavelmente mais importante que já teve na vida.

48 ‘ex-anônimos’ 

Para quem não está acostumado a lidar com pessoas em situação tão crítica, é quase impossível não ficar impressionado com a vida degradante que levam estes 48 "ex-anônimos", identificados pela Sebes.

Uma das coisas que mais chamaram atenção foi o fato deles passarem despercebidos por maior parte da população no dia a dia. Antes da abordagem inicial feita pela PM, a reportagem circulou pelas vias que formam a região conhecida como "cracolândia" de Bauru e não avistou mais do que três andarilhos.

Menos de uma hora depois, eram quase 50 pessoas sendo atendidas por quem queria ouvi-los. Tirando o lado triste por conta da falta de condições de vida destes seres humanos, ficam o aprendizado e a vontade de querer (e fazer) mais por quem precisa, em alguns casos, apenas de uma mão estendida. 

‘Quando dá a louca, a tentação é forte’

Ele tem 20 anos, é casado e a mulher nem imagina que na calada da noite Fabiano frequenta a "cracolândia" de Bauru. "Fazia três semanas que eu não usava crack, mas quando dá uma recaída, quando dá a louca, é forte a tentação de vir aqui buscar uma pedras", conta com pesar.

O rapaz admitiu que antes de ser abordado pela PM fumou quatro ou cinco pedras de crack. "Pago, em média, R$ 10 por cada uma. Quando eles chegaram ainda joguei umas sete fora", completa.

Um pouco evasivo enquanto era entrevistado, Fabiano chegou a dizer que não se considera um viciado em drogas porque consegue "ficar longos períodos sem usar". No entanto, antes de ir embora, numa mistura de consternação e sinceridade, deixou escapar que quer mudar o próprio futuro: "Isso é uma vida de cão. Meu irmão está internado no Esquadrão da Vida e eu só estou esperando uma vaga".

Com sucesso, ABD junta-se à ação

Pela primeira vez a Associação Bauru pela Diversidade (ABD) participou da ação promovida pela Sebes. De acordo com o presidente da associação, Marcos Souza, esse contato foi uma necessidade sentida pela própria secretaria. "Às vezes o público GLBT é um pouco arredio com a abordagem e, nesse sentido, nossa experiência pode vir para somar", explica.

A presença da ABD pode ser considerada efetiva já que um homossexual aceitou o acolhimento e foi encaminhado para tratamento. "Esse jovem é um designer de interiores que foi rejeitado pela família depois de revelar que era gay. Infelizmente ele acabou encontrando no crack a aceitação que não teve dentro de casa", relata Souza.

O presidente da ABD prometeu que a entidade acompanhará o caso deste rapaz para que ele possa ser reinserido no mercado de trabalho depois que encerrar o tratamento. "Empregabilidade e diversidade", arremata.

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