Política

?DAE precisa ser remontado?, diz Lara

Nélson Gonçalves
| Tempo de leitura: 7 min

O novo presidente do Departamento de Água e Esgoto (DAE), Fábio Lara, fala de conceitos, problemas e desafios e, em síntese, confirma a necessidade de revisão de rotinas, normas e cultura de ação e reação entre as equipes da autarquia.

Leia os principais pontos da entrevista concedida ontem, onde Lara fala das primeiras impressões à frente da autarquia que, embora acumule superávits orçamentários seguidos e tenha projeção de entrada de recursos no caixa bem acima da inflação também neste ano, enfrenta defasagens e problemas acumulados na prestação de serviços básicos de abastecimento de água e saneamento:


Jornal da Cidade - O senhor assumiu a missão de resolver uma crise estrutural, gerencial, operacional e institucional no DAE?
Fábio Lara
- Realmente o DAE vive uma crise e concordo com todos esses parâmetros colocados. O ponto positivo é que, como empresa, como capacitação empresarial, e eu prefiro olhar sob o aspecto positivo, temos total condições de conseguir reerguer o Departamento, de conseguir remontá-lo para atender os propósitos para os quais ele foi criado, que é o de promover saneamento e abastecimento da cidade em bons níveis. Agora, nesse meio de caminho, existe uma série de imperfeições, sob a lógica administrativa, estrutural e de gestão, que merecem uma atenção e têm de ser sanadas. É minha primeira experiência em empresa pública, eu não sei o que ocasionou isso. Mas sei que questões inerentes a uma empresa pública, como a menor liberdade de gestão ou de interferência para obtenção de resultado de curto prazo, têm de ser combatidas. Há limitações, mas temos que lidar com elas.

JC - Quais outros fatores são obstáculos à gestão?
Lara -
Você tem uma alternância de comandos em curto espaço de tempo e a mudança do governo a cada quatro anos, quando muda a equipe, o presidente e a diretoria, o que interfere na maneira como a empresa pública passa a responder a suas obrigações. O que eu acho desejável é que procedimentos caracterizados devem ser mantidos, aqueles que fornecem modus operandi para as ações de gestão. Isso tem de estar garantido na empresa independentemente do indicado para o comando, ou seja, a empresa tem de ter processos de gestão que independem da troca de comando. O planejamento estratégico o comando redefine, mas não atuar nas rotinas diárias é que mudaria esse quadro. Ações técnicas têm de ser delimitadas junto aos técnicos, senão a empresa perde essa capacidade de dar resposta.

JC - O prefeito disse abertamente que lhe convidou para a missão de virar a mesa, mudar por dentro, o DAE. Por onde vai começar?
Lara -
Existem ações do dia a dia que andam ao mesmo tempo, não tem jeito. Decorridos 40 dias que assumi, com os intervalos do final do ano, eu corri para ter uma leitura mínima de ações cujas decisões não poderiam esperar. Outro ponto a observar ainda, neste diagnóstico, é que a gente tem um ano de mandato, com uma situação altamente problemática para o consumidor que tem de ser resolvida. Apresentamos projetos ao prefeito rapidamente, que era uma questão sempre em aberto, e temos colocados R$ 6 milhões de investimentos divididos em poços profundos prioritários e a metade para repor maquinário, que está muito defasado. Eu estou, de outro lado, tomando pé real da situação por setor, para identificar se a crítica ou o problema está ou não recaindo sobre uma pessoa ou é questão de procedimento de equipe, para corrigir na área. Se for o caso de redefinir forma de trabalho, vou apontar a maneira como eu julgo correto atuar. Se for mudança, eu mudo se essa pessoa não corresponder a expectativa. Isso vai setor a setor. Agora o nível de remuneração é baixo diante do mercado e não adianta dizer que vai trazer um engenheiro brilhante para uma área porque esse tipo de mão de obra ganha cinco vezes mais no mercado e não vai vir. Agora eu tenho de ver se eu não tenho lá gente com capacidade e que está com o modo de trabalhar e o sistema sem regra. Eu passei a questionar processos e procedimentos, porque ações simples demoram muito tempo e isso tem de ser resolvido. Fiz uma reunião de horas para buscar ações a serem seguidas e tive de ouvir mais mágoas e problemas do que propostas. Mas faz parte.

JC - Mas tem cultura do empurra ou deixa isso pra lá?
Lara -
Tem uma cultura de quem se acomodou, quem não se comunica, seções que não se falam entre si, de falta de definição de parâmetros de procedimentos e de diálogo. Problemas acumulados e erros também. Estou setor a setor identificado e trabalhando para, aos poucos, ir ajustando e alterando o que for preciso. Tem gente que não tenta resolver ou encaminhar algo que ele pode. Isso acontece em tudo, no contrato onde um diz isso não é comigo, ai vai no outro e ele fala que para agir ele preciso de algo do outro e assim vai. O diálogo entre o DAE e as secretarias também não existia como é preciso e sinto que as secretarias municipais estão muito receptivas. E o servidor tem de dialogar e resolver problemas e o chefe de equipe tem de prestar informações e dialogar com todos, com a imprensa, com os demais órgãos. O cliente é visto muito como contribuinte e quando o cidadão liga muitos o atendem como se fosse um reclamante. Isso é cultural e tem de mudar. Quando você liga indagando algo você está discutindo um tema, uma ação, um contrato com algum questionamento que precisa ser avaliado e respondido. Isso ajuda ao invés de prejudicar. Se estiver errado, tem de arrumar e não sair reclamando de quem reclamou.

JC - Como é possível a prefeitura conceber plano de habitação e de pavimentação e não sentar com o DAE? Se a rede não estiver liberada e não tiver abastecimento o plano sai?
Lara -
Tem de estar em consonância, sentar de definir junto, para definir prioridade, onde, quando e como. Não adianta ter o projeto da moradia se não houver abastecimento no setor. Tem de estar inserido no projeto de desenvolvimento da cidade, não só com o DAE. Tem repercussão em mobilidade urbana, escola nova, atendimento à saúde, é conjunto.

JC - O que é difícil para o cidadão entender é por que a bomba que vai substituir a que queimou não estava revisada a tempo, teve de esperar cinco dias. Por que não tinha luva no estoque para consertar a rede na rua Salvador Filardi? É um item de estoque e não tem. São exemplos de falhas em várias frentes.
Lara
- Eu vejo que a estocagem de bombas não é em condições ideais. Sei que para toda bomba há uma reserva. Mas a de reserva fica lá dois anos no estoque e já questionei que tem de estar pronto para resolver na hora, quando estoura. Estamos discutindo essas questões sim. Chamo isso de revisar rotinas e estabelecer requisitos para tempo de resposta. Acho que precisa ter um sistema de Controladoria, para acompanhar e rever rotinas. Precisa gestor de contrato para resolver problemas no andamento do processo. Quero criar uma área de gestor de contrato, para treinar, reciclar, dar suporte ou mostrar o que está errado no procedimento. O operador pede a peça, a luva para consertar a adutora. Mas como comprar, onde comprar, se é item que precisa ter em estoque ou não, a rotina, tem de ser resolvida por gestão de contrato. Não tem suporte para essas questões burocráticas. O servidor quer consertar o cano, mas a peça não está no estoque. O usuário é cliente. Ele tem de abrir a torneira e a água sair. Se o contrato não deu certo, se não tem item no estoque, se falta combustível, se o servidor não foi trabalhar, isso é problema do DAE e nós temos de resolver. Quem reclama é visto como o chato e isso é cultural e tem de mudar.

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