Bairros

Fim de sacolinha desafia população

Marcele Tonelli
| Tempo de leitura: 5 min

Comerciantes e população de regiões mais afastadas do Centro e zona Sul da cidade encaram como um "desafio" mudar hábitos para acabar com a sacolinhas de supermercado. Conforme divulgado desde o ano passado, a meta da Apas (Associação Paulista de Supermercados) é tirar o material poluente de circulação nos estabelecimentos a partir de hoje, dia 25, aniversário da capital. A ação objetiva livrar o meio ambiente das sacolinhas e conta com apoio do governo estadual – e, por aqui, da Prefeitura de Bauru.

Na região Oeste, a dona de casa Giovanethe de Oliveira, 50 anos, reconhece: considera-se "desprevenida". "Eu tenho aquelas sacolas de pano em casa, mas esqueço de trazer", diz. Já o motociclista Neylor Vieira, 26, alega que a medida não "adiantará muito" e irá dificultar suas idas ao supermercado. "Vai ser mais difícil carregar as compras na moto com aquela outra sacola [retornável] porque, além de ser grande, é desajeitada. Acaba pegando na moto e atrapalha".

Giovanethe, apesar de ser a favor da substituição em prol ao meio ambiente, afirma que a medida poderá ser prejudicial ao bolso dos consumidores que segundo ela, deverão gastar mais com a compra de sacos de lixo. "Eu uso a sacolinha em casa para colocar no lixinho do banheiro. Eu já uso saco de lixo em casa para recolher as folhas de árvore, mas agora terei que gastar mais com isso", ressaltou.

Na área Noroeste, o ferroviário André Luiz Morgatto, 25 anos, foi ao mercadinho perto de sua casa para comprar apenas um item e também saiu do estabelecimento com uma sacola plástica na mão. Segundo ele, a situação acabou passando despercebida e a funcionária do mercado empacotou o item automaticamente, sem questioná-lo sobre a sacola.

Na região Norte, dúvidas se repetem. "Eu não sei como vai ficar. Vai dar rolo", acredita o mecânico Moisés Bosco Domêmico, 36. Perto de um mercadinho da região Leste, mais ponderação: "Sacolinha é prática, está no dia a dia das pessoas", comenta a diarista Margarete Romano, 34.

 

A favor, mas...

"De toda a minha freguesia, apenas 2% das pessoas já trazem sacolas retornáveis para fazer a compra", afirmou um proprietário de mercadinho na zona Oeste da cidade. Ele diz ser a favor da extinção das sacolinhas pelo bem do meio ambiente, mas confessa sentir-se numa situação "complicada" quando as donas de casa perguntam a respeito.

"A pergunta que elas me fazem é: por que a sacolinha não pode e os sacos de lixo pode? Aí eu digo que o saco de lixo tem um tempo menor de decomposição na natureza, mas assim mesmo elas acabam pedindo para levar as sacolinhas para colocar no lixinho da pia e no banheiro de casa", completa o comerciante.

A mesma realidade é dividida pelo dono de outro mercadinho, na zona Norte. Segundo ele, apesar de disponibilizar sacolas retornáveis para venda por preço de custo, a maioria de sua clientela acaba levando a mercadoria para casa em sacolas plásticas. "Estamos nos preparando para o dia da substituição. Tenho sacos de papel grosso e caixas de papelão para embalar a compra das pessoas que não comprarem ou esquecerem as sacolas retornáveis."

 

Custo e hábito

Conforme divulgado por edições anteriores do Jornal da Cidade, a extinção das sacolinhas descartáveis do supermercado mostrou mobilizar boa parte dos consumidores nos supermercados da zona Sul e Centro do município. A questão em aberto é se a "lei" vai mesmo pegar.

Seja como for, com um custo estimado em R$ 0,03 aos supermercados, a sacolinha plástica que está com dias contados, segundo os proprietários dos mercadinhos na zona Norte e Oeste, representará para eles uma economia mensal na ordem de R$ 1. 500.

Teresinha Pereira Gumieira tem 69 anos e uma consciência ambiental privilegiada. Diferentemente de outras pessoas, há vários anos ela possui o hábito de levar sua própria sacola ao supermercado. "Eu gosto da sacola, ponho tudo aqui no ombro e saio tranquila. Sei que isso também é importante para o meio ambiente", ressalta.

 

Estoques serão decisivos

De acordo com o diretor regional da Apas, Erlon Carlos Godoy Ortega, o número estimado de pessoas que já aderiram à campanha na cidade atinge 30%. "Esse percentual refere-se a pessoas que possuem a sacola retornável e a leva na hora das compras", enfatizou. Segundo ele, todos os supermercados de médio e grande porte em Bauru aderiram à substituição.

A respeito da adequação dos supermercados e da população de bairros afastados quanto à medida, Erlon frisou que essa é uma situação comum nesse tipo de campanha. "Os mercados de pequeno porte acabam esperando o efeito dar resultado nos grandes estabelecimentos para poderem agir. Assim que o estoque de sacolas desses estabelecimentos acabar, acredito que eles irão aderir efetivamente e a população local também", afirmou o diretor da Apas.

Ele acrescenta: os supermercados distribuem, em um único mês, cerca de 15 milhões de sacolinhas. O número representaria cerca de 80% do total de embalagens plásticas oferecidas em todo o comércio local.

Nunca foram obrigados a fornecer

A coordenadora do Procon de Bauru, Fernanda de Assis Martins Pegoraro, confirmou que, para o consumidor, a melhor saída em relação a substituição das sacolinhas é adequação.

"O Código de Defesa do Consumidor não obriga os estabelecimentos comerciais a oferecerem meios para o transporte das compras. A sacolinha era oferecida por uma opção dos próprios supermercados", alertou a coordenadora.

Segundo ela, a única exigência que o Procon fez aos supermercados, em relação ao assunto, foi sobre o valor da sacolinha, que antes era cobrado do consumidor e hoje deixará de existir, resultando na redução de preço dos produtos. Sobre a redução, os próprios empresários do ramo já afirmaram que essa diminuição não será sentida diretamente pelos consumidores, por conta do baixo valor das sacolinhas. O vice-presidente da Câmara Setorial de Máquinas e Acessórios para a Indústria do Plástico (CSMaip), Gino Paulucci Júnior, diverge da Apas. "Se a preocupação fosse ecológica, os supermercados também eliminariam o uso de outras tantas embalagens plásticas dentro da loja, como as que armazenam carnes, frutas e verduras". Ele aponta desemprego no setor plástico como consequência da medida

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