Bairros

Poucos metros e muitos contrastes

Wanessa Ferrari
| Tempo de leitura: 7 min

Contraste

De um lado do bairro, uma concentração de sete residenciais verticais, com cerca de 7 mil pessoas, além de residências comuns, mercados, lojas de roupas, restaurantes, sorveterias e uma bela praça com direito a pista de mountain bike para a diversão das crianças. Do outro lado, galpões e mais galpões. Todos altos, fechados até o teto, a maioria, com inscrições na parede que justificam o fluxo intenso de veículos grandes na região: trabalham com mecânica pesada.


O contraste faz parte do cenário da região do Jardim Marambá, que compreende a Vila Galvão, Vila Engler, Jardim Contorno e Jardim Auri Verde, e chama a atenção especialmente porque mesmo com características tão distintas a área residencial e a área de serviços convivem em plena harmonia.


“Aqui é um ponto bom de localização para todo mundo. Tanto para as empresas, que já conquistaram o seu espaço e têm terrenos grandes e próximos à Rondon, quanto para as pessoas, que têm fácil acesso a qualquer parte da cidade, seja pela Nações Unidas ou pela Duque de Caxias, além da facilidade com relação ao comércio local”, avalia Davi Rufino da Silva, que mora em um residencial instalado bem no meio da zona de serviços.

 

Alegria em meio a muito concreto


Barracões empresariais, caminhões, carros e mais barracões empresariais. Este é o cenário visto por quem percorre as quadras da Vila Galvão, localizadas logo acima da avenida Duque de Caxias, beirando a rodovia Marechal Rondon.


Contudo, em meio a tanto concreto, uma casa de fachada simples, com portões baixos e lembretes coloridos chama a atenção. É a Creche Berçário Cruzada dos Pastores de Belém, construída no local em 16 de dezembro de 1960, quando a região ainda era tomada por mato e casas de madeira.


As salas coloridas, cheias de crianças, berços, brinquedos e materiais escolares são capazes de fazer esquecer do barulho de máquinas que impera do lado de fora.


Pioneira na região, a creche foi criada por um padre chamado Natal e tinha por objetivo cuidar dos filhos de viúvas e mães solteiras. Com o tempo, a configuração da entidade mudou: ela passou a atender a todas as crianças da região e a ser administrada pela Sociedade São Vicente de Paula (S.S.V.P).


Porém, após 51 anos resistindo à especulação imobiliária da região e às dificuldades financeiras e administrativas, e creche corre o risco de fechar as portas. “Falta verba e gente interessada em ajudar. Precisamos de cerca de R$ 10 mil a mais por mês, além do que recebemos em doações e da prefeitura, para continuar o trabalho”, explica Edgar Ribeiro, presidente da creche.


A falta de interessados em assumir a presidência é outro problema. Isso porque Edgar já não tem mais a idade exigida pelo estatuto da entidade, e não existem vicentinos interessados em assumir o cargo.


“É uma batalha muito grande. A creche está capengando há vários anos. Temo que tenhamos de fechá-la. Seria uma perda muito grande para toda a comunidade e professores”, lamenta Cristiane Bueno, coordenadora da creche.

 

Convivência pacífica

De dia, movimentação intensa e muito barulho. Depois das 18h, silêncio absoluto e ruas quase desertas. É assim a rotina da região do Jardim Contorno, onde mora o eletricista José Osvaldo Ferreira, 55 anos, mais conhecido como Nei.


A casa de Nei é uma das poucas existentes na rua José Pimentel, onde, por lei, está permitido a instalação da zona de serviços. A família tem terreno no local desde 1975, mas passou a morar lá por volta de 1987.


“Era tudo vago. Meu pai abria caminho na enxada e o trânsito por aqui era só de carroças. Não tínhamos vizinhos, asfalto, nem iluminação”, lembra.


Cenário que Nei viu se transformar aos poucos, com o aumento na instalação de empresas de mecânica pesada, transportadoras e depósitos.


“Fomos nos acostumando gradualmente com a movimentação e com o barulho e hoje acho tudo muito natural. Não temos problema algum com isso. A convivência é pacífica”, garante o morador, que já chegou a receber proposta para vender a casa para um empresário que queria construir um restaurante no local.


“Recebi a proposta, mas não chegamos a negociar seriamente. O terreno por aqui está muito valorizado, mas minha mãe já tem idade avançada. A casa, na verdade, é dela, e ela está adaptada a viver aqui”, explica.

 

Cada um no seu quadrado


Cada um no seu quadrado. Esse é o segredo para uma convivência pacífica entre a zona de serviços mais densa de Bauru e uma das regiões que concentra o maior número de habitantes por metro quadrado da cidade.


“É bem dividido. Os caminhões evitam descer do Camélias pra baixo e as pessoas têm consciência que, caso queiram morar daquela área pra cima, terão de conviver com o trânsito intenso de veículos pesados e com barulho”, explica Celso Aguiar, 48 anos.


Ele é proprietário de um porto de areia que fomenta construções civis e atua em terraplanagem. A empresa existe desde 1976, mas funciona na região desde 1986.


“Antes, existiam poucas empresas por aqui. Nessa época, foram construídas algumas casas na região. Essas casas permanecem até hoje, mas o número de empresas vizinhas aumentou bastante, demarcando bem as características do local”, afirma Celso.


Quem caminha pela região durante o dia nota também que os moradores do Jardim Marambá e adjacências não costumam circular pelas quadras localizadas entre a rodovia Marechal Rondon e a rua Francisco Van Der Maas. Muitos, provavelmente, nunca exploraram o local.

 

Investidores apostam na região



Em expansão. Este é o status que melhor define a zona de serviços localizada às margens da rodovia Marechal Rondon, entre as avenidas Nações Unidas e Duque de Caxias.


O crescimento é notório. Basta caminhar pelas proximidades para reparar que existem vários barracões em construção e outros tantos cheirando a tinta fresca. Na esquina da rua Antônio Gobette com a Francisco Paez, por exemplo, um galpão de 2.100 metros quadrados cresce a todo vapor. O responsável pela obra é o empresário Luiz Fernando Castanheira Fanton, que tem planos de alugar o espaço para uma empresa de mecânica pesada.


“Sei que a região está cada vez mais valorizada e que a procura por galpões com vão livre alto é cada vez maior. Por isso, decidi investir”, afirma.


De acordo com ele, o terreno no local custa em torno de R$ 200,00 o metro quadrado, mais que o dobro do valor cobrado há cerca de 3 anos, quando o mesmo espaço custava em torno de R$ 80,00.


Já o aluguel gira em torno de R$ 10,00 o metro quadrado, totalizando R$ 21 mil por mês no caso do espaço de propriedade de Luiz Fernando.


Além de levar às alturas o valor do metro quadrado do terreno, o aumento do adensamento da zona de serviços fez com que a área, inicialmente delimitada pelas vias Irmã Arminda, Jorge Pimentel, Elza Filipinni e Marechal Rondon, fosse extrapolada.


“Atualmente, da rua Cristiano Pagani para cima é possível dizer que estamos na zona de serviços. Nesta área os terrenos são bem mais valorizados, sendo assim, é natural o predomínio de empresas, pois as pessoas não estão dispostas a pagar R$ 180 mil em um terreno do tamanho de 11x33 metros para morar”, explica Paulo Kazuo Shoda, proprietário de uma imobiliária com terrenos disponíveis naquela região.

 

Rodovia facilita, mas traz perigo

A proximidade com a rodovia Marechal Rondon foi um dos elementos considerados na hora da decisão de instalar a zona de serviços na região da Vila Galvão, Vila Engler, Jardim Contorno e Jardim Auri Verde. A ideia era evitar o trânsito de veículos pesados pelas ruas da área residencial.


A estratégia deu certo. Além de restringir o fluxo de caminhões e carretas à parte compreendida entre o condomínio Parque das Camélias e a rodovia, a região tornou-se referência na prestação de serviços de mecânica pesada.


Contudo, a falta de uma marginal de acesso ao Jardim Contorno incomoda os empresários instalados no local.


“Tenho empresa aqui desde 1986 e acho perigoso caminhões, carros, carretas e motocicletas saírem direto da rodovia para entrar no Jardim Contorno. Penso que se existisse uma marginal o perigo seria bem menor”, avalia Celso Aguiar, 48 anos.


Para o empresário Edson Luiz Gonçalvez, a proximidade com a rodovia facilita bastante a localização por parte dos clientes, o que não significa que eles sejam, em sua maioria, pessoas que circulam pela rodovia e decidem parar na zona de serviços.


“São pessoas que já conhecem a característica dessa área. A rodovia apenas facilita o acesso”, explica.

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