Saudades sim, saudosismo, nem pensar! Desta forma, personagens que protagonizaram os antigos carnavais de Bauru defendem que a festa, de maneira geral, já teve maior espontaneidade e, consequentemente, mais apelo popular.
Contemporâneos de quando a cidade chegou a manter até entre oito e nove bailes de salão durante o mesmo feriado, todos com casa cheia, eles acreditam no renascimento gradual da tradição em Bauru, obviamente que não nos mesmos moldes de até duas décadas atrás, contudo, forte em termos de qualidade e participação popular.
Um desses ícones de alas passadas mas que está de olho em novas apoteoses é Antônio Eufrásio de Toledo Filho. Toledinho, como é mais conhecido entre amigos e no meio carnavalesco, o coordenador do conselho gestor da Instituição Toledo de Ensino (ITE), fora do meio acadêmico, é lembrado como um genuíno e honorário integrante da escola de samba Acadêmicos Cartola.
Integrante das antigas da "nação cartolense", como ele mesmo denomina, Toledinho lembra dos agitados e concorridos desfiles na avenida Nações Unidas, até hoje considerada a principal passarela do samba bauruense. O Sambódromo, afirma, não "deu liga". "Não sei, mas parece que (o Sambódromo) não transmite o mesmo calor que sentíamos quando o desfile acontecia na Nações", compara.
Atualmente, para Toledinho, o Carnaval é um período mais de descanso do que de folia. "Maior espontaneidade acontece no Rio de Janeiro, a capital cultural do Brasil, e em outros poucos centros. Mas, no geral, o Carnaval hoje é folga, férias. Os costumes estão muito liberados. As pessoas se divertem muito o ano inteiro. Não há mais aquela expectativa para chegar a época de ?liberação?, quando tudo era aceito, mas também perdoado", analisa, sem disfarçar a emoção ao relembrar as inesquecíveis performances da Cartola. "A maior adrenalina é descarregada no grito de guerra, no aquecimento. As sirenes tocando..., só quem desfila sabe", descreve.
Do quilate
Quem também tem muita história de outros carnavais para contar é José Ricardo Scarelli Carrijo.
Economista e administrador de empresas fora da avenida, mas, dentro dela, ex-presidente da Mocidade Independente da Vila Falcão e, atualmente, integrante do bloco "Pé de Varsa", um dos destaques da retomada dos desfiles no Sambódromo "Guilberto Carrijo" (pai dele), no ano passado, Carrijo também elege o final dos anos 1980 como a apoteose dos desfiles bauruenses.
Nesta época, o Carnaval da cidade, nestes moldes, chegou a ser considerado o melhor do interior paulista, figurando apenas atrás da capital e de Santos, tida como a maior festa do litoral.
Na época, contabiliza, escolas do quilate da Mocidade chegavam a contar até com 1,5 mil passistas no asfalto da Nações, que recebia arquibancadas modulares.
Em 1990, durante o governo do então prefeito Antônio Izzo Filho, as estruturas provisórias armadas na Nações cederam vez às arquibancadas de concreto do sambódromo construído no Núcleo Geisel.
Ação e reação
A passarela do samba de Bauru foi a segunda a ser construída no País. Até então, apenas o Rio, com a Marquês de Sapucaí, possuía sambódromo. São Paulo ganhou a "avenida" no complexo do Anhembi, na Marginal Tietê, apenas três anos depois.
Para Carrijo ? que foi candidato a prefeito no final dos anos 1980, derrotado nas urnas justamente por Izzo Filho, com o mandato cassado meses depois ? as dificuldades políticas enfrentadas pela cidade logo após a inauguração do Sambódromo contribuíram para o declínio e consequente cancelamento do desfile, anos mais tarde. "Qualquer celebração que deixa de ser realizada perde o sentido", reforça o antropólogo Antônio Valter Ribeiro de Barros. Apesar de não ter chegado ao ponto de perder o sentido, o desfile de escolas de samba em Bauru tenta retomar o brilho. No "longo e tenebroso inverno" da década passada, lembra Carrijo, as escolas de samba perderam o aporte financeiro do prefeitura, principal fonte de recursos para organizarem fantasias, alegorias e logística. Poucas se mantivera. "É igual a futebol, como você vai torcer para um time que não disputa campeonato algum?", compara.