Ciências

O osso e a metamorfose ambulante

Alberto Consolaro
| Tempo de leitura: 4 min

Raul Seixas cantou, e no meu ipod ainda canta: ... prefiro ser uma metamorfose ambulante do que ter aquela velha opinião sobre tudo! Um dia a mulher reclamava que o marido lhe abandou há 4 anos, quando tinha 35 anos. Depois ficou-se sabendo que ele voltou e com um papo empolgante: - querida, voltei e agora sou um novo homem, eu mudei, me transformei, tudo em mim se renovou!

Mesmo enrolando, estaria sendo verdadeiro. O esqueleto humano tem 206 ossos, todos bem formatados com design impecável para atender as demandas funcionais e absorver ou fazer forças nos movimentos. Nos ossos se inserem os músculos e tendões para levar-nos aos cantos do mundo. Vá até um museu que tenha esqueletos humanos, observe a forma dos ossos, como se articulam entre si ou se relacionam com as demais partes.

Os ossos não têm quinas, bordas vivas, estruturas pontiagudas: tudo é liso e arredondado. Parece claro, mas se os ossos não fossem arredondados machucariam os tecidos moles que ficam na periferia. Quem tem fratura ou esporão sabe a dor que provoca; os ossos devem ser arredondados e lisos.

O que for vital está guardado pelos ossos: cérebro, coração e pulmões, além da medula que produz o líquido que nos dá vida e defesa: o sangue. Os ossos são peças maravilhosas com muitas variáveis: cartilagens, tendões e articulações. E ainda vem embrulhado para presente: nas superfícies externas tem uma membrana resistente e protetora, o periósteo.

Se for atleta, o osso fica maior e mais mineralizado, adequa estrutura e design. Se for sedentário os ossos ficam finos, menos densos e menos mineralizados. O que achamos ser duro e resistente na verdade é maleável, moldável, adaptável e procura atender todas as demandas funcionais que inventamos. O esqueleto enfim é um excelente companheiro, mas na maioria, ignoramos isto!

Como o osso consegue ser assim? O esqueleto de adulto jovem se renova por inteiro a cada 4-5 anos, nosso esqueleto se transforma continuadamente. O marido estava certo, não mentiu ao dizer que era outro homem, pelo menos o esqueleto mudou. Deixemos claro: o cérebro não se renova e deve ser por isso que o teimoso é conhecido como cabeça dura, mas a culpa não é do osso!

A estrutura mineralizada óssea tem milhões de pequeninas lacunas do tamanho de uma célula em forma de aranha. Os osteócitos tem 20 a 50 prolongamentos citoplasmáticos aleatoriamente distribuídos na parte dura do osso. Cada uma destas células conectam-se com outras 20 a 30 células. Imaginem muitas aranhas dando as mãos para outras 20 a 30.

Os osteócitos formam uma rede intercomunicante dentro do osso. Quando aplicamos força nos movimentos, deformamos por esticar ou comprimir e esta rede capta a alteração na forma e imediatamente comunicam-se nesta rede social celular, enviando produtos químicos para as superfícies internas ou externas com a seguinte mensagem: mudem a forma atual, precisamos nos adaptar à situação, aperfeiçoem o design. Todo dia o design ósseo se adapta ao uso. Um show de flexibilidade, adaptabilidade e vontade de servir.

As células da superfície óssea parecem pedreiros: os osteoclastos derrubam revestimentos e paredes, os osteoblastos levantam e reforçam pilares e estruturas. Nas pesquisas, as células da superfície cada vez mais parecem ser comandadas pelos osteócitos. Logo os osteócitos que os cientistas acreditavam estar perdidos e isolados no matriz mineralizada: estavam errados!

Se quiser reforçar seu esqueleto, deforme e estique os músculos e tendões para deformar e estimular a rede de osteócitos a adaptar o design aos seus anseios! Se desanimado e acomodado, os osteócitos não terão estímulos para renovar seu esqueleto e adaptá-lo ao estilo de vida. Os ossos ficarão cada vez mais frágeis, menos duro e pouco resistentes: você decide! Quer goste ou não, pelo menos seu esqueleto é uma metamorfose ambulante! Este processo pode ser identificado como remodelação ou turnover ósseo.

Nossa máquina é incrível: a remodelação deixa o sangue sempre cheio de cálcio, um íon vital e a isto ela também serve. Existe um equilíbrio nesta metamorfose ambulante óssea ou turnover: o cálcio sanguíneo deve ficar estável e o esqueleto adaptado com estrutura condizente com a função. O que é duro como o osso é maleável, flexível e adaptável; já o equilíbrio advém de uma metamorfose constante e ambulante! Ainda temos muiiiiiito que aprender com nosso corpo, ele é incrível!


Alberto Consolaro é professor titular da USP - Bauru. Escreve todas as segundas-feiras no JC. E-mail: consolaro@uol.com.br

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