Wando era muito mais que um cantor que usava calcinhas para enxugar o suor, e mais, tinha uma coleção delas da qual se orgulhava e tencionava fazer um museu com este acervo pouco usual. Nos anos 70, o apelo erótico embalado pela geração das drogas, psicodelismo e do sexo livre esbarrava na melhor maneira de se fazer entender, com expressões na música, artes plásticas e todo tipo de manifestação artística no mundo inteiro. No Brasil, pornochanchadas, música brega e teatro se somaram nesta tentativa, com equívocos inerentes à tamanha empreitada. O cinema apelou em demasia, fazendo da boca-do-lixo em São Paulo um celeiro de filmes com gosto duvidoso, mas que habitou a cena por décadas, tendo seu valor por ter sido feito em época de ditadura militar. Na música, Roberto Carlos era o máximo nesta tentativa de colocar nas letras o que se passava nos lençóis de cetim brancos nos chamados "motéis de alta rotatividade", que era o nome que se dava ao hoje famigerado e apenas, motel.
Do outro lado da corda, puxando a caçamba mais pesada e tentando colocar nas canções o ambiente pesado dos bordéis e boates, cantores como Odair José, Amado Batista e Fernando Mendes dentre tantos outros, choravam amores perdidos e senhoras de vida fácil. Mas o faziam de maneira crua e sem anestesia, criando o estilo brega, que misturava as paixões de lixeiros, empregadas, cornos e desprezados.
Chegou Wando, de início um sambista de marca maior, lançado por Jair Rodrigues com o hit "O importante é ser fevereiro", que foi se deslocando para um nicho romântico criado especialmente por ele. Sim, ele criou um estilo que transitava entre Shakespeare e a Conselheiro Nébias, na Praça da República. A canção "Moça" tem o lirismo e letra designados àqueles que amam o que não se pode amar, que preferem viver a paixão que chuta o balde do falso moralismo. Fez uma canção interessante chamada "Jesus (Negro bonito dos olhos azuis)", escancarando um racismo onde novamente usava as luvas de pelica para esbofetear o status quo étnico reinante, atitude não muito comum em 1976 no Brasil.
Ao passar do tempo, nada me afasta desta premissa, se entregou de corpo e alma em defender a gentileza, a paciência e a entrega quando se ama, utilizando um arsenal de canções que nunca tiveram apelo explícito do tipo "Eu vou tirar você deste lugar", que contava com todas as letras a saga de um frequentador de casas de tolerância, que se apaixona por uma dona de lá. Não. Wando depositava suas fichas no explícito encanto de demonstrar a quem se ama não apenas o discurso, mas as ações, que se materializavam em flores, calcinhas e convites para noites inesquecíveis.
Wando foi o link entre um romantismo clássico e talvez acovardado pela histórica distância feminina, que se fez diminuir com suas canções apaixonadas, e a breguice desbragada que dizia "mon amour, meu bem ma femme" a uma mulher mais jovem, que fazia o macho envelhecido louco. Não muito difícil e nada desmerecedor sugerir que, por ele ter partido aos 66 anos ? uma idade tranquila hoje em dia - com problemas cardíacos irreversíveis que podem ter sido efeitos colaterais dos medicamentos que melhoram o desempenho sexual. Infelizmente, este elo entre o rabo-de-galo e o scotch, entre Roberto Carlos e Odair José tenha se tornado agora, perdido.
O autor, Marcondes Serotini Filho, é cronista e colaborador de Opinião