São Paulo - Única testemunha ocular da invasão do apartamento que terminou com a morte de Eloá Cristina Pimentel, há três anos, a estudante Nayara Rodrigues da Silva, 18 anos, foi o personagem principal do primeiro dia de julgamento de Lindemberg Alves, 25 anos (veja quadro). A jovem, que também foi baleada em outubro de 2008, emocionou-se ao lembrar da invasão policial, após 100 horas de cárcere, afirmou que Lindemberg anunciou que Eloá “não sairia de lá viva” e ainda bateu boca com a advogada de defesa, Ana Lúcia Assad.
Foram pelo menos três momentos de enfrentamento, que fizeram a plateia manifestar-se, sempre a favor de Nayara. No primeiro, a advogada afirmou ser engraçado Nayara afirmar que Lindemberg sempre amarrava os reféns com a arma em punho. “Engraçado, né? Para a senhora ver”, disse.
No momento seguinte, mais um bate-boca. “Você conhecia bem o apartamento de Eloá?”, perguntou a defensora. “Não sei o que a senhora entende por conhecer bem um apartamento”, completou Nayara. O último momento de tensão entre as duas ocorreu no fim do depoimento da jovem. A advogada Ana Lucia Assad perguntou se a testemunha gostaria de um lenço. “Não preciso de lenço nenhum. Não estou chorando.”
Ao fim do depoimento, Ana Lucia afirmou aos jornalistas que Nayara, por ser vítima, não tem compromisso com a verdade, e mentiu. “Ela está em condição de vítima, não precisa falar a verdade. Mentiu, aumentou, encenou e, em alguns momentos, fingiu que estava emocionada.” A jovem não falou com a imprensa ao deixar o local.
Nesse clima tenso, a primeira testemunha de acusação do crime disse que ouviu três disparos quando a polícia ainda tentava arrombar a chutes a porta do apartamento. “Demorou um tempo até a polícia conseguir entrar pelo fato de a mesa estar bloqueando a porta”, conta.
A bomba atirada pela polícia durante a invasão não foi suficiente para derrubar a porta, narrou Nayara. Segundo ela, a explosão muito forte aconteceu justamente quando Lindemberg acabara de arrastar a mesa junto à porta. “Entrou fumaça, coloquei a mão no rosto e me cobri com o edredom. Aí senti meu rosto estranho, ouvi uns barulhos (os disparos) e depois vi a Eloá desacordada e os policiais tentando desarmá-lo (Lindemberg)”, relatou a testemunha.
Nayara ainda contou como, depois de ser liberada por Lindemberg no dia 14, foi chamada por policiais após passar uma noite em casa. “Na quinta-feira, tinha um policial dizendo que era para eu voltar e ajudar nas negociações”, lembra a jovem.
Ao chegar no prédio de Eloá, ela afirmou que a mãe dela foi barrada na porta pelos policiais. Em contato telefônico com Lindemberg, foi orientada a ir até a porta do apartamento. “Ele abriu a porta apontando a arma para a cabeça da Eloá e depois disse: ‘Agora entra’. Quando entrou, ela encontrou a jovem já muito machucada.”
Outras testemunhas
Ontem foram ouvidos também os dois amigos de Eloá mantidos como reféns - Victor Lopes e Iago Vilela de Oliveira, ambos de 18 anos. Os dois confirmaram que Lindemberg tinha intenção de matar. Iago prestou depoimento na frente do acusado e afirmou que ele se “gabava do poder” que adquiriu ao invadir o apartamento, no ABC paulista.
A última testemunha ouvida ontem foi o sargento Atos Valeriano. Ele contou que Lindemberg tentou matá-lo no primeiro dia do sequestro, quando estava à frente das negociações. Valeriano classificou o réu como “um desequilibrado”.
O julgamento será retomado hoje, a partir das 9h, Ainda não há definição sobre a data do depoimento da mãe da vítima e do irmão mais novo, que foram arrolados pela defesa ontem. Mas há expectativa de que o júri seja concluído na quarta-feira.