São Paulo - Frio, egoísta e vaidoso. Assim a juíza Milena Dias classificou o motoboy Lindemberg Alves Fernandes, 25 anos, momentos antes de anunciar a pena: 98 anos e dez meses de prisão.
Assassino confesso da ex-namorada Eloá Pimentel, 15 anos, Lindemberg foi considerado culpado por todos os crimes dos quais foi acusado: homicídio (de Eloá), tentativa de homicídio (da amiga Nayara), cárcere privado e disparo de arma de arma de fogo.
O resultado foi divulgado ontem pela juíza Milena Dias, após quatro dias de um julgamento marcado por críticas à polícia e à imprensa e por um intenso bate-boca entre acusação e defesa (veja quadro).
A advogada de defesa Ana Lúcia Assad disse que vai pedir a anulação do julgamento. Ela também poderá ter problemas com a Justiça porque, num dos dias do júri, mandou a juíza voltar a estudar.
A magistrada pedirá ao Ministério Público que a denuncie por injúria e difamação.
Debate
O último dia de júri foi marcado pelo debate entre defesa e acusação sobre as provas e testemunhos apresentados ao longo do julgamento.
A promotora Daniela Hashimoto tentou demonstrar que Lindemberg premeditou o crime: comprou arma, manteve Eloá e seus amigos em cárcere privado e atirou para matar na ex-namorada, em Nayara Rodrigues da Silva e em um policial com quem fazia a negociação.
Tudo isso porque a considerava um “objeto” e não aceitava o final do namoro, afirmou a promotora.
Já a defesa tentou sustentar a tese de que a morte de Eloá, embora cometida por ele, foi acidental. Ele teria atirado porque assustou-se com a invasão da polícia. Com isso, o crime passaria de doloso (com intenção de matar) para culposo (sem intenção), o que reduziria a pena final.
Ela também enfatizou, como prometia desde antes do início do julgamento, que parte da imprensa e dos policiais que participaram da ação eram corresponsáveis pelo desfecho trágico do crime. “Juridicamente, eu não posso colocá-los sentados ao lado dele. Mas moralmente posso”, disse aos jurados.
Esse foi o ponto alto da argumentação da defensora, que usou o debate para se defender de críticas que disse ter recebido da acusação e da mídia. Segundo Assad, ela teria sido retratada como “burra”, “despreparada” e “louca”.
Dedo no gatilho
Já a promotora usou recursos dramáticos, com gesticular em direção aos jurados e ao público com a arma do crime, descarregada, em mãos. No momento em que ela descrevia o instante do crime, puxou o gatilho, simulando os tiros dados pelo réu no dia da invasão ao cativeiro. A cena provocou reação na plateia, incluindo Ana Cristina Pimentel, mãe de Eloá, que chorou.
Lindemberg ficou sem algemas durante todo o julgamento e foi acompanhado por dois PMs armados. Condenado, ele seria levado ainda ontem à noite para o presídio de Tremembé (a 147 km de São Paulo), onde está preso há três anos e três meses.
Mãe de Eloá diz que nada vai superar sua dor
São Paulo - Durante a leitura da sentença, no final da tarde de ontem, a família de Eloá Cristina Pimentel, ficou junta na última fileira do plenário do Tribunal do Júri. De pé, como todos na sala, Ana Cristina Pimentel, a mãe de Eloá, usava um vestido branco, ao contrário dos dias anteriores em que vestia roupa preta. No início do dia, ela disse que vestia branco porque tinha esperança de que a Justiça fosse feita.
Ela chorou ao ouvir que Lindemberg Alves foi condenado a 98 anos e dez meses de prisão pelo assassinato de Eloá e outros 11 crimes.
Ao final do julgamento, Ana Cristina abraçou seu filho mais velho, Ronickison Pimentel, que também chorava. Questionada sobre o que sentia ao ouvir a condenação, ela afirmou: “Nada vai superar a minha dor, mas a Justiça foi feita”.
Ao sair do fórum de Santo André, acompanhada da advogada e dos filhos, Ana Cristina foi aplaudida por centenas de pessoas que aguardavam na frente do local.
Lindemberg ouviu a sentença de cabeça baixa, levemente curvado, com as mãos retas e cruzadas na frente do corpo. De costas para a plateia, em alguns momentos, levou as mãos ao rosto.
Os assistentes de acusação que estavam de frente para ele, no entanto, afirmaram que ele não chegou a chorar. Condenado, Lindemberg foi retirado da sala, algemado, ainda de cabeça baixa.