Família de tradição na Zona Leste
Quando o assunto é Carnaval, pode ter certeza que a família de Priscila Roberta Silva de Lima, 29 anos, está no meio. Afinal, com tantos afazeres para garantir que a Tradição da Zona Leste faça bonito no sambódromo, quanto mais gente para ajudar, melhor.
Por isso, neste ano, Priscila Roberta ficou responsável por cuidar da coreografia da comissão de frente; Fernando, mais conhecido como Cocão, seu marido, é o mestre de bateria; o filho João Vitor, 8 anos, assumiu a posição de ritmista, junto com os tios Roberson e Wellington e o primo Leonardo. Aparecida e Kátia, mãe e irmã, respectivamente, de Priscila Roberta, estão no comando das fantasias. Até para o irmão, Roger Lima, que mora em Nova York, sobrou. Ele vai participar do desfile junto de toda a família. Já o sogro e a sogra de Priscila Roberta, que antes não curtiam o Carnaval, atuam como “supervisores”.
“Eles levam seus banquinhos e acompanham todo o ensaio. Sem contar que sempre estão no meio da produção de fantasias”, conta Priscila Roberta.
O resultado de tanta união é fruto da junção da paixão de Priscila Roberta e Cocão pelo Carnaval.
“Eu desfilava desde criança e meu marido também. Nos conhecemos quando eu trabalhava como dançarina e ele tocava em um grupo de samba. Começamos a namorar e ele me convidou para participar da Tradição. Nossa família cresceu e se somou a grande família que é a escola”, conta Priscila Roberta, que atualmente trabalha como cabeleireira.
E se engana quem pensa que a família só se une em prol do Carnaval da Tradição quando a folia se aproxima: eles trabalham o ano todo para arrecadar verba.
“Fazemos pasteladas, feijoada, damos aulas de música e o que mais for necessário para garantir que a Tradição saia linda na avenida”, afirma, apaixonada, Priscila Roberta, que, em função do Carnaval, está conciliando a vida profissional, com a função de mãe, os afazeres domésticos e as necessidades da Tradição.
“É uma correria, mas a gente dá conta. O leão é nosso símbolo, e temos a mesma garra dele”, frisa.
O resultado da soma de tanta paixão, união e dedicação é visível na farra e no sorriso de toda a família, que esbanjou alegria e disposição no momento das fotos. Nem foi necessário pedir o tradicional sorriso.
Família desde a mocidade, mas independente
O que vivemos na infância fica guardado em nossa memória e é determinante para o ser humano que nos tornamos no futuro. A tese defendida por psicólogos e pedagogos é a explicação para a paixão que os irmãos Paulo César Faneco, 48 anos, e Inês Faneco, 52 anos, sentem pela Mocidade Independente da Vila Falcão. Eles tiveram o primeiro contato com a Escola quando ainda eram criança.
“O barracão de alegorias da Mocidade era bem aqui na esquina. Minha mãe costumava levar a gente para assistir aos ensaios e acompanhar a confecção das fantasias. Achava tudo aquilo incrível”, relembra Paulo César, olhando através do vidro de seu salão de cabeleireiro enquanto cola penas em uma base de papelão.
Ele desfilou pela primeira vez pela escola aos 2
anos, mesma época em que passou a dedicar os meses que antecedem a Folia do Momo à confecção de fantasias com o objetivo de colocar a Mocidade bela e atraente na avenida.
O encantamento da infância contaminou também a irmã de Paulo, Inês, que dá o acompanha no desafio de produzir as fantasias para a escola.
Atualmente, embora a paixão pela Mocidade os impulsione a seguir lutando, os irmãos também confeccionam fantasias para outras escolas.
“A Mocidade ficou um tempo sem desfilar e tivemos muitos problemas administrativos. Foi-se embora aquele glamour e aquela união que havia na escola na época de minha infância. Por isso, decidi prestar serviços às outras agremiações”, justifica Paulo.
Contudo, pela forma como fala da escola e pelos sacrifícios que faz em nome da Mocidade, não há como negar que o coração de Paulo tem dono. Além de não abandonar a Mocidade nos anos em que a escola atravessou uma decadência e ficou sem desfilar, Paulo faz questão de confeccionar as fantasias da escola, mesmo com o trabalho de cabeleireiro e a mãe acamada, sob seus cuidados.
“Ele vai sair em três escolas, mas a fantasia da Mocidade ficou pronta antes de todas”, entrega Inês.
Família de ouro da Águia
Um saco de pães, presunto, queijo, Coca-Cola e muitas gargalhadas. Esse é o combustível necessário para que as mulheres ligadas à família Simões aguentem passar cerca de 15 horas por dia confeccionando fantasias e acompanhando os ensaios que garantirão o bom desempenho da Escola de Samba Águia de Ouro na avenida.
O expediente no barracão, localizado no Geisel, começa logo cedo, por volta das 9h e só termina cerca de 2h da madrugada do outro dia. A dedicação, necessária para dar conta de tanto serviço, já é tradição entre os membros da família Simões e agregados.
“Tudo começou quando meu tio, Darci Simões, e o Chiquinho Saes decidiram fundar uma escola. O primeiro ano do desfile foi em 1986. Eu era pequeno e já participava de todos os preparativos. Com o tempo, o envolvimento da família só aumentou”, conta Edivaldo Simões, que trouxe para o grupo a mulher e a sogra.
No total, mais de 2
pessoas da família participam dos preparativos e fazem questão de desfilar pela escola.
“É um envolvimento muito grande. Quando acaba um Carnaval, já estamos pensando no próximo”, conta ele.
“Quem nunca se envolveu com o Carnaval não sabe o que estamos perdendo. É claro que dá trabalho. Tem horas em que queremos que tudo acabe logo, mas, quando acaba, já sinto uma saudade enorme”, completa Maria Aparecida Alves, 62 anos, sogra de Edivaldo.
Família com o DNA da Coroa Imperial
Quem mora nas proximidades da avenida das Laranjeiras, no Núcleo Presidente Geisel, ou passa com frequência pelo local em época de Carnaval, provavelmente já viu uma grande movimentação de pessoas manipulando roupas brilhantes e instrumentos musicais em diversas casas da via. São os integrantes da família Arantes que, juntos, somam mais de 3
pessoas que se sentem corresponsáveis por colocar a Coroa Imperial com toda pompa e circunstância na avenida.
A escola começou dentro da própria família, quando um grupo de pessoas propôs a criação de uma agremiação para representar o bairro e a matriarca, dona Ana, batizou a escola com o nome de Coroa Imperial, por conta de uma linda flor, que desabrocha somente uma vez por ano.
“Estavam discutindo o nome da escola e minha mãe deu o decreto final. Ela era sambista e tinha 8
anos. Disse que se a escola estava nascendo na casa de uma coroa, tinha de se chamar Coroa Imperial. Depois, justificou fazendo a relação com a flor”, lembra, emocionada, Odália Arantes.
A determinação da matriarca naquele dia, há 21 anos, foi essencial para a união da família em torno da escola. União que chama a atenção e permanece até hoje, cada ano maior.
Eles começam a preparação no fim de novembro, e para dar conta de tanto trabalho, dedicam-se à confecção de fantasias e reparo de instrumentos das 8h às 22h, quando começa o ensaio.
“Juntas somos umas 3
pessoas. Aqui tem filhos, netos, bisnetos, noras, genros, agregados, sobrinhos... E até mesmo que mora perto já se tornou parte da família”, explica Olívia Arantes, filha de dona Ana.
União familiar pela Azulão
Foi o batuque dos ensaios da escola Azulão do Morro que chamou a atenção de Geisiane Carvalho Maciel, 32 anos, e conquistou a paixão de toda uma família, capaz de dedicar-se dia e noite para que a escola saia impecável no sambódromo.
“Estava em casa quando escutei o som dos ensaios. Isso foi o ano passado e eu estava com depressão. Fiquei animada e pedi que meu marido me trouxesse até aqui, na Azulão. Depois, não saí mais e ainda trouxe toda a família”, conta Geisiane.
Apaixonada por Carnaval, ela revelou-se uma grande colaboradora para a escola, driblou a depressão e ainda conseguiu convencer o marido marrento a mergulhar de corpo e alma na folia.
“No começo, o Rinaldo me trazia todo emburrado. Depois, conheceu a comunidade e começou a participar. Quando acabou o Carnaval do ano passado, ele me avisou que não viria esse ano. Não cumpriu a promessa”, conta, rindo.
“Eu sempre digo isso, mas acabo vindo. É muito bom pode participar e ajudar a Azulão”, explica-se Rinaldo de Melo Ferreira.
Quem aproveita a decisão dos pais são os pequenos Rinaldo de Melo Ferreira Junior, 4 anos, Nicolle de Melo Ferreira, 6 anos, e Lucas Vinícius Sabino, 12 anos, que fazem festa durante toda a preparação.
“Eu adoro vir aqui. Na escola, todos os meus colegas ficam curiosos, perguntando como é. É legal fazer parte dessa festa e poder explicar para quem não participa como funciona”, orgulha-se Lucas Vinícius, enquanto o irmão Junior toca, sem parar, um tamborim.