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Kairon Kenes, que conduzia a moto em cruzamento: fatal |
Em menos de uma semana, Bauru registrou quatro mortes envolvendo acidentes com motocicletas. Na madrugada de ontem, um jovem de 19 anos não sobreviveu aos ferimentos de uma colisão com um veículo no cruzamento entre as ruas Wenceslau Braz e Benedito Eleutério, na Vila Pacífico. Poucas horas depois, um pedestre também acabou morrendo após ser atropelado por um motociclista na rodovia Horácio Frederico Pyles (SPA 228-225), no trevo de acesso ao Núcleo Habitacional Octávio Rasi.
A primeira vítima, Kairon Luiz Kenes, 19 anos, estaria voltando para a casa, localizada na Vila Pacífico, por volta das 22h de ontem, após mais um dia de trabalho na academia de ginástica da família.
Na noite do acidente, Kairon dirigia sua moto, uma Honda Twister de cor prata, no sentido único da rua Wenceslau Braz, quando colidiu na altura da quadra 12 com o Ford Ecosport de cor vermelha, conduzido por Antônio José da Silva, 68 anos.
Silva trafegava pela rua Benedito Eleutério, que cruza a rua em que o motociclista seguia, com objetivo de chegar à casa de uma filha, na Vila Souto.
No local, havia uma placa indicando parada obrigatória ao motorista do Ecosport. Silva alega ter freado e olhado para o lado, mas acabou não vendo o motociclista.
Com o choque, Kairon ficou em estado grave e foi socorrido pela Unidade do Resgate do Corpo de Bombeiros e encaminhado ao Pronto-Socorro Central (PSC). Com politraumatismo, o rapaz acabou sendo transferido ao centro cirúrgico do Hospital de Base (HB), mas não resistiu e morreu por volta da 1h45 de ontem.
Acidente anterior
Segundo a mãe de Kairon, Eliana da Silva Kenes, 43 anos, a paixão do garoto era praticar esportes e andar de motocicleta.
“Ele malhava e ajudava o pai na academia o dia todo. No ano passado, ele sofreu um acidente e teve uma fratura exposta no fêmur. Nós não éramos a favor de ele usar a moto, mas ele gostava e não dava para impedi-lo”, lembrou a mãe, ressaltando que, nos dois acidentes, Kairon teve a preferencial invadida por outros veículos.
Durante todo o dia de ontem, parentes e amigos de Kairon prestaram condolências na página pessoal do jovem no Facebook.
Mais do mesmo
No dia 18 de fevereiro, uma motociclista de 25 anos também morreu após colisão com um carro. O acidente aconteceu na madrugada na rodovia Cezário José de Castilho, na altura da Vila São Paulo. Segundo consta em boletim de ocorrência, a motociclista Tatiana Marcelina de Souza Tavares, não teria usado o acostamento para efetuar o cruzamento com uma rua de terra e acabou colhida pelo carro.
Na tarde deste mesmo dia, o impacto entre um Corsa e uma motocicleta no cruzamento entre as ruas Quinze de Novembro e Treze de Maio também matou o motociclista Aparecido Massanaro, 44 anos. Na ocasião, a Polícia Militar informou que o motorista do Corsa, um rapaz de 2
anos, não possuía habilitação para dirigir.
Segundo a versão apresentada pelo jovem à PM, ele atravessava o cruzamento quando foi surpreendido, em semáforo amarelo, pelo motociclista, que trafegava pela rua Quinze de Novembro.
Segunda morte envolve vigilante
Ainda na manhã de ontem, a Polícia Militar Rodoviária de Bauru registrou uma outra ocorrência, por volta das 7h, envolvendo uma motocicleta. Desta vez, um pedestre foi vítima fatal.
Morador do Núcleo Octávio Rasi, o vigilante e auxiliar de serviços gerais Márcio de Souza Brito, 38 anos, estava a caminho do trabalho quando, na faixa de rolamento da rodovia Horácio Frederico Pyles, no quilômetro um mais 6
metros da via, foi colhido por um motociclista.
Na ocasião, o condutor da Honda CG de cor azul, Júlio César Grazieri de Almeida, 22 anos, trafegava no sentido Bauru-Pederneiras. Aos policiais, ele alegou que o pedestre teria cruzado sua frente, não tendo tempo suficiente para desviar e evitar a tragédia. A Polícia Científica foi acionada para periciar o local. O caso foi registrado no plantão da Polícia Civil como homicídio culposo (sem a intenção de matar) na direção de veículo automotor.
Brito foi socorrido e encaminhado ao PSC, mas não resistiu aos ferimentos. O condutor da moto, também ficou gravemente ferido e foi transferido para a Unidade Terapia Intensiva (UTI) do Hospital de Base, onde permanecia internado até o fechamento desta edição.
Curva fechada
A aproximadamente 1
metros de distância do local do acidente, existe uma passarela. Os parentes da vítima reconheceram que Márcio deveria ter atravessado a pista em local adequado e consideraram o acidente uma fatalidade.
Ele seguia em direção ao trabalho que havia conseguido há cerca de seis meses, onde trabalhava como pedreiro e carpinteiro. Segundo a filha Bruna, de 16 anos, ele caminhava a pé até do Núcleo Rasi até o outro lado da rodovia, onde pegava carona com o chefe para chegar ao serviço.
“Ele estava atravessando em um trecho em que há uma curva fechada e não deve ter visto a moto se aproximando. E, na rodovia, os veículos correm mais”, comenta.
Márcio nasceu em Bauru, mas passou alguns anos morando no Rio Grande do Sul e voltou à cidade, há cerca de três anos, para trabalhar como vigilante. Era divorciado e morava com tia no Rasi. Além de Bruna, deixa outras duas filhas, de 8 e 14 anos. Seu corpo será velado na Funerária São Vicente, em frente à Praça Dom Pedro II, de onde seguirá, às 1
h, para o Cemitério do Redentor.
Formação deficitária aumenta o perigo nas ruas
Especialistas consultados pelo JC afirmam que o elevado número de acidentes envolvendo motocicletas é reflexo - além do aumento da frota, que já chega a 4
mil unidades - da falta de preparo dos condutores que obtêm permissão para dirigir sobre duas rodas.
Mesmo quando não são os responsáveis pela imprudência que resulta em ocorrências, muitos não tem a habilidade necessária para evitar que tragédias aconteçam.
É o que conta o instrutor Alex da Silva Neves, 39 anos, 15 deles de profissão. Ele avalia que o motociclista atual não compra moto por gostar ou ter intimidade com o veículo, mas porque se trata de um bem que pode ser facilmente adquirido em infinitas prestações de baixo valor.
“Não são poucos os alunos que nem mesmo sabem andar de bicicleta. Houve casos de gente que quebrou o pé no Centro de Treinamento (CT) depois de bater, sozinha, a moto contra o muro.”
Novata
A manicure Francielli dos Santos Domingos, 23 anos, que teve sua carteira emitida no início deste mês.
“Fiz 26 aulas e passei na prova, mas não aprendi a dirigir. Não sei como agir em situações imprevistas porque não há aulas práticas na ruas, apenas no CT. Desde que peguei a carta, só usei a moto do meu marido uma vez, por extrema necessidade”, conta.
Neves concorda que os motociclistas se formam com menor experiência ao não vivenciar a realidade das ruas. Mas destaca que deixá-los guiar moto sozinhos em meio ao tráfego seria demasiadamente arriscado.
Mas, mais do que a imperícia, ele aponta a falta de educação, de paciência e atenção como principais causadores de acidentes. São aspectos que, não raro, estão atrelados ao excesso de velocidade, outra marca presente nas ocorrências com vítimas graves e fatais no trânsito, conforme destaca o tenente Michel Collis Prieto, do Pelotão de Trânsito da Polícia Militar de Bauru.
“O perfil de motociclistas é formado, em sua maioria, por jovens entre 18 e 25 anos, que, além de inexperientes, são mais imprudentes no trânsito. O problema é que a moto é muito mais frágil e deixa o condutor muito mais exposto a lesões, como todos nós sabemos. Qualquer abuso, mesmo que estejam em uma rua preferencial, pode ser a diferença entre a vida e a morte”, pondera.
