“Somos. Estamos. Acostumam-se”. Esse foi o grito de ordem dos cerca de 100 manifestantes que promoveram o ‘beijaço gay’ na tarde de ontem, em Bauru, pedindo o fim da homofobia. A Associação Bauru pela Diversidade (ABD) organizou o protesto, motivado por um suposto ato de violência em um supermercado da cidade.
C. H. M., 28 anos, disse ter sido agredido em um estabelecimento por um cliente aparentemente com 50 anos. Em entrevista ao JC, ele afirma que foi atacado por ser homossexual “Depois, ele me ofendeu por causa da minha opção sexual e, na sequência, deu um tapa que acabou cortando o meu lábio”, lembra.
Os manifestantes se reuniram na praça Rui Barbosa e, com muitos apitos, faixas e gritos, seguiram pelo Calçadão da Batista, paralisando o comércio e conquistando a simpatia dos trabalhadores do local. A marcha foi encerrada em frente ao estabelecimento, na rua 13 de maio.
No local, gays, lésbicas, travestis, transexuais e simpatizantes praticaram demonstrações de afeto, com abraços e beijos do tipo ‘selinho’. Além disso, foram soltos balões brancos que simbolizavam o pedido de paz e respeito a todos, sem preconceito e discriminação.
O presidente da ABD, Markinhos Souza, tomou todos os cuidados para que a mobilização não tivesse seu foco desviado. Com um megafone em mãos, lembrou, ainda na concentração, que os protestantes não deveriam exagerar nas demonstrações de afeto. “Ninguém veio aqui para fazer pegação ou arrumar namorado”, bradou.
Segundo o militante, o ‘beijaço’ superou as expectativas. “É evento cívico que quer mostrar para a sociedade que os casos de homofobia têm aumentado consideravelmente e nós não podemos admitir isso. Esse dia está marcado na história de Bauru”.
O presidente da ABD foi um dos manifestantes que fez jus ao título ‘beijaço’, com selinhos em seu companheiro, Rodrigo Brustelin. João Winck e Rick Ferreira fizeram o mesmo, bem como a drag queen Naomi Sayox e a transexual Mary Jay.
No entanto, simpatizantes dos direitos LGBT também participaram do evento. É o caso dos amigos Thales Mandelli Maskalenka e Ana Luíza Carneiro, que também trocaram selinhos. “Eu soube do beijaço pela internet e chamei minha amiga. Precisamos pedir respeito à dignidade e à vida. Além disso, todo tipo de protesto pacífico é bem vindo, pois vai contra a natureza do brasileiro”, disse o rapaz.
Diante de Deus
Os militantes da ABD e demais participantes do ‘beijaço’ hastearam bandeiras do arco-íris, símbolo da luta pelos direitos LGBT, em plena praça Rui Barbosa, onde está localizada também a catedral do Divino Espírito Santo.
A proteção de Deus, aliás, não faltou à mobilização, que contou com o tempo sem chuva, apesar de algumas gotas instantes antes. Além disso, o protesto recebeu o apoio do pastor evangélico Francisco Carlos Pereira da Silveira. “Estou aqui não só como pastor, mas como cidadão. Cada um tem sua opção de vida e ela deve ser respeitada, desde que haja sempre amor. O julgamento não cabe a nós”, enfatizou.
Quem também demonstrou apoio à causa foi o rei Momo do Carnaval de Bauru em 2012, Pedro Carlos Pereira da Silveira.
Ela foi: Evelyn
Outro caso de violência possivelmente motivado por homofobia foi a barbárie sofrida pela travesti Evelyn Uber, 19 anos. Ela foi espancada e esfaqueada na madrugada do último dia 9. Um homem foi preso acusado do crime. Somente depois de 30 horas, foi localizada jogada em um matagal no Parque Viação B.
“Estou em recuperação, mas fiz questão de vir. Está muito pesada e cada vez mais frequente a violência contra nós. Depois de tudo o que passei, só me resta lutar”, afirmou, confessando, que não teria participado do protesto caso não tivesse sido vítima de violência. “Espero que mais ninguém passe por aquilo”.
Evelyn voltou a dizer que não pretende voltar a fazer programas nas ruas e revelou que tem o sonho de completar um curso superior. “Uma travesti terminado a faculdade seria um marco”, comentou.