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Criminosos ?das antigas? abrem o jogo

Luiz Beltramin
| Tempo de leitura: 4 min

Um mês. Essa era o período, considerado mínimo, para que um assalto fosse orquestrado e colocado em prática.  Para o hoje comerciante automotivo e voluntário na recuperação de dependentes químicos, José Eduardo Contreira, 55 anos, essa espera era constante.


Dono de uma ficha criminal de aproximadamente cinco metros de extensão, Contreira, que não tem receio algum em expor nome, sobrenome e, principalmente, o passado, garante que hoje em dia estar quite com a Justiça.


Artigos criminais são diversos na extensa “capivara” (nome popular da folha de antecedentes nos meios policiais e na própria bandidagem). “Isso aqui não é tudo o que fiz. São apenas registros de quando fui pego”, acentua.


Por mais de três décadas, a vida de José Eduardo se dividia entre armas pesadas, cadeia, drogas ainda mais pesadas, e crimes, muitos crimes. Apesar de consumir e vender entorpecentes, ele revela que a postura adotada era sempre a de planejar e executar sem puxar o gatilho.


“Dar tiro é fria. Só suja a situação, chama os homens”, relaciona. “É muito diferente do assaltante viciado, ele perde a noção de tudo.”


A única informação que José Eduardo restringe é quanto tempo permaneceu atrás das grades, com direito a detenção no “célebre” pavilhão 9 do extinto Carandiru, em São Paulo. “Acho que fiquei menos do que merecia”, confessa.


Para ele, uma vítima deve temer muito mais um bandido que age impulsivamente do que um assaltante de banco, por exemplo. A observação a rotina de vítimas era obrigatória nas ações em que participava.


Numa delas, recorda, o plano envolveu três cidades (Bauru, São Paulo e Blumenau), quatro comparsas e trinta dias. O ano era 1982, o alvo: grande empresa do setor alimentício de Bauru. Após um mês de observação sobre o tesoureiro da companhia, a quadrilha resolveu colocar o plano em prática.




Guerras e sequestro


A bordo de um antigo automóvel Dodge, os quatro, incluindo José Eduardo, saem da capital armados até os dentes, com duas escopetas cano duplo calibre 20 e duas metralhadoras 9 milímetros: “As mesmas usadas na Guerra das Malvinas, vieram do Paraguai e Bolívia”, detalha.


Na saída da capital, porém, um dos integrantes do bando desiste. “Eu o obriguei, disse: ‘você não vai sair dessa fita’, pensei até em matá-lo. De comparsa ele passou à condição de vítima. Decidi sequestrá-lo”, narra.


O grupo precisava chegar a Bauru no exato momento do pagamento. Por isso, lembra José Eduardo, os criminosos “enrolavam” pelo caminho. “Numa dessas paradas, ele [o sequestrado], por descuido nosso, deixou recado no banheiro, dizendo que foi sequestrado e contando sobre o assalto em Bauru. Um caminhoneiro leu a mensagem e avisou a polícia”.


Após o bando entrar em Bauru pela Nações Unidas, subir até a Duque de Caxias pela rua Antônio dos Reis, para, em seguida, concretizar o plano, o quarteto cai no colo “dos homens”.


A Polícia Militar atendia ocorrência de trânsito na Duque de Caxias. Informada pelo motorista que havia parado no mesmo posto da rodovia Castello Branco, a PM abordou o motorista do Dodge. “Ainda bem que as armas estavam muito bem escondidas, nas molas do carro. Senão teria havido tiroteio”, conforma-se.




Limpo desde 2003


Após diversas prisões, quatro overdoses de cocaína na veia, assaltos e dinheiro torrado com drogas, viagens e prostitutas, ele diz ter encontrado a redenção há nove anos.


Limpo desde 2003, José Eduardo hoje trabalha na instituição terapêutica “Esquadrão da Vida”, onde faz palestras para dependentes em recuperação.  “Não falo de religião. Falo de Deus.”




Necessidade versus fissura


Levado ao crime, segundo ele, pelas “necessidades da vida”, o sentenciado “Ricardo” (identidade fictícia), de 35 anos, cumpre pena num dos presídios de regime semiaberto de Bauru.


Condenado por roubo em Campinas, ele também difere o ladrão “profissional” dos assaltantes impulsivos desesperados em satisfazer o vício. “Muitos roubam por necessidade, outros por abstinência mesmo, certo?”, diferencia, em entrevista ao Jornal da Cidade por telefone.


Ricardo conta que foi preso após invadir uma casa. “Foi arquitetado, nada por impulso”, detalha. “Quem usa droga perde totalmente a noção, não sabe o que fazer e às vezes fica cego. Eu não, tive que partir para o crime porque estava endividado”, compara.


Essa “cegueira” por parte do criminoso a procura ou sob efeito de entorpecentes é atestada cientificamente, salienta a psiquiatra Florence Keer Correia, da Unesp/Botucatu. Por isso, defende a especialista, mais do que tratamento para os dependentes, é necessário discutir as formas de regeneração. “A internação tem de ser mais prolongada”, defende. “O usuário de crack sempre age impulsivamente, não mede consequências”, adverte.


 

  • Serviço


  • Grupo de Apoio Vida (Esquadrão da Vida): (14) 3239-6646/(14) 9712-4157. Encontros realizados nas quintas-feiras, às 20h, na Alameda das Rosas, 1-71, Parque Vista Alegre, Bauru.

     

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