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Crédito ?farto? favorece mais dívidas

Tisa Moraes
| Tempo de leitura: 5 min

O maior endividamento das classes A e B não é reflexo apenas da ascensão de um maior número de pessoas em direção a estes grupos, mas também das consequências que esta mobilidade gerou. Um exemplo é a inflação verificada no setor de serviços, que enfrenta pouca concorrência de mercado, com demanda crescente oriunda destes novos endinheirados.

 

“Quem tem padrão de vida um pouco maior, acaba agregando uma gama de serviços também maior no seu perfil de consumo, como comer mais vezes fora de casa, matricular os filhos em escola privada, ampliar o pacote da TV a cabo, entre outros”, detalha o economista Reinaldo Cafeo. 

 

O especialista também destaca a influência do meio social para o endividamento deste perfil de consumidor que, segundo ele, é mais vulnerável que os demais para “baixar a guarda” quando o assunto é controle de gastos. “Muitos tiveram aumento de renda e querem acompanhar o modo de vida do grupo a que passaram a pertencer. Então, começam a fazer viagens nos fim de semana, compram tênis de grife para os filhos, um carro mais luxuoso. Tudo isso custa caro e o orçamento pode ficar comprometido”, pondera.

 

A falta de noção de finanças também está entre os principais motivos para explicar o forte consumismo dos brasileiros, e a classe alta não é exceção. “E quando ela estabelece um patamar elevado de consumo, cria custos fixos que são difíceis de rebaixar quando o dinheiro falta”, completa Cafeo.

 

No mês passado, o Credit Suisse divulgou um relatório em que compara consumidores brasileiros e de países emergentes. O estudo verificou que, no Brasil, “o momento de crescimento da renda dá suporte a um nível de gasto sem limites”, em contraposição à China, por exemplo, descrita como “uma cultura poupadora”.

 

Além do otimismo diante do bom momento econômico, o histórico de inflação em décadas passadas também pesa a favor do consumismo. Mesmo que inconsciente, o pensamento de grande parte das pessoas é de “gastar o dinheiro hoje porque amanhã ele pode não valer nada”. 

 

 

 

36 mil devedores

 

Bauru entrou em 2

12 com 36.7

3 moradores cujos nomes estão incluídos no Serviço de Proteção ao Crédito (SPC) – pouco mais de 1

% da população total. Juntos, eles são responsáveis por pendências maiores ou menores que totalizam R$ 24 milhões no comércio.

O órgão não possui informações destacadas por faixa de renda, mas as mulheres são as que mais se endividam. Segundo estudo do próprio SPC,  57% da inadimplência na cidade resultam de dívidas contraídas e não pagas por consumidores do sexo feminino. De todas as faixas etárias consideradas, a maioria possui entre 3

e 4

anos.

 

 

 

Consumo é necessário para manter o ritmo da “roda do capitalismo”

 

Dentro da lógica do capitalismo, o consumo é extremamente necessário para acelerar a produção de bens e serviços e, assim, manter toda a crescente população mundial empregada. Com os níveis de contratação de mão de obra estáveis, aumenta a renda disponível na economia, que é revertida para o próprio consumo. O excesso deste processo, entretanto, leva a um consequente aumento da extração de matérias  primas e uso de energia, muitas vezes, oriundas de fontes naturais não-renováveis. 

 

Segundo o antropólogo e professor da Universidade Estadual Paulista (Unesp), Cláudio Bertolli Filho, o consumismo tem origem no século 19, com a Revolução Industrial, que propiciou o aumento vertiginoso da produtividade. Como consequência, houve um barateamento dos produtos e dos processos produtivos, o que ofereceu a milhares de pessoas a chance de acesso a bens antes restritos às classes mais ricas.

 

“E, com o incentivo da propaganda, foram criadas motivações para que essas pessoas comprassem até mesmo aquilo que não necessitavam ter. Desde aquela época, elas adotaram e absorveram o lema de que somos aquilo que temos”, aponta.

 

O professor destaca que esta noção de consumismo foi intensificada ao longo do tempo e, hoje, funciona como elemento instigante para os indivíduos que possuem certa propensão a desenvolver compulsões. “E quem fica doente por conta do consumismo é incentivado a consumir serviços médicos e remédios. Todas as esferas da nossa vida foram submetidas ao mercado. É um ciclo que nunca se encerra”, observa.

 

 

 

Consumo excessivo pode ser doença

 

Na maioria das vezes, quem apresenta a oniomania não necessita do objeto cobiçado e é guiado simplesmente pelo impulso da compra. Não é o produto que lhe dá prazer, mas sim o ato de adquiri-lo, como forma de aliviar um sofrimento que, muitas vezes, não é percebido pelo compulsivo. 

 

Desta forma, o oniomaníaco deixa de ser um consumidor comum e torna-se um dependente, conforme explica a psicoterapeuta cognitiva Mauricéia Quinhoneiro. “Nem sempre a pessoa tem consciência do que está se passando e compra compulsivamente para aliviar algo que a está incomodando internamente”, pontua.

 

O processo no organismo se assemelha ao de um dependente de álcool ou drogas. Como o sistema límbico é atingido, as pessoas com a síndrome são tomadas por uma sensação viciante de prazer no momento de cada compra. 

 

Exatamente por isso, são poucos os pacientes capazes de identificar o problema sozinhos. Segundo a psicóloga Marília dos Santos Alvarenga, a maioria é diagnosticada com oniomania depois de procurar ajuda para outro problema que tenha afetado sua vida. 

 

“A questão é que comprar é extremamente prazeroso, algo que ninguém quer deixar de fazer. De maneira geral, só procura ajuda diretamente para tratar a compulsão quem já está bastante endividado”, relata.

 

Assim como as demais dependências, a oniomania é caracterizada por cinco fases. Na primeira e na segunda, a pessoa aumenta gradativamente a frequência das compras. Na terceira, já está dependente e as dívidas começam a surgir, quando pedir dinheiro à família se torna um sintoma frequente. Na quarta fase, ocorre a total ausência do senso crítico e, na última, o doente atinge a falência moral, econômica e psicológica. 

 

De maneira geral, o indivíduo começa a manifestar certa predisposição à oniomania por volta dos 18 anos, mas o problema costuma ser mais incidente com a chegada dos 3

anos. Isso porque, no início da vida adulta, as pessoas possuem sonhos e projetos que, poucos anos depois, podem ser frustrados. Como esta etapa coincide com a independência financeira, frequentemente as amarguras são descontadas em forma de gastos excessivos. 

 

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