Bairros

O moderno e o antigo em uma mesma região

Wanessa Ferrari
| Tempo de leitura: 8 min

‘Daqui não saio, daqui ninguém me tira’

 

Quando Emerita Moreno de Freitas, 75 anos, mudou-se para sua atual casa, na rua José Fernandes, no Altos da Cidade, há 53 anos, o bairro era praticamente deserto. Seu único vizinho era o extinto Bauru Atlético Clube (BAC), tido pela família durante muitos anos como o quintal de casa.

 

Com o marido trabalhando como viajante e mãe de duas crianças pequenas, Emerita precisava contar com a ajuda de um segurança, que passava dia e noite vigiando a casa para que nada de ruim acontecesse à família.

 

“Tudo por aqui era muito deserto. Meu marido viajava muito e tinha medo de me deixar sozinha”, conta.

 

A casa, antes protegida por uma cerca feita de bambu e arame, era uma das poucas localizadas na região. Lá, Emerita teve outros dois filhos, que cresceram brincando nas ruas de terra e se refrescando nas piscinas do BAC. Criou raízes.

 

“Daqui eu não saiu e daqui ninguém me tira. Sou apaixonada pelos Altos da Cidade ainda mais na fase atual, onde temos tudo por perto e, mesmo assim, o sossego permanece”, explica.

 

Eremita diz que nem notou a transformação de região. Só sabe que, aos poucos, os vizinhos foram chegando, os prédios brotaram do chão rumo ao céu e as ruas ganharam asfalto e se tornaram grandes artérias, com fluxo intenso de carros.

 

“Para mim, está perfeito. Antes, o BAC era o quintal de casa. Agora, o supermercado que tomou o lugar do clube é minha despensa”

 

 

 

Bom papo entre árvores

 

Pedras cobrindo o chão, bancos de madeira, um campo de futebol e, ao fundo, uma plantação de eucaliptos. Essa era, há cerca de 5

anos, a descrição de um dos cartões postais do Altos da Cidade, a Praça das Cerejeiras.

 

“Naquela época, toda quinta-feira a Banda da Força Pública fazia apresentações na praça, que ficava cheia de famílias e casais de namorados. No resto da semana, o futebol predominava. Ah, tinha uns cisnes por aqui também”, recorda-se Carlos Francisco da Silva, 6

anos.

 

Carlinhos, como é conhecido, cresceu no Altos da Cidade e coleciona amizades feitas no bairro. Para mantê-las, frequenta diariamente a praça das Cerejeiras, onde aproveita a sombra para colocar o papo em dia e relembrar os velhos tempos.

 

“Hoje estou triste. Um amigo, o senhor Sé, um dos moradores mais antigos do bairro, faleceu ontem. Descobri somente agora, que cheguei aqui na praça e o pessoal comentou”, lamenta.

 

Carlinhos acompanhou as transformações do local de perto e garante que tudo foi muito natural, aos poucos. Algumas coisas, como os bancos de concreto instalados no local há cerca de 4

anos, por exemplo, ainda nem mudaram.

 

“Olha aqui nesse banco. A propaganda de uma marcenaria informa o telefone 231. Isso nem existe mais!”, constata, rindo.

 

Entre as coisas que mais sente falta, ele é taxativo: “Sinto falta de movimentação e segurança. Muitas pessoas usam essa praça de forma errada, para usar drogas...”, reclama.

 

 

 

Paço Municipal

 

O atual prédio da prefeitura Municipal de Bauru pode ser apontado como um dos principais fatores que ajudaram no desenvolvimento da região popularmente denominada Altos da Cidade.

 

Instalado em 1964 entre a rua Rio Branco e a avenida Aviador Gomes Ribeiro, ao lado da Praça das Cerejeiras, o Paço Municipal atraiu comerciantes e colocou, definitivamente, o Altos da Cidade na lista dos pontos de referência mais conhecidos de Bauru.

 

“A prefeitura se mudou para lá porque antigamente funcionava no Edifício Concórdia, na 1º de Agosto, que era alugado. A ideia era centralizar todas as secretarias em um único lugar. O atual prédio demorou quase dez anos para ficar pronto e ser inaugurado”, recorda o pesquisador Irineu de Azevedo Bastos.

 

Depois disso, mais um andar foi incorporado ao prédio que, além do térreo, tem mais três pisos, onde funcionam as Secretarias de Finanças, de Negócios Jurídicos, de Administração, de Desenvolvimento Econômico e de Administrações Regionais, além da zeladoria, setor de telefonia, Caixa Econômica e Banco do Brasil, gabinete do prefeito, chefia de gabinete, assessoria de comunicação,  secretaria executiva do gabinete e suporte de informática.

 

“Depois de tantos anos é possível constatar que o prédio está saturado e não cumpre mais com o objetivo para o qual foi construído, já que muitas secretarias não funcionam mais lá”, avalia Irineu.

 

 

 

Paz, carnaval e futebol

 

Era 21 de abril de 1964 quando Nildemar Godoy teve oficializado em sua carteira de trabalho o registro de funcionário do Bauru Atlético Clube (BAC). A data, ele orgulhosamente guarda de cabeça.

 

“Foi um dia muito importante para mim. Não tem como se esquecer”, afirma.

 

Nildemar é uma das pessoas que tem a própria história misturada com a do clube. Quando menino, morava na rua 15 de Novembro e costumava passar os dias nas ruas de terra que cercavam os arredores do Lusitana, como o clube era chamado até 1º de agosto de 1946, no Altos da Cidade.

 

Nos dias de jogo do Lusitana, Nildemar e os amigos, ainda moleques, faziam campana em frente ao clube e ali ficavam até que algum adulto os colocasse para dentro do clube.

 

“Éramos menores e não podíamos entrar para ver o jogo sem um responsável adulto. Então, pedíamos pra qualquer desconhecido. Sempre dava certo”, recorda, rindo.

 

Foi nessa época que viu jogos do Pelé e de Gino Bacci, ídolos do Lusitana. Também foi nessa época que se apegou ao clube.

 

“O carinho foi crescendo até que consegui me tornar funcionário e ter a oportunidade de fazer alguma coisa pelo BAC”, explica.

 

Em 1966 e 19674, Nildemar viveu o auge do clube, quando foi implantada a política de vendas de títulos e as atividades do BAC foram ampliadas para além do tradicional futebol.

 

“Era uma festa só. Famílias inteiras eram sócias. O Carnaval do BAC era muito bom”, relembra.

 

Anos depois, em 1996, parte do local onde ele viveu esse sonho deixou de existir com a venda do terreno da sede social do clube para uma rede de supermercados.

 

“Nessa época, eu era tesoureiro do clube. Sabia que a venda era inevitável. O BAC tinha dívidas e mais dívidas. Não dava para ficar como estava”, lamenta.

 

Mas o tom de tristeza na voz de Nildemar é passageiro. Logo é substituído pelo orgulho de ter conseguido manter pelo menos uma parte da história viva.

 

“Ainda temos nossa sede de campo, que está reformada e é muito bonita. O passado, a gente guarda com orgulho na memória”, orgulha-se.

 

 

 

De dar água na boca

 

Passear pelas ruas do Altos da Cidade, especialmente nas mais próximas da rua Rio Branco é garantir de ficar com água na boca de vontade de comer uma porção de coisas. Isso porque o variado circuito gastronômico é uma das principais características da região.

 

Por lá é possível encontrar os mineiríssimos pães de queijo, com diversos tipos de recheio na charmosa Esquina do Pão de Queijo; deliciosos pratos de macarrão artesanal combinado com molhos pra lá de exóticos no Restaurante Casanova; lasanhas, polpetones e todas as delícias da culinária italiana na Cantina del Pópolo, doces e salgados variados e quentinhos na Padaria Doce Momento, além de sorvetes geladíssimos, com pedaços de frutas, na Pinguim Sorveteria, entre outras delícias que adoçam a região.

 

E, desde novembro do ano passado, uma nova casa passou a compor esse circuito gastronômico: a Teodora Osteria, de propriedade do chef italiano Gigio Coniglio.

 

“Escolhi o Altos da Cidade por conta das características da região. Aqui, além da boa localização, encontrei uma casa do jeito que queria: pequena, rústica, nos moldes antigos, capaz de criar um clima de intimismo típico das pequenas cantinas italianas”, explica.

 

Gigio acredita que boa parte dos estabelecimentos que se estabelecem na região levam em consideração esses pontos, já que a maioria procura manter a fachada original da casa, com um pequeno toque de modernidade.

 

“É uma região charmosa e que mistura certo ar de antiguidade com os benefícios do progresso. Na Teodora Osteria, a ideia é esse: oferecer qualidade e, ao mesmo tempo, um clima intimista, onde os próprios proprietários cozinham para os clientes”, explica.

 

 

 

Feira-livre

 

Tão tradicional quanto o Altos da Cidade, é a feira livre que é realizada toda manhã de quarta-feira na rua Floriano Peixoto. Em três quadras é possível encontrar uma grande diversidade de frutas, vegetais, legumes e verduras, além de roupas, brinquedos, e o famoso pastel, é claro. Característica que atrai os moradores da região.

 

“Vir na feira é sagrado para mim. Moro na rua Sorocabana há 22 anos e, desde que me mudei para cá, frequento a feira”, conta Eurídice Meneguela, 72 anos, que se divide entre as compras e os cumprimentos feitos aos conhecidos.

 

Aliás, a amizade entre os frequentadores e os feirantes é uma das características mais interessantes da feira-livre no Altos da Cidade.

 

“Todo mundo conhece todo mundo. Quando eu não venho, por exemplo, logo perguntam para um vizinho ou conhecido do bairro se estou bem. É uma amizade de anos... muito legal”, conta Eurídice.

 

Outra pessoa que aponta a amizade formada entre os frequentadores como uma das principais características da feira-livre é Nilza Helena dos Reis, 53 anos, moradora do Altos há 1

anos.

 

“Às vezes, saio de casa e venho para a feira pensando em voltar logo. A ideia é só pegar o que falta em casa. Quando chego aqui, percebo que é impossível. Vou parando, conversando com um, com outro... e quando vejo, a hora passou”, diverte-se.

 

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