O nome dela é Andréa, mas poderia ser Maria, Joana, Cecília, Ana ou Cristina. A dona de casa Andréa Maria da Conceição Guedes, 37 anos, é uma mulher comum que, depois de anos sendo agredida pelo companheiro, viveu o extremo da violência doméstica. Na noite de anteontem, véspera do Dia Internacional da Mulher, ela teve o corpo parcialmente queimado e acusa o homem com quem conviveu durante os últimos 14 anos de ser o autor do crime.
Apontado como agressor, o pedreiro Roberto Carlos dos Santos, 36 anos, foi preso em flagrante na madrugada de ontem e encaminhado à Cadeia Pública de Duartina. Ele responderá a inquérito por tentativa de homicídio. Até o fechamento desta edição, Andréa permanecia internada em estado grave na unidade de tratamento de queimados do Hospital Estadual (HE).
A história dela é comum a tantas outras mulheres que são covardemente atacadas dentro de casa por homens violentos. Mãe de quatro adolescentes de 18, 17, 16 e 14 anos, Andréa passou a dividir o mesmo teto com Roberto quando sua caçula ainda era um bebê.
As duas filhas mais novas contam que o padrasto é usuário de crack e, quando consome a droga, sofre alucinações e se torna extremamente violento. “Toda vez que ele fumava pedra, ficava dizendo que minha mãe tinha outro homem. Ontem (anteontem), foi do mesmo jeito”, relembra a caçula, que não será identificada em respeito ao Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA).
A mulher estava preparando o jantar em casa, na quadra 2 da avenida Antônio Fortunato, no bairro Pousada da Esperança 1, quando uma discussão teve início. Enciumado, Roberto questionava os motivos de um vizinho ter emprestado um tanquinho para que ela pudesse lavar roupas.
Andréa cozinhava feijão de maneira improvisada, apoiando a panela em cima de dois tijolos e uma latinha com álcool disposta sobre a grade do fogão. O botijão de gás, conforme descrevem as filhas, havia sido vendido por Roberto em troca de crack.
Gritos de socorro
O frasco de álcool estava sobre a pia. Sem pensar duas vezes, o homem teria despejado o líquido inflamável no corpo da vítima e, em seguida, atirado um papel em chamas para feri-la. O casal estava sozinho na cozinha, mas os gritos de socorro da mulher foram ouvidos pela filha de 16 anos, que estava na frente da casa.
“Quando cheguei, ela já tinha tirado a camiseta e tremia muito. Ela tinha queimaduras no pescoço, peito, braços, lábios e algumas marcas também nas pernas. Ela dizia que estava ardendo muito, queria tomar banho gelado, mas não deixei”, comenta a jovem.
Andréa foi socorrida pelo Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) ao Pronto-Socorro Central (PSC) com queimaduras de segundo grau. Depois de ser encaminhada ao Hospital de Base, foi transferida na tarde de ontem para o HE, onde permanece consciente, mas ainda em estado grave.
Após a discussão, Roberto teria saído da casa. Por também ter sofrido algumas queimaduras, acabou procurando socorro médico na Unidade de Pronto-Atendimento (UPA) do Mary Dota e, no local, foi denunciado à polícia. Em depoimento prestado ao delegado plantonista Roberto Cabral Medeiros, ele negou a agressão, alegando que a mulher teria ateado fogo ao próprio corpo e que ele teria se queimado na tentativa de socorrê-la. Mesmo assim, foi preso em flagrante por tentativa de homicídio simples.
As filhas de Andréia dizem que a mãe confirmou o ataque do companheiro. Mas elas acreditam que, depois de ver o corpo da mulher em chamas, ele possa ter se arrependido e tentado ajudá-la, o que teria provocado as queimaduras nas costas, braços e ombros do agressor.
“Duas pessoas no corpo”
Segundo as filhas de Andréa, Roberto Carlos é um homem de fácil convivência, que só se torna violento quando consume crack. Nas ocasiões em que estava sob efeito da droga, chegou a ameaçar a companheira de morte com uma faca e um machado, além de atirar uma garrafa de vidro contra ela, anos atrás, provocando-lhe um corte na testa.
Certa vez, cansada das agressões, Andréa foi embora com as filhas para Goiânia (GO), mas voltou para Bauru dois meses depois, convencida das promessas de mudança de Roberto. Ainda de acordo com as adolescentes, a mãe já havia registrado boletins de ocorrência contra o pedreiro, mas sempre desistia de dar andamento aos processos.
“Ele dizia que não ia mais brigar, que ia parar de usar droga. Durante um tempo, tratava a gente bem. Mas era só voltar a fumar pedra que começava a desconfiar de traição e bater nela e na gente. Parecia que ele carregava duas pessoas no corpo”, relata a enteada de 16 anos.
Houve uma vez, ela conta, que a dona de casa e as filhas foram colocadas na rua por ele, após uma briga durante a madrugada. Agora, ela afirma, não permitirá que a mãe volte a se aproximar do padrasto.
Atualmente, apenas a caçula, de 14 anos, vive com o casal. As outras adolescentes, de 16 e 17 anos, já são casadas. O irmão mais velho, de 18 anos, mora com a avó. A intenção é de que a mulher possa se mudar para a casa de um dos filhos quando receber alta, já que o imóvel em que vivia na Pousada da Esperança é propriedade de Roberto e deverá ser desocupado após sua prisão.