Falta política pública efetiva para animais em Bauru e isso é cobrado há muito tempo por ativistas e pela própria população. Mas, afinal, em que consiste tal diretriz? Para o advogado da organização não-governamental (ONG) Naturae Vitae, José Hermann Schroeder, tal política deve levar em consideração, em primeiro lugar, o controle de zoonoses, sem deixar de lado a dignidade do animal.
Campanhas de castração e de vacinação em massa, orientação sobre posse responsável, identificação, um cemitério para animais e o cumprimento de leis contra maus-tratos são outros itens que devem compor uma política efetiva para animais.
“Não existe isso em Bauru. De efetivo, nada é feito. O que temos hoje é imoral. O histórico do Centro de Controle de Zoonoses (CCZ), por exemplo, não avança e está numa política contrária. Se não há controle responsável da população de animais, há abandono, maus-tratos e eles ficam mais suscetíveis a zoonoses. Eles pagam sendo sacrificados e a população por ficar a mercê de doenças”, expressa Hermann.
O ativista da ONG acredita que matar os animais já doentes, com leishmaniose, por exemplo, não leva a nada, a não ser à continuidade do ciclo. E Bauru tem histórico negativo nesse caso.
Um plano de castração em massa seria o ideal na visão do advogado. “Há um custo financeiro e social com o extermínio, além de ferir a constituição dos animais. E novamente a população paga a conta deste que não é o único caminho. Se usam medicamento para matar, porque não para castrar?”
Hoje, segundo a Secretaria Municipal de Saúde, o número estimado da população canina e felina, em Bauru, gira em torno de 6
mil animais.
Grande porte
Animais de grande porte também devem fazer parte de uma possível política pública. Casos de maus-tratos e até mesmo de irresponsabilidade com animais, que chegam a andar soltos por ruas e avenidas, o que pode causar acidentes de trânsito, são constantes, assim como as denúncias de moradores.
Segundo o CCZ, há lei que proíbe o trânsito de animais soltos em vias públicas e a responsabilidade pelo recolhimento é do próprio órgão. Entretanto, o veículo usado para tal fim está quebrado e a Secretaria estuda a aquisição de um novo veículo. Enquanto isso, a população encontra dificuldade para a realização de tal serviço, como já noticiou o JC.
Inconformismo
Inconformada com o abandono de animais, muita gente gasta absurdos com animais resgatados das ruas. O custo, além de financeiro, é emocional. E não é difícil achar quem faça isso em Bauru.
A veterinária Ana Lúcia Geraldi, por exemplo, há anos recebe e recolhe animais das ruas, trata, cura as feridas, alimenta, castra e os coloca para adoção: “Eu mesma tenho seis cães, um gato e até um coelho que foram adotados por mim”.
Atualmente, ela abriga em sua clínica a cadela batizada de mãezona com seus oito filhotes. Segundo Ana, que recebe ajuda de ONGs para o seu trabalho, a comunidade cobra responsabilidade do CCZ, das ONGs e até dos veterinários, porém, tem muita gente por aí que não faz a sua parte.
“Os donos são responsáveis pelos cuidados com seus animais. Isso faz parte da posse responsável. A população deve se unir aos governantes para que uma política pública possa realmente ser efetiva”, defende.
Castração: “Já passou da hora”, assume prefeito
A tão cobrada política de castração em massa é vista como necessária também pelo prefeito Rodrigo Agostinho (PMDB). Mas, segundo ele, a implantação de tal programa ainda precisa ser planejada e esbarra em alguns obstáculos.
Agostinho acredita que a castração resolveria, talvez a médio prazo, o problema da superpopulação de animais e também reduziria os casos de abandono de filhotes.
“Estamos discutindo o assunto internamente, mas colocar isso em prática em uma cidade do porte de Bauru não é barato como pode ser em uma cidade pequena. Os custos e até mesmo a logística complicam a implantação. Temos tentado parcerias com instituições como o Hospital da Universidade Paulista (Unip), por exemplo”.
Outra questão apontada pelo prefeito é a comercial: “Há dezenas de clínicas na cidade que cobram por esse serviço. A gente precisa superar e ver como é que vai se dar a logística disso, e acredito que isso será feito com a ajuda do Conselho Municipal de Proteção e Defesa dos Animais (Comupda)”.
A estrutura enxuta de veterinários na prefeitura é outro obstáculo a ser superado. O prefeito ressalta que as clínicas não estão preparadas para participar de processos de licitação, mas esclarece que isso não é empecilho: “Precisamos ver como outras cidades estão fazendo e copiar os bons exemplos”.
Impasse
Segundo Agostinho, o Centro de Controle de Zoonoses (CCZ) é responsável pela política municipal de zoonoses, mas com foco na saúde humana. Contudo, ela afirma que há preocupação com a saúde e o bem estar animal.
“Os animais chegavam doentes no CCZ, eram sacrificados e a política parava por aí. Agora começamos uma campanha de adoção, o que é muito legal, mas acho que ainda é pouco”.
O prefeito salienta que gostaria que o próprio CCZ coordenasse um possível programa de castração por ter profissionais capazes, ambulatório, canil, gatil... Enfim, estrutura para a ação. “É difícil a gente pensar em criar uma estrutura dentro da prefeitura para isso”.
Já para o secretário municipal de Saúde, Fernando Monti (PR), o tema deve ser discutido no Comupda, de onde deve sair uma possível solução que, segundo ele, não está necessariedade ligada à saúde.
“Nós temos na secretaria um órgão com ações voltadas para a saúde animal. Sua finalidade é promover ações de saúde animal no contexto dos riscos da saúde humana. É essa a finalidade da Secretaria da Saúde. E ponto final”.
Monti ainda acrescenta que uma possível proposta do Comupda pode ter várias articulações e ser financiada por recursos do orçamento municipal, meio ambiente e até mesmo pela saúde.
Ele alfineta: “Não conheço cidade onde o Sistema Único de Saúde (SUS) banque universalmente a castração de animais. Sou favorável à castração, é lógico. Mas é uma situação em que precisamos discutir prioridades frente aos recursos que dispomos. E hoje não há dados técnicos epidemiológicos que apontem a castração como prioridade”.