Já faz algum tempo que venho refletindo sobre o comportamento de algumas pessoas e com o relacionamento que as mesmas estabelecem com o próximo. Tudo começou no ano passado, na faculdade. Um excelente professor que tive passou em uma de suas aulas um filme chamado " E a vida continua". Para resumir, o filme falava sobre a Aids e mostrava que no início de sua manifestação muitas pessoas morriam, porém, a causa era desconhecida, um grupo de médicos e pesquisadores começou a estudar a morte dessas pessoas e descobriu que tinham a mesma causa. Depois de muita história, descobriram que se tratava de um novo vírus. O problema era que a maioria das pessoas que estavam infectadas por ele eram homossexuais, por isso a população, ainda dominada pelo preconceito, não apoiava a descoberta da cura para a doença.
A verdade é que a ignorância dessas pessoas não foi motivo para que os cientistas parassem seus estudos, nenhum deles era homossexual, porém, eles tinham amor ao próximo, não se viam dentro do problema, mas achavam que tinham o dever de encontrar uma solução. Os atores que fizeram esse filme são bem conceituados e doaram seu cachê em favor do combate à Aids. Triste é saber que a população achava que nunca "pegaria" Aids, o resultado disso é que muitas pessoas ainda hoje são infectadas pelo vírus, independentemente de sua opção sexual. Depois desse filme que mudou completamente a minha maneira de pensar, chegou em minhas mãos na semana passada (por meio de um outro professor muito querido) um livro que trata de um assunto semelhante. Chama-se "ArquHIVo", do autor Bernardo Dania, um livro que realmente todas as pessoas deveriam ler. Conta a história do próprio autor e a descoberta de sua sexualidade e posteriormente de sua doença (HIV). Sua história é contada de maneira irreverente e faz com que o leitor entenda como ele pensa e enxerga sua condição.
Você pode até pensar o porquê de todas essas informações. Na verdade, sou hétero, não sou portadora do vírus da Aids, não levanto nenhuma bandeira em favor de nenhum grupo. Sou simplesmente professora e acho que, como tal, devo ser livre de preconceitos e devo também ficar atenta para a realidade. Aprendi na faculdade que chegaria o dia em que seria comum uma criança ter dois pais e nenhuma mãe.
Como educadora, vejo quanto preconceito é dispensado a essas pessoas. São geralmente tratadas como se não fossem nada. Pior ainda são os adjetivos que dirigem aos gays, negros, obesos, mendigos ou qualquer outra pessoa que não tenha o corpo ou pensamento dentro dos padrões estabelecidos nem sei por quem. Isso acontece nas ruas, no trânsito, dentro da escola, do supermercado... Tenho 22 anos e me lembro muito bem do dia em que minha mãe me ensinou a chamar as pessoas pelo nome, infelizmente muitos outros adultos ainda não aprenderam...
Houve até manifestações em nossa cidade, após agressões físicas e verbais dirigidas a homossexuais. Não fui prestar minha solidariedade porque, sinceramente, embora eu tenha muitos amigos gays, acho que eles não precisam do meu apoio ,eles só precisam do meu respeito. E é sobre "respeito" que esse artigo trata. Tenho uma fé inabalável em Deus que não permite que eu julgue as pessoas pelas suas escolhas. Ele próprio ensinou a amar ao próximo, e Ele foi (e é!) tão inteligente que não descreveu como o "próximo" deveria ser. "Próximo" não é só o pai, mãe, irmão, vizinho... "Próximo" é o motorista do ônibus, a faxineira do trabalho, o homem que mora na rua e até o menino que te rouba pra comprar drogas. Reitero que não sou a favor das drogas e nem de que pessoas morem nas ruas, mas cresci vendo a minha mãe cuidar dos mendigos. Ela tinha (e tem) amizade com pessoas que se drogavam, com gays e ninguém lá em casa nunca foi ou se tornou nada disso. Graças a Deus sou como ela!
Penso que chegou a hora de as pessoas enxergarem o coração das outras, ninguém tem que "aceitar" conviver com ninguém. O bom mesmo é Respeitar. Termino esse artigo com uma citação do livro " ArquHIVo": "Se conhecêssemos a história íntima de nossos inimigos, encontraríamos tristeza suficiente para desarmar nosso ódio." Não tenho intenção alguma de tentar embutir em sua mente uma nova ideia, mas peço que reflita sobre o trecho acima e tire você mesmo suas conclusões. Ontem eu os respeitava. Hoje eu ainda respeito! E você?
A autora, Amanda P. Dippólito, é pedagoga