Quem não consegue prever qual vai ser a taxa de inflação no Brasil em setembro deste ano será capaz de acertar a previsão da inflação em dezembro de 2013? Após a redução da taxa básica de juros em 0.75, na reunião do Copom dia 7 de março, foram publicadas análises de economistas projetando um aumento da inflação para o ano que vem em relação ao índice de 2012. Obviamente, no terreno das possibilidades, tudo pode acontecer, ou não... As previsoes dependem da qualidade das estimativas usadas nos modelos, do tipo de relações que se colocam neles e da própria crença dos analistas sobre a capacidade do governo de responder aos problemas.
Hipóteses mais radicais partem da ideia de que o governo vai aguardar de braços cruzados o retorno da inflação. Significa acreditar que o governo está morto, o que não combina com realidade...
O governo parece vivo e passando bem. Ao comentar as reações do governo brasileiro à crise financeira mundial, tenho insistido em mostrar que o presidente do Banco Central, Alexandre Tombini, está muito mais antenado à confusão do "estado da arte" da política monetária e aos problemas internos e externos da economia que os seus críticos no mercado financeiro. A maioria deles se comporta como os autores daquela propaganda pregada em árvores ou amarradas em postes, garantindo que uma "Ciência do Amor" pode prever o destino romântico das pessoas: basta que paguem a consulta e depois esperem o resultado... Se acertar a previsão, em dezembro de 2013 o "cientista" pode comemorar: "Eu sabia..." Se errar, ninguém vai falar no assunto. Nessa matéria, a crise financeira de 2007/2009 desvendou algumas situações incríveis, levando os economistas de todo o mundo a refletir sobre as razões que impediram a maioria dos profissionais do ramo a prever a catástrofe que se desenhava. Três anos depois da eclosão da crise, economistas do Fundo Monetário Internacional convocaram uma conferência que chegou a algumas conclusões interessantes.
Vale a pena lembrar a observação que "mesmo os modelos mais sofisticados, apoiados em artilharia matemática pesada, não reproduzem a complexidade da vida econômica, pois deixam de fora a possibilidade da acumulação de pequenos problemas que podem levar a uma descontinuidade instantânea do circuito econômico... Ha serias suspeitas que as clássicas crises de crédito que acompanham a economia de mercado são produzidas pela própria psicologia humana, de forma que não importa o que façamos, elas estarão sempre conosco. Contudo, as dúvidas com relação à política macroeconômica não são justificativas para o abandono das boas práticas de governança dos Estados". Conclui que "é importante reafirmar a necessidade de criar-se uma absoluta coordenação entre as políticas monetária e fiscal, acompanhada dos incentivos corretos aos agentes, de uma boa regulação dos mercados e do completo respeito às identidades da contabilidade nacional".
Antonio Delfim Netto