João Rosan |
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Ela chegou à Redação do JC com mil histórias para contar. Expansiva e cheia de experiências pessoais e profissionais, Dulce Marli Kernbeis tem mais palavras a dizer do que podemos colocar em apenas uma página de jornal.
Aos 56 anos, ela tem dois filhos, uma neta e já foi casada três vezes. Defensora confessa do amor, Dulce diz que não concebe a vida sem tal sentimento: “Apaixonar-me perdidamente é inerente ao meu modo de ver a vida. Abrir o coração, a mente, permitir a entrega, deixar fluir, apostar na beleza da relação, não ficar de espectadora...”
A juventude de Dulce foi marcada pelo basquete. Ela jogou ao lado de feras como Suzete, Jani, Simone... “Até hoje sou ligada às meninas do basquete e fazemos churrasco juntas com uma certa frequência. Também acompanho de perto o Bauru Basquete”, revela.
Mas foi o jornalismo que conquistou a dedicação e o tempo da menina criada semi-interna em um colégio de freiras. TV, rádio, revistas, jornais e novas mídias, como a “mídia indoor”, fazem parte do currículo da profissional versátil que se especializou em linguagem para o público C e, hoje, fala à classe A com seu novo desafio, a revista AZ!: “De repente, a Dulce que é especialista para a classe C, está editando uma revista para a classe A. Mas palavras são palavras e esse é meu novo desafio”.
Acompanhe, também, as passagens da vida pessoal de Dulce Marli Kernbeis, a seguir.
Jornal da Cidade - Você teve uma infância marcante?
Dulce Marli Kernbeis - Sou filha de um “alemãozão” gaúcho que cuidava da terra e fui criada semi-interna em um colégio de freiras de Avaré. Meus pais trabalhavam e viajavam vendendo sementes, então eu passava o dia nesse colégio, desde os 3 anos de idade. Tenho uma característica de ficar meio no limbo, pertencer a todas as tribos e a nenhuma ao mesmo tempo. E tenho isso comigo desde essa época. Digo isso porque nesse colégio de freiras havia dois tipos de meninas. Primeiro, as que ficavam internadas no pensionato e eram filhas de fazendeiros. Elas estudavam para serem letradas e boas esposas. E, paralelamente, havia um educandário para as meninas carentes, muitas vezes sem pais. Muitas dessas meninas viravam noviças ou boas governantas das filhas dos fazendeiros. Dessa forma, existia dois ambientes e eu não me encaixava em nenhuma das duas categorias. Minha infância também foi marcada pela música, indiretamente.
JC - E por falar em música, qual é a boa história que você menciona quando cita, no perfil, o sertanejo como o seu estilo musical predileto?
Dulce - Aprendi música clássica no colégio, inclusive havia uma banda feminina de música clássica. Então, as músicas sertanejas, populares, embora houvesse festas juninas maravilhosas, não tinham espaço. Ocorre que meu pai, quando me buscava no colégio, passava na horta para molhar as plantas e ligava o som bem alto em um programa chamado “Na beira da Tuia”, apresentado pela dupla Tonico & Tinoco, isso sem falar no programa da Inesita Barroso, “Viola Minha Viola”, que ele e minha mãe assistiam todo fim de semana. E eu torcia o nariz para aquilo. Nessa mesma época, tive vizinhas que tocavam músicas no acordeon e sanfona. Ao mesmo tempo que aquele som me atraia, eu não estava educada para aquele tipo de música, nem para gostar dos reis do iê iê iê, que explodiam na época.
JC - Quando se rendeu ao sertanejo?
Dulce - Os anos se passaram. Cresci e vim para Bauru fazer jornalismo e teatro. Gostar de sertanejo também não parecia coerente naquela época de nariz empinado (risos). Além disso, meu primeiro marido gostava muito de Sérgio Reis e eu não me conformava com isso. Quando pensei que havia me livrado da “chalana”, com o fim do casamento, meu filho cresceu e descobriu a dupla João Paulo e Daniel. Não teve jeito, prestei atenção naquele “eu me amarrei” e me rendi de vez ao sertanejo. Isso está no sangue e faz parte do brasileiro. Não há como negar.
JC - Da música para o esporte. De onde vem a sua paixão pelo basquete?
Dulce - Eu era baixinha quando criança e cresci muito no intervalo de um ano. Cresci e engordei. Para segurar esse crescimento todo, passei a fazer atletismo, ainda em Avaré. Um técnico me viu e me chamou para jogar basquete. Adorei. Comecei a viajar, eu quase nunca saía de casa.
JC - O esporte foi uma fase marcante em sua vida?
Dulce - Sim. O esporte me proporcionou grandes amizades. Vim para Bauru com minha família e passei a jogar em uma grande equipe de basquete. Joguei com a Suzete, Jani, Simone... Até hoje sou ligada às meninas do basquete e fazemos churrasco juntas com uma certa frequência. Também acompanho de perto o Bauru Basquete.
JC - O esporte também faz parte da vida de sua filha. Acha que foi por influência sua?
Dulce - Obriguei meus dois filhos a praticar esporte. Eles podiam escolher a modalidade, mas tinham de fazer alguma coisa. Sempre tive noção do bem que o esporte representa, até por ter feito faculdade de educação física. E a Bárbara se apaixonou pelo polo aquático. Jogou pela Seleção Brasileira e, graças ao esporte, ganhou uma bolsa de estudos e fez psicologia nos Estados Unidos. Então, o esporte é algo maravilhoso.
JC - Quais são suas outras formações acadêmicas, além da educação física?
Dulce - Além de educação física, fiz faculdade de ciências e letras. Não cheguei a concluir a faculdade de jornalismo por ter conseguido o registro profissional da categoria e estar em um período conturbado. Mas me arrependo de não ter dado continuidade aos estudos, principalmente porque fui convidada a dar aulas de jornalismo especializado e não pude continuar pela falta do diploma. Eu gosto de dar aulas e acho que sou uma boa professora, descobri isso ao longo do tempo. Atualmente realizo palestras em universidades.
JC - Como teve início sua longa carreira com a comunicação?
Dulce - Minha carreira como jornalista começou em Avaré, onde havia um bom jornal. Também fiz rádio naquela cidade. Em Bauru, eu trabalhava na loja de produtos agropecuários do meu pai, que existe há 40 anos, mas não era o que eu queria. Casei-me pela segunda vez e fui morar em São Paulo. A Capital não foi uma boa opção e voltei para Bauru, onde trabalhei no Jornal da Cidade e na Rede Globo Oeste Paulista. Meu segundo marido, que trabalhava no Jornal da Tarde, faleceu pouco tempo depois de decidir se mudar para Bauru. Fiquei de vez na cidade. Além disso, direta ou indiretamente, trabalho na Editora Alto Astral desde sua formação.
JC - Então você faz parte da história da Editora Alto Astral?
Dulce - Ah, sim. Só não participei da primeira revista que o JoãoBidu colocou nas bancas em nível nacional, o Guia Astral. Fiquei lá dentro por longos nove anos. Saí também por questões absolutamente pessoais, mas presto consultoria para eles até hoje e crio produtos novos. Respiro edição de revistas, pesquiso mercado e garimpo tendências. Mergulhei de cabeça na classe C. Posso dizer sem falsa modéstia que conheço como poucos como pensa, age e do que gosta a mulher dessa classe que carrega a economia nas costas. E a cada dia procuro conhecer mais.
JC - Você é bastante ligada ao universo feminino. É possível mostrar mudanças significativas ao longo dessas décadas de trabalho?
Dulce - Sou voltada para o universo feminino e para a classe C. Eu percebo coisas muitos legais no sentido da mulher viver melhor a sua sexualidade e seus direitos, com a Lei Maria da Penha, por exemplo. Mas acredito que a mulher já tinha a consciência do seu valor e poder, mas faltava desenvolver isso. Ela cuida da casa, dos filhos, está no mercado de trabalho e, muitas vezes, com o salário maior que o do marido. Hoje ela está bela, cuida do cabelo, das unhas, do corpo... Porque trabalha e tem poder aquisitivo para isso. Mas é claro que ainda falta muita coisa.
JC - Uma meta.
Dulce - Ser consultora de produtos para a classe C. Todo mundo está batendo a cabeça sobre como falar com essas pessoas que hoje comandam o mercado consumidor. Meu currículo está à mostra para trabalhar com essa linguagem, independente do veículo. Uma nova tendência da comunicação é “mídia indoor”, uma proposta de divulgação dentro de estabelecimentos comerciais. Já estou fazendo isso em Bauru, mas de maneira diferente, ou seja, anúncio associado à notícia. Já trabalhei em praticamente todos os veículos de comunicação e posso dizer, conforme aprendi, que “palavras são palavras”. Você só precisa saber com quem está falando para adequá-las.
JC - Um desafio atual.
Dulce - A revista AZ!, que é uma revista que veio preencher uma lacuna que existia na cidade. Estamos no mercado há um ano e a ideia não é competir com outras revistas, já que há lugar para todas. De repente, a Dulce que é especialista para a classe C, está editando uma revista para a classe A. Mas palavras são palavras e esse é meu novo desafio. Sou movida a desafios.
JC - De onde vem sua versatilidade?
Dulce - Trabalhar por conta própria sempre me permitiu alcançar metas novas. Fiz a edição de programas políticos como a campanha “Nilson é do bem”, por exemplo. Já recebi convites para atuar estrategicamente na campanha política de Bauru e outras praças. Estou sempre pronta para isso. Hoje também sou consultora editorial, atuo em edição de revistas, livros, programas de televisão... Estou estudando mídia indoor e vejo que o mundo está se abrindo para coisas novas. Há um vasto campo.
JC - Você me disse que é uma defensora do amor.
Dulce - A Dulce não concebe a vida sem o amor. Seja o amor que for. Tive três maridos, incluindo os pais dos meus filhos que já morreram, e vários outros amores. Apaixonar-me perdidamente é inerente ao meu modo de ver a vida. Simplesmente eu estava aberta, como todas as pessoas deveriam estar. Isso é o mais importante. Abrir o coração, a mente, permitir a entrega, deixar fluir, apostar na beleza da relação, não ficar de expectadora... Foram relações intensas onde mergulhei de cabeça, não sei fazer nada pela metade. Se você tem dúvidas, não é amor total.