Éder Azevedo |
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Entrar em casa e ver gavetas, armários e guarda-roupas revirados, objetos quebrados ou fora do lugar, e dar falta de eletrodomésticos que levaram anos para serem comprados é uma surpresa para lá de desagradável e indício de que a casa recebeu uma visita indesejada: a de um ladrão.
De acordo com informações da Polícia Militar, entre 5 de maio de 2011 e 5 de maio de 2012, pelo menos 800 residências de Bauru passaram por situações parecidas com esta, sendo que em 60 delas seus moradores tiveram a infelicidade de surpreender o gatuno com a boca na botija, caracterizando o roubo. O número representa 15,2% do total geral de furtos registrados pela PM.
Quem já passou por isso, certamente, sente calafrios só de pensar em reviver a experiência. O reflexo desse temor é possível perceber de longe, ao caminhar pelas ruas da cidade e dar conta de que os tradicionais portões de grades generosas e os convidativos muros baixos estão, aos poucos, sendo substituídos. Em seus lugares, portões completamente fechados e muralhas, tudo isso, é claro, cercado de câmeras de segurança, cercas-elétricas, serpentilhas, alarmes, entre outros aparatos tecnológicos.
Contudo, apesar da mobilização das pessoas em busca de segurança, ainda há quem prefira manter a casa com muros baixos, grades largas e apostar nas tradicionais trancas nas portas e janelas, nos cachorros bravos e na vigilância atenta dos vizinhos para manter a segurança do lar.
E os avessos às fortalezas não são poucos. Eles estão localizados, principalmente, nos bairros da periferia e, a maioria, inclusive, diz sentir-se mal com tanta proteção.
“Dá a impressão que estou em uma prisão. Não gosto”, confessa Maria Helena Brezan Shiraiwa, moradora do Altos da Cidade.
Nilson Ghirardello, arquiteto e urbanista, explica que até os anos 70 o conceito de proteção era bem diferente do atual. De acordo com ele, nessa época, as pessoas privilegiavam a arquitetura das casas com construções horizontalizadas, jardins frontais e grades baixas, suficientes apenas para impedir que os animais saíssem para a rua.
“Era uma estética mais interessante. A construção dialogava mais com o espaço público. Atualmente, as ruas parecem corredores de muros. Existe uma total falta de diálogo entre o privado e o público”, lamenta.
Para ele, os equipamentos tecnológicos podem, sim, ser fortes aliados na segurança residencial, especialmente os que não ficam visíveis, porém, nem sempre os muros altos são garantia de proteção.
“Se o ladrão entra em uma casa protegida por uma muralha, pode ficar lá o tempo que for que ninguém vê. Nesse aspecto, quanto mais transparente for a visão do quintal, melhor. Em São Paulo, muitas casas e prédios de luxo já estão utilizando vidros como proteção. Eles são transparentes e, caso quebrem, alertam os moradores pelo barulho”, exemplifica, Nilson, que é professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Bauru.
Ponto de vista apoiado por quem mantém a casa no formato original, típico de décadas atrás.
“Se o ladrão tiver de entrar, não vai ser o muro que vai impedi-lo. Eu é que não vou viver enjaulada”, justifica Maria do Carmo Oliveira Mattos, moradora do Jardim Monlevade.
Com cuidados, é possível
Uma casa de fachada extensa, com portas e janelas imponentes, de madeira maciça, que dão vista direto para a rua e são emolduradas por paredes superbrancas e por um belo jardim.
Quem lê essa descrição provavelmente imagina que se trata de uma casa norte-americana, como as exibidas nos filmes, ou, talvez, de uma residência localizada em um dos muitos condomínios fechados da cidade, que proíbem muros e portões.
Errado. A descrição acima se refere a uma casa instalada no Jardim Estoril, que permaneceu com a arquitetura intacta mesmo após o constante crescimento no número de roubos e furtos a residências vivido pela cidade com o passar dos anos.
Segundo Regina Helena Braga Jacintho, uma das proprietárias do local, a casa foi construída em 1984 pelo patriarca da família e a inspiração foi mesmo nas casas norte-americanas.
“Sempre gostamos do estilo arquitetônico das casas dos Estados Unidos. A frente aberta passa a impressão de um ambiente amigável, sociável, e proporciona uma convivência maior com o vizinho e com a rua”, explica ela, que destaca o capricho com que a casa foi feita. “Na entrada, colocamos pedras-sabão trazidas de Minas Gerais. Minha mãe sempre foi apaixonada por elas”.
Mas se engana quem pensa que por a casa não ter muros Regina Helena e a família se sentem mais inseguros. Em 26 anos morando no local, apenas duas vezes um ladrão chegou ao quintal da casa, fugindo de um roubo efetuado nas vizinhanças. O maior temor da família sempre esteve relacionado à pichação.
“Temos segurança aqui: as portas e janelas são bem reforçadas com barras de ferro. Não tem como entrar. Além disso, sempre fomos muito cuidadosos. Deixamos a casa bem fechada e, ao chegar e sair, sempre prestamos atenção em quem está rondando as redondezas para não sermos surpreendidos”, enumera ela, que diz não ter planos de murar a casa. “Temos outras formas de garantir a segurança. Não precisa de muros”.
Prisão é para criminosos
“Prisão é coisa para bandido. Eu não devo nada, não gosto de ter a impressão de estar enjaulada”. É com essa frase que Maria Helena Brezan Shiraiwa justifica o fato da casa onde mora, localizada nos Altos da Cidade, permanecer com muros superbaixos e portões de madeira em pleno ano de 2012.
Ela se mudou de Guarulhos para Bauru com a família há 17 anos. Antes de morar na atual residência, viveu próxima à Praça da Paz, em uma casa de muros altos que foi furtada por três vezes.
“Fiquei horrorizada. Em Guarulhos nunca entraram em minha casa. Aqui, na antiga residência, arrombaram até a porta”, conta.
Depois que se instalou onde mora atualmente, ela não teve mais problemas graves. A única mudança que fez no local para garantir maior segurança foi aumentar um pouco o muro dos fundos e colocar um cachorro para proteger o local.
“Não tem jeito. Gosto da casa aberta. Protegi um pouco o fundo da casa porque era mais vulnerável. É difícil o ladrão entrar pela frente. É tudo muito aberto e o movimento da rua é grande. As pessoas certamente perceberiam que algo estranho está acontecendo”, aposta.
Em contrapartida, Maria Helena sempre toma alguns cuidados, como trancar bem as portas e janelas quando sai e observar as redondezas antes de entrar na casa.
“Penso que é um modo eficaz. Muro dificulta, mas não é garantia de segurança pra ninguém. Hoje em dia, ladrão entra até em prédio”, considera.
Mantendo a tradição
Nem muro alto, nem portão fechado, muito menos cerca elétrica ou circuito de câmeras. Quando o quesito é segurança, a casa onde mora Maria do Carmo Oliveira Mattos em nada mudou: permanece tal qual seu avô construiu, em 1957.
O motivo? Ela não vê necessidade. Instalada em uma das avenidas mais movimentadas de Bauru, a Rodrigues Alves, na altura do Jardim Monlevade, a casa nunca foi furtada. No máximo, alguns estudantes já pularam o muro para beber água da torneira.
“Penso que o movimento da avenida desencoraja os ladrões. Ainda mais que tem um ponto de ônibus bem ao lado de casa, onde sempre tem gente. Como nunca aconteceu, não vejo porque mudar e transformar a casa em uma fortaleza. Gosto dela assim”, comenta.
Além de se sentir segura, Maria do Carmo evitar modificar os muros e portões da casa por questões sentimentais. Gosta de lembrar do tempo em que o avô vivia na residência.
“Outro dia um primo veio me visitar e nos recordamos de tantas coisas boas... Ele mal acreditava que a casa ainda permanecia como na época de meu avô”, conta.
Para se sentir ainda mais segura, toma alguns cuidados. Mantêm as janelas com grades, as portas sempre fechadas e não deixa vestígios de que não está em casa.
“Às vezes saio e deixo uma fresta aberta na janela e a TV ligada. Assim, as pessoas pensam que tem gente”, revela.
Vizinhos em alerta
O ladrão que quiser furtar ou roubar qualquer casa da parte baixa do Núcleo Presidente Geisel antes vai ter de passar por uma prova de fogo: driblar a vigilância atenta dos moradores da região.
Isso porque, se por um lado as casas de muros baixos e portões com vãos generosos ‘facilitam’ a entrada do gatuno, por outro lado, não é raro encontrar nas praças que compõem o bairro, vizinhos sentados em cadeiras debaixo da sombra das árvores batendo um papo descontraído.
“Aqui, todo mundo conhece todo mundo. Se vemos alguém que não é familiar, desconfiamos na hora. Isso, na verdade, inibe os ladrões. Casos de roubo são muito raros por aqui, mesmo as casas tendo muros baixos”, explica Rosa Ravanhan da Silva, que mantém em sua residência antigos portões com grades de lança e tem o hábito de dormir com janelas abertas. “Não tenho medo, não. Acho que é porque nunca aconteceu nada”, completa.
E a rede de vizinhos sempre em alerta é certamente o segredo para a tranquilidade do bairro. Roseli Fátima Nascimento, que mora há algumas quadras da casa de Rosa, conta que costuma avisar os vizinhos quando sai de casa.
“Sempre peço pra que deem uma olhada por mim quando estou ausente. Até porque, se tiverem de roubar, não é muro alto e cerca elétrica que vai impedir”, defende.
A casa de Roseli Fátima foi assaltada uma única vez, há muito tempo. O ladrão entrou pelos fundos e tirou o miolo da porta. Levou TV e videocassete. O susto foi momentâneo. Passou logo, sem deixar vestígios de preocupação.
“Nem o miolo da porta ela trocou. Mas aqui é um bairro familiar, difícil ladrão passar despercebido. Além disso, ela tem uma cachorra da raça poodle que avisa qualquer presença estranha”, entrega uma vizinha.
Fiel (e bravo) guardião
Cuidado: cachorro bravo. A placa pregada em algumas casas de diversos bairros de Bauru é, geralmente, dispensável. Isso porque ao chegar próximo das grades que cercam esses locais, o aviso vem em forma de um sonoro latido, quase sempre acompanhado por assustadores rosnados.
Sim, em pleno ano de 2012, os cães de guarda ainda são alarmes eficientes contra a presença de ladrões.
No Núcleo Gasparini, por exemplo, a maioria das casas tem portões com grades largas e muros baixos, quase sempre vigiados por atentos cães de guarda.
Bob é um deles. Bastou que a equipe do JC nos Bairros passasse em frente ao portão onde ele mora para que ele iniciasse uma sinfonia de latidos e rosnados, avisando a dona de que alguém estranho estava por perto.
“Moro aqui há 9 anos e a casa sempre foi assim: com muro baixo e portão de grade, também baixo. Nunca nenhum ladrão entrou. Acho que o Bob inibe qualquer tentativa do tipo”, avalia Lucimara Adão.
Ela conta que ter um cão de guarda foi o meio mais eficaz de garantir a segurança do local, já que o imóvel é alugado e, portanto, a família não tem autorização para fazer modificações na estrutura da residência.
O mesmo acontece com Lia Franco, que mora em uma casa alugada no Jardim Bela Vista e conta com toda a valentia do boxer Nero para proteger sua residência de furtos e roubos.
“Sinceramente, prefiro casas bem fechadas. Mas, atualmente, não tenho outra opção. Com o Nero, protejo a mim e aos vizinhos. É só alguém se aproximar que ele desata a latir”, conta.
E Nero cumpre mesmo com seu dever. Ele não se intimidou nem com as lentes da câmera do fotógrafo Quioshi Goto. Encarou o visitante, latiu alto, tentou colocar a pata para foras das grades, pulou, rosnou e fez tudo mais o que tem direito. Para encará-lo, só se o ladrão for muito atrevido.
Proteção interna
Quando o músico Edevard Viotto, mais conhecido como Badê, mudou-se para o Jardim Bela Vista, há 55 anos, o bairro era marcado pela calma e pacatez de suas ruas. Sua casa era feita de tábuas, sem muros. Ficou assim por 15 anos, e só então ganhou o formato que tem atualmente: com portão, portas e janelas reforçados com generosas grades de ferro, mas bem a vista de quem passa pela rua.
Com o tempo, o cenário do bairro mudou bastante. As casas vizinhas ganharam cerca elétrica, portões fechados, muros altos, alarmes, entre outros equipamentos tecnológicos para proteção.
“As pessoas se protegem como podem e por conta dessa onda de assaltos se trancam dentro de casa. Eu sou contra. Acho que não há necessidade. Minha casa tem outra fora de proteção”, conta, nos convidando para ver as grades que protegem as portas e janelas da residência.
“Sinto-me seguro aqui. Se eu tomar cuidados como manter as portas trancadas chave, é difícil ladrão conseguir entrar em casa. No quintal, não tem o que ele fazer”, justifica.