Articulistas

Nosso escudo protetor

Paulo Cesar Razuk
| Tempo de leitura: 4 min


O calor do Sol alcança Vênus uns dois minutos antes de chegar à Terra, o suficiente para ajudar a transformar aquele planeta numa estufa escaldante. A gelidez de Marte nos mostra que, afastando-se um pouco mais, o problema passa a ser o frio. Mas, simplesmente estar à distância certa do Sol não é tudo, senão a Lua seria arborizada e, nesta altura do campeonato, habitada. Sem todo magma se revolvendo sob nossos pés, não estaríamos aqui; nosso interior buliçoso liberou os gases que ajudaram a formar a atmosfera, que nos mantêm aquecidos e o campo magnético que nos protege. No entanto, se a Terra fosse um pouquinho maior do que é, sua gravidade deixaria a atmosfera rente ao chão; por outro lado, se a Terra fosse só levemente menor do que é, a gravidade mais fraca não teria condições de segurar a atmosfera, ela se desprenderia. Como estamos debaixo de uma perturbação na teia do campo magnético, conhecida como Anomalia do Atlântico Sul, a atmosfera é, para nós, ainda mais vital. Nestes meses de alta atividade solar, é preciso realçar o importante papel da atmosfera que absorve ou desvia vários enxames invasores: raios cósmicos, partículas carregadas, raios ultravioleta e coisas semelhantes. Seu acolchoamento gasoso equivale a um paredão protetor de concreto com uma espessura de quatro metros e meio, sem o qual esses visitantes invisíveis do espaço nos retalhariam como pequenos punhais. Até as gotas de chuva nos nocauteariam não fosse a resistência da atmosfera.

A troposfera é a parte que nos é preciosa; sozinha, contém calor e oxigênio suficientes para nossa sobrevivência, embora rapidamente se torne hostil à vida à medida que subimos por ela. O limite absoluto da tolerância humana para a vida parece ser de cerca de 5.500 metros, contudo, mesmo pessoas condicionadas não conseguiriam tolerar essa altura por muito tempo. Do nível do solo ao seu ponto mais alto, a troposfera (ou esfera giratória) tem uma espessura de cerca de dezesseis quilômetros no equador e não supera a dez ou onze quilômetros nas latitudes temperadas. Oitenta por cento da massa da atmosfera está contida dentro dessa camada fina e delicada que não cansamos de emporcalhar. Costumava dizer aos meus alunos que o ar é um negócio enganoso. Mesmo ao nível do mar, tendemos a imaginá-lo como algo etéreo e sem peso. Na verdade, existem cerca de 5.200 trilhões de toneladas de ar a nossa volta ou 9,7 milhões de toneladas para cada quilômetro quadrado, portanto, quando milhões de toneladas de ar disparam a oitenta ou cem quilômetros por hora não se deve surpreender que muros ou tetos saiam voando. A razão pela qual não nos sentimos esmagados é porque respiramos, inalamos ar, que dos pulmões é transferido para o sangue, assim a pressão exercida pela atmosfera atua tanto do lado de fora como do lado de dentro de nosso corpo, gerando uma resultante nula.

O processo que impele o ar pela atmosfera é o mesmo que aciona o motor interno do planeta: a convecção. O ar quente e úmido da região equatorial sobe até atingir a alta atmosfera e se espalha. Ao se afastar do equador e esfriar, ele desce, procura uma área de baixa pressão para preencher e retorna ao equador, completando o circuito. Essas áreas de baixa pressão são criadas pelo ar ascendente, que transporta moléculas de água para o céu, formando nuvens e finalmente chuva. O que sabemos é que a distribuição irregular do calor do Sol provoca diferenças de pressão no ar, só que ele não tolera essas diferenças e corre de um lado para o outro a fim de igualar a pressão em toda parte. O vento é a maneira que o ar encontra para manter as coisas em equilíbrio e quanto maior a diferença entre pressões, mais rápido sopra o vento. Aliás, os efeitos da velocidade do vento, como a maioria das coisas que são cumulativas, crescem exponencialmente. Assim, um vento, característico de um furacão, com trezentos quilômetros por hora não é apenas dez vezes mais forte que um vento de trinta quilômetros por hora, mas cem vezes mais forte e igualmente, muito mais destrutivo.


O autor, Paulo Cesar Razuk, é professor titular aposentado do Departamento de Engenharia Mecânica da Faculdade de Engenharia da Unesp ? câmpus de Bauru

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