Anteontem, a notícia de um garoto morto aos treze anos, dizia-se palestrante e com uma vida desde os cinco de plena dedicação à causa religiosa. Uma espécie de prematuro pastor. Não o conhecia e o sentimento que tive foi de dor interna, percebendo o quanto deixou de ser criança enquanto teve idade para isso. Muita responsabilidade nos seus costados e na mais tenra idade. Ontem, a notícia de uma perda familiar, minha madrinha, Santa Perazzi, 81 anos, e lembranças de minha infância, de seu pai na portaria do BAC e de todos os dolorosos reencontros possíveis nesses momentos. Na rua, ainda ontem, um parente me conta de seu irmão falecido em dezembro, que não soube, e lamentei por saber pela insólita forma, num casual encontro no meio do nada.
E hoje, terça, 20/03, 15h, a morte um símbolo, Arcôncio Pereira da Silva. Existem pessoas pela quais afirmamos não mais existirem peças de reposição, essas as mais sentidas. Com a ida deste, afirmo não existir mesmo, pois o comunismo, o ideal de sua longeva vida, possui hoje verdadeiros militantes a serem contados nos dedos de uma mão. Foram 96 anos de muita luta e intensamente vividos. Foi ferroviário até quando o deixaram ser, penou para colocar comida em sua mesa quando lhe cassaram o emprego. Décadas depois, a justa anistia lhe devolveu o salário mensal, perdido pela truculência de um insano regime político. Viajou de volta à sua terra natal e sonhava com a chegada de uma indenização, prometida, alardeada e nunca recebida. Sonhou com um mundo mais justo, onde prevalecesse a justiça social e a desigualdade fosse peça de ficção. Sonhou o sonho dos justos. Aqui em Bauru foi um espelho, um símbolo, um baluarte e uma doce pessoa, firme e resoluto com quem devia ser, dos que sempre soube distinguir o norte do sul, o joio do trigo, a esquerda da direita, o roto do esfarrapado, o certo do errado, o dia da noite e, principalmente, nunca se bandeou para o lado oposto. Meu dia estava irremediavelmente perdido, mas um alento acontece. Havia escrito dias atrás algo sentido, do fundo do coração, para o mais importante jornalista em ação nesse país, Mino Carta, e meu celular toca exatamente quando me condoia pela perda do velho comunista. Contei-lhe a história de Arcôncio e ele me pede um texto sobre sua trajetória para a sua revista. Darei o melhor de mim.
O autor, Henrique Perazzi de Aquino, é jornalista e professor de História - www.mafuadohpa.blogspot.com