Articulistas

Gol de placa de Romário

Nilson Costa
| Tempo de leitura: 3 min

Eleger ex-esportistas famosos, atores e atrizes de passado brilhante nas telas do cinema e da TV, nem sempre dá certo. Aliás, comumente dá errado e isso pode ser conferido folheando a lista dos que chegaram aos parlamentos federal, estaduais e municipais. Galãs de telenovelas, heroínas de histórias de amor e paixão, arqueiros de seleção, goleadores de equipes campeãs de torcidas, zagueiros intransponíveis etc etc, tiveram vez e voto na representação popular. Você, leitor, tem lembrança de alguém no citado rol que houvesse repetido nas tribunas legislativas as glórias esportivas do passado? Eu, francamente, não me recordo de trajetórias do tipo por parte de ídolos alçados à política pela escada de beijos trocados na telinha e pelos gols de placa nos gramados. Por que essa incapacidade dos eleitos em corresponder à confiança de milhões de eleitores? Qual a chance de Tiririca, palhaço confesso, obter o aplauso do público fora do picadeiro circense? Quase nula, penso eu. Salvo três ou quatro menções por ano feitas por órgãos de comunicação no registro da atividade parlamentar do deputado recordista de votos no estado de São Paulo ? incluindo os obtidos aqui na região ? nada se vê de produtivo e sequer de engraçado no seu desempenho parlamentar. E já vamos para a metade de seu mandato...

Há vários motivos que explicam a dificuldade enfrentada por esses calouros da política em suas tentativas de reviver as glórias do passado. No novo picadeiro esbarram em comissões técnicas, têm pela frente "raposas" experimentadas, não conseguem espaço nas chamadas "lideranças de bancadas". Têm de suportar a disciplina das alianças pró ou contra o governo. Acabam sucumbindo aos esquemas de sempre, encantados com as mordomias do salário astronômico, das "verbas de gabinete", do auxílio-moradia, do auxílio-paletó etc etc. O eleitor de ontem acaba esquecido e o de amanhã se torna problemático. Daí a dificuldade dos ex- heróis retornarem reeleitos às casas de lei. Os eleitores têm memória e costumam castigar aqueles que não honraram seus mandatos. Retratei aqui o lugar comum dos craques de bola que se tornam pernas-de-pau quando no manejo das leis e da fiscalização dos negócios públicos. Mas parece que estamos diante de uma exceção. Pelo menos neste ano e pouco do exercício da atual legislatura federal. Refiro-me ao desempenho de Romário, goleador emérito nos seus tempos de Seleção Brasileira e hoje infenso à marcação política de seus pares. Ao enfrentar com gestos e palavras as cúpulas da CBF e da FIFA, prevendo o "maior roubo da história" ? caso não se ponha ordem nas tratativas das obras da Copa do Mundo ? Romário faz inveja aos líderes da oposição e deixa claro que repetirá o que fazia em seus tempos de artilheiro. Isto é, castigará os adversários em busca daquilo que dele esperam os brasileiros em geral: um gol de placa na Copa de 14, marcado nas redes da corrupção. Quem imaginava que poderia surgir da boca do futebolista-deputado Romário a palavra de alerta contra os aproveitadores de sempre? Havelange, o ex-poderoso da FIFA, e seu ex-genro Ricardo Teixeira, já penduraram suas chuteiras. E quem continua de chuteiras lá em Brasília, prometendo gols de ética, é o inquieto parlamentar fluminense. Que ele possa inaugurar uma nova fase de consagração dos atletas travestidos de defensores da Pátria, a exemplo do mineiro-bauruense Edson Arantes do Nascimento, o Pelé, que foi ministro do Esporte e não sujou as mãos.


O autor, Nilson Costa, é ex-prefeito, atual presidente da ABLetras

Comentários

Comentários