Polícia

Jovem morre ao cair de veículo

Tisa Moraes
| Tempo de leitura: 5 min

Bruna Cristina Juliana de Oliveira, 18 anos, tinha o sonho de se formar em enfermagem ou seguir carreira de modelo. De fato, era uma garota bonita, que possuía muitos amigos e gostava de se divertir. Mas, na madrugada de ontem, a rotina agitada e os projetos de vida da jovem foram interrompidos por um trágico acidente que lhe tirou a vida.


Bruna, assim como duas adolescentes de 15 e 16 anos, estavam na caçamba de uma picape Corsa que se desgovernou na quadra 26 da avenida Duque de Caxias, após o motorista Raphael Braulino da Silva, 27 anos, tentar escapar de um patrulhamento policial. Além de levar três garotas no veículo sem a devida segurança, ele não tinha habilitação para dirigir e estava embriagado. Preso em flagrante, o condutor responderá a inquérito por homicídio doloso, quando há intenção de matar.


Horas antes de sua morte, a vítima se divertia em uma casa noturna com uma prima e uma amiga. Por volta das 3h30, as três decidiram ir embora e encontraram, na saída, Raphael e outra garota, de 16 anos, que elas conheciam do bairro Leão 13, onde Bruna morava. Após uma breve conversa, pegaram carona na carroceria da picape.


A movimentação foi notada por uma viatura da Polícia Militar (PM) que realizava patrulhamento de rotina na rua Capitão Alcides. Ao perceber a aproximação do carro oficial, Raphael fugiu em alta velocidade em direção à avenida Duque de Caxias, na altura da quadra 22.


Cerca de 400 metros adiante, na quadra 26, ele perdeu o controle do veículo, bateu a roda do carro na sinalização de solo - comumente conhecida como “tartaruga” - e só parou ao atingir a parede e um portão de um estabelecimento comercial. Com o impacto, as três adolescentes foram lançadas para fora da carroceria.


Bruna não resistiu à extensão dos ferimentos e morreu na hora. As duas garotas que estavam com ela tiveram apenas algumas escoriações pelo corpo e foram socorridas pelo Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu). Já Raphael e a outra jovem que estava com ele dentro do veículo não sofreram ferimentos.


O condutor foi submetido ao teste do bafômetro e o exame apontou a presença de 0,77 miligramas de álcool por litro de ar expelido dos pulmões, mais que o dobro do limite máximo permitido pela lei, que é de 0,33 miligramas. Ele foi encaminhado ao Centro de Detenção Provisória (CDP) e, se condenado, poderá cumprir pena de 12 a 20 anos de prisão.




Risco assumido


De acordo com o delegado plantonista Paulo Calil, Raphael responderá por homicídio doloso porque dirigia embriagado, sem Carteira Nacional de Habilitação (CNH), em alta velocidade e transportando passageiros em desacordo com o previsto no Código de Trânsito Brasileiro (CTB). “Ao desrespeitar várias normas de trânsito, ele assumiu o risco de provocar lesões e até de matar pessoas. Então, responderá por dolo eventual”, aponta.


Na tarde de ontem, durante o velório de Bruna, o pai da garota, o auxiliar de serviços gerais Mauro de Oliveira, 41 anos, considerou o acidente uma fatalidade. Entretanto, afirmou que espera justiça pela morte da filha. “O Raphael não é uma má pessoa, a gente conhecia da rua. Mas ele fez tudo errado, não pensou nas consequências, na dor das famílias, então tem de pagar por isso”, argumenta.     


Bruna era a filha mais nova de três irmãos e morava no bairro Leão 13. Segundo o pai, ela mantinha uma vida harmônica com a família, embora gostasse bastante de sair com os amigos à noite. “Ela saía de quinta, sexta e sábado. Era uma adolescente normal, alegre, que queria aproveitar a vida. Mas ela não dava trabalho nenhum, era uma menina muito amorosa”, afirma.


Depois de concluir o Ensino Médio, a jovem havia deixado de estudar. Trabalhou como vendedora e babá, mas ainda mantinha o desejo de se formar em enfermagem. Conforme revela o pai, a filha também sonhava ser modelo profissional e ele diz que ela tinha potencial para ser bem sucedida na carreira.


“Ela chamava a atenção. Era muito bonita. E muito nova. É uma tristeza muito grande perder uma filha dessa maneira”, lamenta. O velório de Bruna seguiu durante a madrugada e a previsão era de que seu corpo fosse sepultado ainda na manhã de hoje no Cemitério Cristo Rei.

 


Duas doses de uísque


Durante depoimento, Raphael Braulino da Silva, 27 anos, relatou à Polícia Civil que ingeriu duas doses de uísque e que ficou embriagado porque não estava acostumado a consumir este tipo de bebida. Segundo o delegado plantonista Paulo Calil, o condutor da picape Corsa chorou e demonstrou arrependimento depois de provocar tamanha tragédia.


“Mas, por mais que ele tenha reconhecido seu erro, seu organismo apresentou o dobro da concentração alcoólica máxima permitida. Neste caso, terá de responder pelas consequências que causou”, destaca.


Calil explica que o veículo que Raphael conduzia pertence à empresa onde o pai dele trabalha. Na próxima semana, as vítimas sobreviventes e o pai do condutor serão chamados para prestar esclarecimentos no 3º Distrito Policial (DP), que ficará responsável pelo inquérito sobre o caso.

 

‘Não houve excesso’, afirma a Polícia Militar


Durante o velório de Bruna Cristina Juliana de Oliveira, na tarde de ontem, parentes questionavam a ação da Polícia Militar (PM), que teria seguido a picape Corsa que carregava três garotas na carroceria. De acordo com familiares, o cerco ao veículo poderia ter sido feito de forma a evitar uma perseguição em alta velocidade.


Comandante da Base Comunitária Centro, o tenente Adriano Aguiar esclarece que não houve excesso por parte dos policiais que participaram da ação. Conforme sua análise, todos os protocolos da PM foram seguidos, inclusive os que preconizam uso de bom senso e análise de riscos.


Ele explica que a viatura e a picape Corsa estavam na rua Capitão Alcides, em sentidos opostos, quando se encontraram. Ao avistar os policiais, Raphael Braulino da Silva teria arrancado com o carro e cruzado com o veículo oficial.


“Até a viatura manobrar para seguir na mesma direção da picape, demorou um tempo. Quando os policiais chegaram na Duque, na altura da quadra 22, a picape já estava na quadra 25, a 300 metros de distância. O condutor perdeu o controle na quadra seguinte, antes mesmo de a viatura conseguir se aproximar”, detalha.


Segundo o comandante, outras viaturas foram acionadas para fazer o cerco ao veículo, mas não houve tempo de os carros chegarem ao local. “Temos uma testemunha, já qualificada, que comprova toda esta dinâmica. O motorista correu ao ver a viatura em patrulha, e não porque houve perseguição”, aponta.

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