Quando o meio ambiente ainda não era o “prato do dia”, um grupo de voluntários da cidade de Bernardino de Campos (11
quilômetros de Bauru) foi à luta para preservar o rio Paranapanema da poluição. Na época, lembram os ambientalistas, o rio era “ninho” de várias espécies de peixes. Uma usina da região faz a reposição anual de alevinos, porém os pescadores amadores, com redes, inviabilizam o crescimento deles. Uma vez ao ano, os voluntários fazem a limpeza de um trecho do rio.
Rubens Damião de Lima, o Rubito, um dos 11 integrantes da Associação Ambientalista Defensora da Bacia do Paranapanema, explica que a pesca com rede é um problema para os cardumes. “Estamos trabalhando no combate a pesca com rede, por amadores. Os pescadores profissionais, aqueles que vivem da pesca, têm autorização para pescar com redes, os demais, não.”
Ele frisa que os amadores pescam o pacu com 3
gramas. “O rio Paranapanema ainda tem muitos peixes das espécies pacu, curimbabatá, piapara e outros. O pacu chega a pesar 15 quilos, mas os pescadores amadores recolhem o peixe com menos de meio quilo. Anualmente, a usina faz a reposição. Soltam milhares de alevinos em pontos estratégicos para que ninguém saiba onde está o cardume.”
Segundo o presidente da associação, Sílvio Pereira, quando a ONG foi criada, no final da década de 9
, a ideia era preservar a vida dos peixes e a pesca profissional. Nesse período, ainda havia muita gente que vivia da atividade. “Para preservar o peixe é preciso ter água de boa qualidade. Proibindo a pesca com rede, também estamos garantindo a preservação da espécie. Infelizmente, não temos o poder de fiscalização de polícia, por isso partimos para a conscientização.”
Para colocar em prática a educação ambiental, a associação fez parceria com a prefeitura. “O nosso objetivo é conscientizar as crianças. Temos uma sala de aula aqui para acolher os alunos. Durante todo o ano, as escolas trazem os alunos e um professor dá aulas sobre meio ambiente e preservação do Rio Paranapanema. O projeto é o Ação Jovem.”
Mudas para recuperar as APPs
As mudas desenvolvidas na associação de Bernardino têm dois destinos: APPs e praças da zona urbana. São nativas da região, que encontram em caixinhas de leite vazias seu primeiro habitat.
“Antigamente, elas eram plantadas em sacos plásticos. Faz três anos que abolimos o plástico. Desde o ano passado, aderimos à caixinha de leite. Os moradores guardam e remetem para nós. Aqui, elas são lavadas e preparadas para que a semente se desenvolva”, explica Rubens Damião Rubito de Lima.
Aproximadamente 64 dessas mudas, lembra o presidente Sílvio Pereira, foram plantadas na saída para o município vizinho, Manduri. “Fornecemos mudas para a prefeitura usar em praças e jardins municipais”, explica Pereira.
Um bar no meio do caminho
Uma vez ao ano, a Associação Ambientalista Defensora da Bacia do Paranapanema reúne voluntários para recolher, durante todo o dia, o lixo que os moradores da cidade e da região despejam no rio Paranapanema.
“São cerca de 2
a 3
barcos com pessoas aptas a recolher lixo. Neste dia a sociedade se mobiliza. Levamos as crianças para despertar a consciência. Já retiramos das águas lixos de todas as espécies. O que mais chama a atenção são os fogões velhos, sofás, guarda-roupas, muita garrafa pet, latinhas e uma infinidade de material plástico”, ressalta o presidente da associação, Sílvio Pereira.
No trecho do rio que passa por Bernardino, ele fica limpo, mas em pouco tempo volta a receber lixo, explica Rubens Damião de Lima. “Em Piraju, cidade vizinha, há um bar na beira do Paranapanema. Os usuários, sem consciência ecológica, atiram garrafas pets e latinhas no rio. Muita sujeira se acumula. Precisamos conscientizar a população. Há alguns anos conseguimos recolher quatro toneladas de lixo. Atualmente, esse volume diminuiu.”
Perigo à vista
Hélio Palmesan é enfático em dizer que uma ideia perpetuada por muitos anos no Brasil acabou prejudicando o meio ambiente. “Criou se uma falsa ideia de que temos água de sobra. Sempre se falou que no Brasil estão as maiores bacias hidrográficas. Essa maneira de pensar provocou o desperdício.”
Ele ressalta que é bom que o brasileiro lembre-se que a água potável é pouquíssima, não só no Brasil, mas em todo o mundo. “Pessoas que moram dentro da bacia amazônica que é a maior do mundo, não têm água para beber. Eles captam água de chuva . Lá quando as pessoas casam ganham tambores de presente.”
ONG Mãe Natureza defende tratamento terciário para a despoluição dos rios
A morte de toneladas de peixes no início da década de 8
deu o “start” para que Hélio Palmesan, morador de Barra Bonita (68 quilômetros de Bauru), desse início a um abaixo-assinado com centenas de assinaturas de pessoas indignadas e chocadas com a cena, peixes boiando sobre as águas do rio Tietê.
A ação que deu origem ao Movimento de Defesa do Tietê, hoje ONG Mãe Natureza, resultou em processo crime e multa contra a empresa causadora. “O rio Tietê dava seus primeiros sinais de deterioração e morte provocada pela quantidade excessiva de dejetos lançados in-natura em suas águas.”
Em pouco mais de 3
anos, a ONG é uma das entidades ambientais mais respeitadas e reconhecidas no Estado de São Paulo. Conquistou esse espaço às custas de muitas ações em defesa do rio Tietê e do meio ambiente.
A sua mais recente conquista foi o reconhecimento pelo Departamento de Água e Energia Elétrica (DAEE) que as Estações de Tratamentos de Esgoto (ETE) necessitam fazer o tratamento terciário do esgoto. “No ano passado entreguei um documento ao governador explicando que as estações não contemplam o tratamento terciário. Sem ele, a água fica com aspecto de tratada, mas não retira o fósforo, sais e nitratos. A aparência fica boa, mas continua com produtos nocivos para os corpos hídricos, por isso o aparecimento das algas.”
Ele conta que conseguiu sensibilizar o governo e mostrar que todos os investimentos que eles estão fazendo no Projeto Tietê e Água Limpa podem ser em vão. “Eles estavam trabalhando errado. Eles investiram R$ 3,5 bilhões no Tietê no trecho da Capital. O projeto está na terceira etapa. O grande problema do Tietê é que a região tem que tratar o esgoto deles. Barra está investindo R$ 12 milhões.”
Palmesan explica que a água do Tietê vem sendo monitorada. “Estamos diante dele e fazemos um monitoramento diário do oxigênio das águas do rio. Aqui somos um termômetro do rio. Estamos longe de ver os rios despoluídos.”
A ONG mantém um projeto de educação ambiental e fez o monitoramento via satélite das nascentes. “O projeto Educando sobre as Águas já visitou mais de 2
escolas no Estado. Atendeu mais de 1 milhão de alunos e continua em campo. Este é um grande projeto que deve ser copiado pelo Estado, pelos outros estados, mundo afora.”
Atualmente, a ONG Mãe Natureza participa dos comitês de bacias. “Nós acabamos não se envolvendo somente com as causas do Tietê. Participamos dos comitês de bacias, desde o surgimento delas. Temos três cadeiras dentro dos comitês.”
Paranapanema ainda recebe esgoto
Na “luta” pela preservação da água dos rios, as ONGs ainda estão levando a pior, por conta do esgoto que é despejado diariamente, lamenta Ricardo Assaf, da Adevida de Piraju. “Aqui em Piraju temos uma lago de tratamento, mas há municípios vizinhos que ainda despejam o esgoto no Rio.”
Ele lembra que o Paranapanema é um dos maiores rios do Estado de São Paulo. “O Tietê divide o Estado ao meio. O Paranapanema nasce pouco à frente de Itapetininga e vai até o rio Paraná, na divisa do Estado do Paraná. Todos os municípios que têm limites com ele captam água dele. Ele tem 12 usinas hidrelétricas, por isso a nossa preocupação.”
Fio da navalha
O rio Tietê está no fio da navalha, diz o ambientalista Hélio Palmesan. Para defender a tese, ele usa dados concretos. “O Tietê pode amanhecer bem e no período da tarde apresentar alterações. Água limpa ele recebe da chuva e da nascente que é de três mil litros/hora. Ele aguenta a carga difusa de 61 cidades com uma população aproximada de 31 milhões de habitantes. São fezes, tinta de cabelo e pílula anticoncepcional que vão acabar com o rio.”
Para Palmesan, se esses números assustam, pior ficará se somarmos os 2
4 municípios restantes do Estado de São Paulo. “As 61 cidades são da calha. Se acrescentarmos os outros 2
4 municípios das seis bacias que formam o Tietê, não sei onde esse número vai parar.”
Ele explica que existem dois divisores de água no Estado de São Paulo. O Rio Grande de Ribeirão Preto e o Tietê que está no centro geográfico e corta o Estado de leste a oeste. “Ele é um grande penico, recebe toda a carga difusa.”
Na avaliação dele, houve grandes avanços. “Talvez pelas ações da ONG Mãe Natureza que começaram na década de 8
, em Barra Bonita e na região ainda não estamos vendo passar aqueles focos de espuma, vistos na região de Cabreúva, Salto e Pirapora.”
Ele lembra que no ano retrasado surgiram espumas no Tietê. “Elas são provocadas pelo sabão, produtos de limpeza. No Brasil, a fórmula desses produtos têm níveis de tripolifosfato de sódio muito altos em comparação com os fabricados na Europa. A Comissão Européia bateu forte nesse item e fez os fabricantes retirarem da fórmula. Aqui ainda estamos lutando para isso.”
O fósforo, segundo ele, pertence à cadeia tópica. “É a base dos fertilizantes usados na lavoura. A planta cresce por causa do fósforo. As nossas fezes ficam saturadas de fósforos, além de estar presente no sabão, no adubo e no alimento. O fósforo faz proliferar as algas no rio. É altamente nociva para os seres aquáticos. Ela forma uma nata verde sobre a água que impede a penetração da luz solar. Sem ela, não se faz a fotossíntese, os peixes ficam sem alimentos.”
Ele frisa que as cidades por onde “caminha” o Tietê, quase todas, retiram água do lençol freático. “Do subsolo, que é um processo caro. Nenhum cientista sabe dizer quanto de reserva de água temos no subsolo. Para complicar, estamos numa região de monocultura altamente canavieira. Durante as décadas passadas, na calada da noite, praticamente enterraram as nossas nascentes com trator. Barra não tem um litro de água captado de água superficial, tudo é captado do lençol freático. Não existe garantia alguma que daqui há 1
ou 3
anos vamos ter um colapso fatal. Água é um assunto que nós damos atenção especial porque são mais de 6
países que não tem água para consumo humano.”