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Descendente volta ao Japão após tsunami

Marcele Tonelli
| Tempo de leitura: 4 min

Um ano após a tragédia que abalou o Japão, provocada por um terremoto que desencadeou uma parede de água deixando cerca 20 mil pessoas mortas e desaparecidas, o País começa a sinalizar recuperação. Empresas japonesas de autopeças e alimentos estão em contato com agências brasileiras na busca de mão de obra para repor o desabastecimento. Em Bauru, vários descendentes estão de malas prontas para retornar ao Japão a trabalho ou para visitar os familiares que ficaram no país.


O bauruense Luiz Gustavo Nitta Santos, 27 anos, assim como diversos descendentes, já superou a tragédia e pretende voltar para o Japão com a família até o início de abril, quando os vistos forem liberados.


“Acreditamos que o pior já passou, apesar de ainda termos receio da radiação que ficou. A família da minha esposa mora lá e eles apoiam nosso retorno. Nós voltaremos para uma região de risco, perto do mar, mas mesmo assim vale a pena pelo salário e pela qualidade de vida”, ressalta Nitta, que hoje mora com a família na casa da mãe em Bauru.


Na época do tsunami, o rapaz morava na cidade de Chiba-Ken, próxima a Tóquio, com a esposa Caroline Nitta dos Santos, 25 anos, e a filha Yasmin Nitta dos Santos, 2 anos. Ele conta que a fábrica de peças eletrônicas na qual trabalhava era situada em frente ao mar e, no dia do terremoto, diversas bombas de gás explodiram próximas ao prédio da indústria.


“Foi uma correria, as portas foram fechadas para que ninguém saísse e os operários receberam instruções para subirem ao último andar do prédio da empresa para fugir do tsunami”, lembra o rapaz.


De acordo com a Nipon Tour, com sede em Bauru, o número de descendentes de japoneses que procuraram a agência de viagens para regressar ao país aumentou em mais de 40% após o período das tragédias.


“Temos uma média de 15 pessoas que nos procuram mensalmente em toda a região com intuito de retornar para o Japão visitar a família ou para trabalhar. Mas isso é nossa realidade, tem agência que, hoje, chega a embarcar 50 pessoas. Isso tudo sem contar aqueles que viajam de maneira particular”, confirma Edson Takao Koaro, diretor comercial da Nipon Tour.


Segundo ele, de abril a julho de 2011, as viagens em busca de empregos no Japão estacionaram, tendo o ritmo retornado há apenas alguns meses.


“Este mês, enviaremos quatro bauruenses para o Japão, com visto de três anos, trabalho e moradia confirmada”, enfatiza o diretor da Nipon.


“Empresários do ramo de alimentos, autopeças e eletrônicos estão em contato direto conosco para buscar trabalhadores e suprir o desabastecimento que ronda algumas regiões do país. Por conta disso, a procura está maior e deverá crescer ainda mais neste ano”, completa Koaro.


A procura pelo trabalho no Japão tem origem histórica e econômica. Trabalhando em um regime de 8 horas diárias, um operário de uma indústria de autopeças, por exemplo, possui um salário mensal bruto de aproximadamente três mil dólares.


Outra questão destacada pelos descendentes que vão até o país em busca de vantagens econômicas é o fato das empresas pagarem as horas extras aos funcionários.

 

 

‘Em uma semana, precisamos nos desfazer de tudo’


A campinense Caroline Nitta Santos morou por 15 anos com a família no Japão, onde conheceu e casou-se com Luiz Gustavo. Da união nasceu a pequena Yasmin que na época do desastre tinha apenas um ano de idade.


Com medo das ameaças trazidas pela radiação e por conta do racionamento de energia, produtos, alimentos e água, enfrentados pelos japoneses na época do desastre, a família voltou, em uma semana, para Bauru morar com os pais de Luiz Gustavo.


“Em dois dias os alimentos acabaram, as prateleiras das lojas estavam vazias. Tínhamos carro, apartamento e, em uma semana, precisamos nos desfazer de tudo. Nessa hora o dinheiro não valia a pena, a segurança da minha esposa e da nossa filha era prioridade”, relata Luiz Gustavo.


De volta ao Brasil e um ano após o sufoco vivido, a família Nitta dos Santos irá aproveitar o momento de superação e reconstrução do país para regressar e se reestruturar novamente na terra do sol nascente.


“A violência aqui acaba compensando essas tragédias de lá. Fui assaltada no trabalho há algumas semanas. Conversando com meu marido, percebemos que aqui ou lá estaremos correndo riscos de qualquer forma. Então, iremos aproveitar o momento e voltar para o Japão ficar um pouco com a minha família e refazer nossa vidinha”, afirma Caroline.


Por meio de uma agência de viagens, Luiz Gustavo, conseguiu realizar contato com a indústria em que trabalhava no ano passado e irá retornar para a mesma função. Já Caroline, que era funcionária de um restaurante ficará em casa cuidando da filha do casal.


Apesar do sonho em ter uma vida melhor no Japão, o casal não descarta que pretende juntar as economias para voltar a morar no Brasil daqui a alguns anos.

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