O desenhista, jornalista, dramaturgo e escritor Millôr Fernandes morreu na noite de ontem, aos 88 anos, em sua casa no Rio. De acordo com a família, ele sofreu falência múltipla dos órgãos e parada cardíaca. O velório será realizado hoje, das 1
h às 15h no Cemitério Memorial do Carmo, no Caju, na Zona Portuária do Rio. Depois, o corpo será cremado em cerimônia restrita à família.
Em novembro de 2
11, Millôr Fernandes recebeu alta depois de quase cinco meses internado na Casa de Saúde São José, situada em Botafogo, zona sul do Rio. Em fevereiro do ano passado, ele sofreu um AVC (acidente vascular cerebral) isquêmico.
Nascido no Méier, Millôr nasceu Milton Fernandes em 16 de agosto de 1923, mas foi registrado em 27 de maio de 1924. Na certidão, o “t” aberto na parte superior teve seu traço colocado apenas sobre a letra “o” e o “n” ficou inconcluso, sugerindo a grafia Millôr em vez de Milton.
O pai morreu quando ele tinha um ano e a mãe, quando tinha dez. Com apenas 14 anos, começou a trabalhar como jornalista. Aos 19, foi contratado pela revista “O Cruzeiro”. No período em que ficou na publicação, as vendas subiram de 11 mil exemplares para 75
mil.
Millôr fez sua primeira exposição de desenhos em 1957, no Museu de Arte Moderna. Foi um dos criadores do “O Pif-Paf”. Apesar de ter durado apenas oito edições, o jornal é considerado o início da imprensa alternativa no Brasil. Ele foi ainda um dos colaboradores de “O Pasquim”, reconhecido por seu papel de oposição ao regime militar. Além disso, foi uma das primeiras personalidades brasileiras a ter espaço na Internet, inaugurando seu site, que segue no ar até hoje, no ano 2
. No Twitter, tem mais de 368 mil seguidores.
Millôr foi também dramaturgo, autor de peças como “Pigmaleoa” (1962) e “Computa, Computador, Computa” (1972). Seu trabalho como tradutor também foi marcante, em especial para teatro. Suas versões de peças de Shakespeare se tornaram referência no meio, assim como de outros autores, sobretudo de língua inglesa - como Edward Albee, Tennessee Williams e Beckett -, mas não só.
Entre suas principais obras publicados estão “The Cow Went to the Swamp ou A Vaca Foi para o Brejo” e “Livro Vermelho dos Pensamentos de Millôr”.
Millôr foi colaborador da revista “Veja” e de vários jornais, entre eles, “O Globo” e “O Estado de São Paulo”. Avesso a entrevistas, o escritor não costumava falar sobre seus trabalhos com jornalistas.
Nilson Costa lamenta perda: ‘Ele era uma referência’
O ex-prefeito de Bauru e atual presidente da Academia Bauruense de Letras, Nilson Costa, de 82 anos, lamentou a morte de Millôr Fernandes e diz que teve o escritor como grande referência. “Independente de sua inclinação ideológica, ele foi uma referência e influência importante principalmente para os jornalistas”, afirmou Nilson.
No campo político e social, Millôr foi um intelectual que pregava ideais pela igualdade social, conforme recorda Nilson. “Ele, assim como outros intelectuais, acreditava na utopia de igualdade social. Junto a outras personalidades, ajudava a formar uma corrente socialista”, salientou.
Isto é Millôr...
“Só louco rasga dinheiro? Bobagem. Nem louco rasga dinheiro. Experimente jogar uma nota de cinquenta reais (ou mesmo de um!) num pátio de insanos. A briga vai ser feia.”
“Bhundismo da semana: Menina, a caridade é mais importante do que a castidade. Dê para um desempregado.”
“Anatomia é uma coisa que os homens também têm, mas que, nas mulheres, fica muito melhor.”
“O aumento da canalhice é o resultado da má distribuição de renda.”
“Nunca tantos deveram tanto a tão porcos.”
“Mordomia é ter tudo que o dinheiro - do contribuinte - pode comprar.”
“Chama-se de herói o cara que não teve tempo de fugir.”
“Infelicidade: Nascer com talento melódico numa época em que o pessoal só se interessa por percussão.”
“A gente tem que experimentar de tudo. Desde que seja de graça e não doa muito.”
“Calúnia na Internet a gente tem que espalhar logo, porque sempre é mentira.”
“Repito, mais uma vez: supremo eu só conheço o de frango.”
“O homem é o único animal que ri. E é rindo que ele mostra o animal que é.”
“Em agosto, nas noites de frio, a pobreza entra pelos buracos da roupa.”
“Idade da razão é quando a gente faz as maiores besteiras sem ficar preocupado.”
“O preço da fidelidade é a eterna vigilância.”
“Beber é mal. Mas é muito bom.”
“Como são admiráveis as pessoas que não conhecemos muito bem.”
“Nunca conheci ninguém podre de rico. Mas já vi milhares de pessoas podres de podre.”
“Eu sei sempre do que é que estou falando.”
“O capitalismo não perde por esperar. Em geral ganha 6% ao mês.”
“Quem confunde liberdade de pensamento com liberdade é porque nunca pensou em nada.”
“Toda lei é boa desde que seja usada legalmente.”
“Tirando isso não sei mais nada.”
“Eu também não sou um homem livre. Mas muito poucos estiveram tão perto.”
“Todo homem nasce original e morre plágio.”