E rice acorda lentamente. É invadida por turistas que se entendem como podem com os lojistas - a maioria não fala inglês. A guia diz que ali vivem de 100 a 150 pessoas e dá para acreditar, mas a informação oficial é de que toda a cidade tem quase 30 mil habitantes. O sol expulsa a neblina aos poucos e revela caminhos estreitos, muralhas e palácios.
Conta-se que Erice foi formada pela mistura de foragidos da Guerra de Troia. Fato é que foram os élimos que ergueram a cidade, que recebeu ainda influências de fenícios, gregos, romanos, árabes e normandos.
Originalmente, Erice era local de culto à deusa da fertilidade, Vênus (Venere Ericina, daí seu nome). Em 831 d.C., com o domínio árabe, seu nome foi mudado para Gebel-Hamed (Monte de Hamed). A denominação não resistiu à invasão normanda, mas (ainda bem) os doces introduzidos pelos árabes permaneceram, especialmente os marzipãs, e fazem da cidade uma referência no assunto em toda a Sicília. A loja mais famosa é a Pasticceria Maria Grammatico, de uma ex-freira que trouxe do convento os segredos dos deliciosos doces. Prove os cannolis, outra especialidade local. O canudo de massa doce frita, recheado com creme de ricota, não tem meias medidas: provoca amor ou ódio.
É da época normanda o Castelo de Pepoli, hoje um hotel. Sorte é que a cidade pouco mudou desde a Idade Média, dentro dos limites de suas muralhas. Estão lá suas três portas de entrada e pelo menos 15 igrejas. Entre elas, visite as de San Giovanni Battista (século 13) e San Cataldo (século 14). Vá acompanhado: mesmo com sol a pino, se perder sozinho pelos caminhos de Erice dá arrepio. Dá a impressão de que seus portões se fecham quando o último turista vai embora. Mas, provavelmente, você vai querer ficar preso na cidade das brumas.
Encantamento ao pé do Monte Etna
Taormina é daquelas cidadezinhas adoráveis que você escolhe para passar a lua de mel Deve ser por isso que casamento, por ali, provoca até congestionamento em frente à catedral e na Piazza IX Aprile. Em uma simples quarta-feira, duas noivas alternavam posições para as fotos. Boa escolha. É da praça que se tem uma das vistas mais bonitas: as casinhas na encosta, os quintais com limoeiros e cactos, o azul do Mar Jônico e o sempre ativo, e volta e meia fumegante, Monte Etna.
É difícil explicar o encantamento que a cidade causa e que faz com que ela seja um dos principais destinos turísticos da Sicília. Mas há boas pistas. Encravada na encosta do Monte Tauro, a 200 metros do nível do mar, na província de Messina, Taormina mistura igrejinhas, casinhas coloridas e floridas, antiquários, butiques, lojas de arte, cafés, restaurantes charmosos, praias próximas e história. É più bella.
Fundada em 358 a.C., foi colonizada por gregos, romanos, bizantinos e árabes. Dos primeiros, ela ostenta o Teatro Grego, do século 3 a.C., cartão-postal da cidade e usado até hoje para óperas e shows, com capacidade para 5 mil pessoas. O problema é que assistir a um espetáculo ali é lutar contra a tentação de ficar admirando só a paisagem.
Percorrer o principal de Taormina é simples e pode ser feito em um dia. Basta caminhar 20 minutos, em passos rápidos, pela Corso Humberto I, a via pulsante do centro antigo. Mas esqueça a pressa. Taormina é para ser sorvida em pequenas descobertas. Por isso, deixe-se envolver pelo clima que inspirou escritores e artistas como D.H. Lawrence, Goethe, Nietzsche, Oscar Wilde, Coppola, Fellini e Liz Taylor e embrenhe-se pelas escadinhas que saem da rua. Você poderá encontrar uma cantina com música italiana ao vivo, lojinhas de arte e até o Parque Duca di Cesaro, na Villa Comunale, criado no fim do século 19 por lady Florence Trevelyn, uma observadora de pássaros.
SEMPRE ALERTA
Pano de fundo para as melhores fotos em Taormina, o Etna está tão próximo dali, a 59 quilômetros, que é irresistível não dar um pulinho até o vulcão mais alto e mais ativo da Europa. São 45 minutos de carro. Mas a sensação é de ter feito uma viagem espacial: parece que se está pisando na lua. Nos locais de atividade mais recente, não há nada a não ser massa preta, que se despedaça em pó fino à medida em que é pisada.
O ponto mais alto do Etna tem 3.350 metros e isso quer dizer que é sempre muito frio - no inverno dá até para esquiar. A visita ao cume ativo precisa de guias e autorização do Parque Nacional do Etna. Mas é possível chegar a alguns dos 700 cones secundários do vulcão. O ponto de partida é a 1.900 metros, num complexo ao sul do Monte, onde está a Cratera Silvestri, um cone inativo.
Cidade "respira" a trilogia "O Poderoso Chefão"
Nenhuma música estará tocando. Mas ainda assim você ouvirá "Speak Softly Love", o tema de "O Poderoso Chefão", vindo de algum lugar de suas memórias afetivas quando pisar em Savoca e Forza D?Agro. Afinal, você está mesmo em Corleone, quer dizer, nos locais onde algumas cenas da trilogia foram filmadas.
Nessa parte da Sicília, a 15 quilômetros de Taormina, os relógios parecem ter parado no início do século 20. Savoca foi uma boa opção para Francis Ford Coppola na década de 1970 - conta-se que a cidade de Corleone era muito desenvolvida (e perigosa) para a data em que o filme se passa. Seria boa opção ainda hoje, com seus 1.650 habitantes. Apesar de muitas casas terem sido acrescentadas em 40 anos, a cidade parece não ter sofrido tanto com a globalização nem com os ônibus de turismo.
Equilibrada em colinas da província de Messina, a 300 metros do nível do mar, Savoca é alcançada por uma estrada que serpenteia entre quintais com limoeiros. É vendida como a Cidade das Artes. Mas ali importa mesmo é respirar a atmosfera do filme, reconhecer as cenas, romantizar a máfia, ser um pouco Michael Corleone (Al Pacino).
Sente-se no Bar Vitelli, na praça principal, peça uma cerveja ou uma granita, a raspadinha italiana. Discorra sobre a beleza do local, como o personagem fez neste mesmo bar em que pediu Apollonia (Simonetta Stefanelli) em casamento no primeiro filme. As cadeiras não são as mesmas e hoje uma trepadeira oferece sombra às mesas. Mas é possível respirar a cena.
Dentro, há fotos da película e objetos antigos, misturados a limões e uma carabina. Dá até para imaginar Coppola se movimentando pela praça para captar o melhor ângulo da festa de casamento dos personagens. Será que ele também ficou encantado com a vista que chega ao Mar Jônico? Talvez por isso este ponto tenha sido escolhido para abrigar uma escultura em sua homenagem.
Dali você verá no alto a igreja San Nicolo (ou Santa Lucia), que pouco guarda de sua fundação no século 13. Foi nela que Michael e Apollonia se casaram e, embora apareça pouco, é emocionante estar ali. É como se nada disso se tratasse de filme e sim da saga real de uma família de sicilianos mafiosos.
Fundada em 1139, Savoca tinha quase o triplo de habitantes de hoje durante a Idade Média. Mas começou a perder moradores e popularidade no começo do século 19, quando muitos seguiram para o litoral. Hoje, os turistas fazem o caminho inverso, atrás das locações. Alguns, é verdade, em busca de uma curiosidade bizarra do Convento dei Cappuccini: 32 cidadãos, que viveram nos séculos 17 e 18, mumificados e vestidos com suas melhores roupas. Um espetáculo de horror em tom verde limbo.
O passeio por Savoca é rápido, o suficiente para inebriar a memória com o filme. E é bom que não seja longo, pois assim há tempo de sobra para visitar a encantadora e minúscula vizinha Forza D?Agro, com menos de mil habitantes espalhados em 11 quilômetros quadrados.