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Em busca da ordem

Pedro Luis Bueno Berti
| Tempo de leitura: 2 min

Leio a coluna de João Jabbour, no Jornal Segunda-Feira. Paro, penso, faço algumas ponderações. Sim, é verdade o que está escrito ali. A abordagem é pertinente, as perguntas são relevantes, a preocupação é válida, porém, a busca pelas respostas ou soluções parece seguir um tipo de pensamento que se tornou tópico na modernidade e que pouco ou nada tem a oferecer de substancial à questão: a formulação de um novo sistema político como alternativa àquele que caiu em descrença. Mas a busca por respostas a um grave problema político não deve se iniciar em uma elaboração teórica asbstrata, mas num recuo até as bases experenciais mais concretas do problema, isto é, uma reflexão mais profunda acerca da menor unidade representativa de uma sociedade, a saber, o próprio indivíduo. Trata-se do princípio antropológico de Platão, o de que a pólis é o homem e m escala ampliada, pois reflete o tipo humano de que se constitui. O princípio platônico avança no método socrático da restauração da ordem perdida pela pólis, mas deste se diferencia por um único aspecto, pouco notado pelas ideologias políticas modernas: um líder bem-intencionado não pode recrutar os seus seguidores entre as próprias pessoas cuja confusão moral é a fonte da desordem social, no presente caso, dos desinteressados ou corruptos os quais Jabbour trata em seu texto. A única alternativa consiste primeiramente na formação de uma elite intelectual disposta e capaz de realizar o que Platão chamou de "esforço de caráter quase miraculoso" para a restauração da ordem social corrompida pela desordem ética e moral individual. Na tradição da filosofia política, Eric Voegelin (1901-1985) é quem retoma o tema da ordem verdadeira da alma humana, não apenas recolocando-a no contexto moderno a partir do seu ponto máximo de articulaçã o na tradição greco-cristã, mas também reinterpretando os diversos símbolos pelos quais a ordem se manifestou na dimensão histórica da humanidade. Basicamente, Voegelin rastreia a origem da desordem política moderna no movimento gnóstico do positivismo, que fechou a alma do homem para o transcendente, para a comunidade fundada no ser, através de uma imanentização completa do éschaton, entendido como o sentido e a finalidade da existência humana na história, presentes principalmente nas obras de Comte (os métodos científicos de análise social), Hegel (o culto ao Estado), Marx (a subversão da ordem), os quais antecipam um futuro incerto, mas vislumbrado como certo, na estrutura real do presente. No Brasil,  temos o campo propício no qual vicejam, segundo Voegelin, essas «enfermidades do espírito»: uma elite intelectual militante que faz do positivismo instrumento acadêmico de guerra partidária-ideológica, um povo sem instrução incapaz d e enxergar qualquer noção de ética na política além de uma visão meramente utilitária do Estado, e políticos incapazes de refrear a «libido dominendi» de Santo Agostinho com princípios éticos que fundamentam a ordem da alma, por estarem por demais preocupados em subvertê-los na prática para proveito próprio.

O autor, Pedro Luis Bueno Berti, é estudante de jornalismo

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